===== Fenomenologia hermenêutica (2013:Parte I) ===== //HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Hermeneutics and reflection: Heidegger and Husserl on the concept of phenomenology. Toronto: University of Toronto Press, 2013.// § 1. A ideia de uma filosofia futura como ciência primordial ([[lx>termos:u:urwissenschaft|Urwissenschaft]]) do domínio pré-teórico da vida e da vivência ([[lx>termos:e:erlebnis|Erlebnis]]) é delineada, nas lições do semestre de emergência de guerra de 1919, a partir de sua determinação temática e de sua atitude metodológica genuína, que se firma como fenomenologia hermenêutica, a-teórica e a-reflexiva, demarcando-se assim tanto da filosofia tradicional enraizada no teorético quanto da fenomenologia reflexiva de Husserl. * A questão de saber o que seja propriamente o a-teórico e o pré-teórico não coincide com a diferença já conhecida entre o pré-científico e o científico, pois essa diferença corrente permanece ela mesma presa ao domínio do teorético e obscurece o acesso ao domínio intocado do pré-teórico. * A passagem da atitude pré-filosófica à atitude filosófica exige um afastamento e um desligamento da consciência ingênua da vida imediata, sem que isso implique a obscuridade do caráter pré-teórico próprio dessa vida, que só permanece encoberto quando a atitude filosófica se torna teórico-reflexiva. * Todo [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] com vida pessoal mantém em cada instante uma relação com o mundo circundante ([[lx>termos:u:umwelt|Umwelt]]), com os valores, as coisas e os semelhantes que o motivam, relação que constitui a indiferença própria da vida cotidiana natural, tal como indicada em Ser e Tempo (§ [[obra:etem:et9|9]]). * A ciência primordial buscada retoma, em sua reivindicação de universalidade, a tarefa que a filosofia assumira desde Aristóteles de fundamentar as ciências particulares, mas desloca a origem dessa fundamentação do domínio teórico para o domínio a-teórico, a ser acessado apenas por um procedimento metódico ele mesmo a-teórico, que se revelará ser a fenomenologia hermenêutica. § 2. A descoberta do domínio a- ou pré-teórico exige romper a dominância do teorético que marca a filosofia ocidental desde sua origem grega — dominância que não se reduz à preferência pelo saber científico, mas que persiste mesmo quando se desloca a prioridade da teoria para a práxis —, o que conduz, no salto sobre o abismo metodológico entre a via teórico-reflexiva e a via a-teórica ainda por trilhar, à descoberta de um mundo como todo de significância ([[lx>termos:b:bedeutsamkeit|Bedeutsamkeit]]) acessível apenas por uma compreensão que olha-para e escuta (zuschauendes Verstehen), e não por uma reflexão objetivante, de modo que a vivência mostra-se, em seu ser próprio, não como pro-cesso ([[lx>termos:v:vor-gang|Vor-gang]]) que passa diante do olhar reflexivo, mas como acontecimento ([[lx>termos:e:er-eignis|Er-eignis]]) que se dá a partir do que lhe é próprio (das [[lx>termos:e:eigenste|Eigenste]]). * O teorético manifesta-se, num sentido estrito, no pensar e no saber científicos, e, num sentido mais amplo e mais decisivo, no modo reflexivo, objetivante e reificante pelo qual a epistemologia, a psicologia filosófica e a fenomenologia reflexiva tematizam de antemão a experiência pré-científica do mundo, encobrindo sua primordialidade. * Colocada a questão de saber se o a-teórico pode ser encontrado no psíquico enquanto domínio-objeto da psicologia, a resposta é um não decidido, pois toda psicologia — empírico-natural, das ciências do espírito, descritivo-analítica ou fenomenológico-eidética — mantém-se presa à configuração teórica e, com isso, mantém fechado o domínio pré-teórico da vida e da vivência. * No cruzamento metodológico decisivo para a vida e a morte da filosofia futura, arriscar o salto para um mundo compreendido não mais como totalidade de entes objetivos a experimentar, mas como todo de significância, é o que abre pela primeira vez o acesso ao mundo como mundo, e essa compreensão que olha-para e escuta acompanha o sentido de realização ([[lx>termos:v:vollzugssinn|Vollzugssinn]]) da vivência sem objetivá-la. * Ao interpretar-se em compreensão a vivência exemplar do questionar ("há algo?"), mostra-se que nela não comparece um eu desvinculado (ego-cogito-cogitatum), mas antes uma pertença do eu ao vivido sob o modo o cada-vez-meu ([[lx>termos:j:jemeinigkeit|Jemeinigkeit]]), e que essa vivência, em seu acontecer, não é um pro-cesso psíquico imanente à consciência, mas um [[lx>termos:e:er-eignis|Er-eignis]] cujo elemento -eignis remete ao próprio (das [[lx>termos:e:eigene|Eigene]]) e não à propriedade ([[lx>termos:e:eigentum|Eigentum]]). § 3. O desvelamento hermenêutico-fenomenológico da vivência do mundo circundante — exemplificado na visão da cátedra na sala de aula — revela que aquilo que se vê primária e imediatamente não é uma coisa sensível dotada depois de um valor de uso agregado como um rótulo (conforme a tese husserliana da conexão de fundação, segundo a qual a percepção sensível funda o significado prático), mas antes o significativo enquanto tal, visto "de uma só vez" a partir do todo de significância que constitui o mundo circundante, de modo que mesmo aquele que desconhece esse todo de significância — o camponês da Floresta Negra ou o senegalês transplantado ao auditório — não percebe jamais uma coisa nua, mas sempre algo significativo, ainda que sob o modo da privação, o que conduz à tese de que "tudo mundifica" ([[lx>termos:w:weltet|es weltet]]) e de que o próprio ser humano vive essencialmente a partir de horizontes de significância. * Em contraste com a atitude teórico-reflexiva de Husserl (Ideias I, § 27), que descreve o mundo circundante como fundado, em última instância, num mundo de mera experiência sensível sobre o qual se assentam os caracteres de uso e de valor à maneira de camadas fundante e fundada, Heidegger sustenta que a percepção sensível está de saída inserida na compreensão de significância, perdendo assim sua independência e seu caráter fundante. * O exame do exemplo do camponês e, sobretudo, do senegalês mostra que a "estranheza como utensílio" ([[lx>termos:u:unvertrautheit|Unvertrautheit]] als [[lx>termos:z:zeug|Zeug]]) não é a negação de toda significância, mas sua privação, pois aquilo que se mostra a quem desconhece o horizonte de significância acadêmico ainda assim se mostra como significativo em outro horizonte que lhe é familiar. § 4. A estrutura da vivência, esclarecida a partir da análise hermenêutica da vivência do mundo circundante, revela-se como acontecimento (Er-eignis) e não como pro-cesso que passa diante de um eu desvinculado (Vor-gang), distinção que se articula na diferença entre o eu histórico (das historische, geschichtliche [[lx>termos:i:ich|Ich]]), que ressoa junto com a vivência do mundo circundante, e o eu teórico, para o qual o acontecer mundano se objetiva e se transforma em mero decurso — como ilustra o duplo modo de vivenciar o nascer do sol, ora como objeto do saber astronômico, ora como vivência poeticamente elevada no coro da Antígona de Sófocles —, sendo necessário, por fim, distinguir rigorosamente esse conceito precoce de Er-eignis, como essência do próprio do viver e do vivenciar, do conceito tardio e histórico-do-ser de Ereignis como pertencimento recíproco entre o lançar apropriador e o lançar-se apropriado do Dasein. § 5. O apego obstinado ao teorético constitui um obstáculo decisivo para a visão do domínio da vivência do mundo circundante, o que se evidencia na objeção epistemológica segundo a qual as sensações e os dados sensíveis seriam o imediatamente dado por excelência — objeção que hermeneuticamente se revela inconsistente, pois tal "dado imediato" só é obtido mediante uma reflexão abstrativa que já destrói o caráter mundano da vivência, desativando o eu histórico em favor do eu teórico —, de modo que não apenas o naturalismo criticado por Husserl, mas a dominância geral do teorético que ainda determina sua própria fenomenologia reflexiva, deforma a problemática genuína do domínio da vivência, o qual constitui, "de início e na maior parte das vezes", o âmbito reinante (die [[lx>termos:b:botmassigkeit|Botmäßigkeit]]) da vida humana. * A compreensão a-teórica do espaço e do tempo do mundo circundante — implicada, por exemplo, na pergunta pelo caminho mais próximo até a catedral — não é de ordem quantitativo-geométrica, mas determinada a partir da compreensão mundana de significância, antecipando o que Ser e Tempo tematizará como espacialidade do Dasein (§§ [[sz>22|22]]-[[sz>24|24]]) e como temporalidade mundana (§ [[sz>79|79]]). * A teorização do pré-teórico ocorre em fases sucessivas — a posição do mundo circundante como "dado" e, num segundo passo, a escavação reflexiva do seu caráter de sentido —, processo que Heidegger designa como infecção teórica destrutiva do mundo circundante, pelo qual o espaço mundano ([[lx>termos:u:umweltraum|Umweltraum]]) se converte em mero espaço-de-coisas ([[lx>termos:d:dingraum|Dingraum]]) e o tempo vivido em mero tempo-de-coisas. § 6. A questão metodológica de como é possível uma ciência das vivências enquanto tais conduz ao confronto decisivo entre o método da reflexão descritiva de Husserl, para o qual a vivência só se torna descritível quando extraída da vida imediata e posta como objeto intencional perante o olhar reflexivo — operação que Heidegger qualifica de "des-vivificante" ([[lx>termos:e:entlebend|entlebend]]) —, e o método hermenêutico da compreensão, que não retira a vivência de seu cumprimento vivo, mas a acompanha nesse mesmo cumprimento, elevando-a da inexpressão pré-filosófica à explicitação fenomenológica sem jamais objetivá-la. * (a) Ao expor minuciosamente as passagens centrais de Ideias I (§§ 38, 45, 77-78) e das Investigações Lógicas, mostra-se que, para Husserl, toda reflexão fenomenológica consiste numa "nova cogitatio" que se volta sobre a vivência vivida sem tematização, transformando-a de vivenciada em contemplada (erschaut) e, assim, tornando-a objeto de uma percepção interior; a reflexão é, nesse sentido, o título do método universal de conhecimento da consciência por meio da consciência. * (b) Ao interpretar retrospectivamente a análise das vivências da cátedra e da mera coisa, mostra-se que na compreensão hermenêutica não comparecem nem o domínio-objeto psíquico, nem a oposição entre psíquico e físico, nem qualquer processo material, de modo que a intuição hermenêutica (hermeneutische Intuition) — enquanto vivenciar apropriador e acompanhante da vivência — não é reflexão sobre o viver, mas compreensão do viver, e assim permanece dentro daquilo que há de ser visto, ao passo que a intuição reflexiva permanece fora, num diante-de-si (Gegenüber) objetivante. * A conclusão desse confronto não é a negação da legitimidade científica da reflexão descritiva, que de fato é capaz de desvelar teoricamente o domínio universal da vivência, mas a afirmação de que ela é incapaz de desvelar esse domínio em seu caráter a-teórico próprio, razão pela qual fenomenologia hermenêutica e fenomenologia reflexiva devem ser reconhecidas como dois caminhos igualmente legítimos, cada um a seu modo. § 7. O "princípio dos princípios" fenomenológico, formulado por Husserl em Ideias I (§ 24) como a exigência de aceitar tudo o que se oferece originariamente na intuição ([[lx>termos:i:intuition|Intuition]]) simplesmente como aquilo que é e dentro dos limites em que se dá, é reapropriado por Heidegger em sentido não-reflexivo e não-teórico, de modo que esse princípio se revela, em seu núcleo, como a intenção primordial do viver verdadeiro, a atitude primordial da vivência e do viver enquanto tais, e a simpatia absoluta com o viver que se identifica com a própria vivência — caracterização tríplice que identifica o princípio dos princípios com o próprio proceder da fenomenologia hermenêutica, da qual a fenomenologia reflexiva constituiria antes um desvio, culminando esse percurso, que atravessa as lições de Freiburgo e Marburgo, na hermenêutica da facticidade e na fenomenologia hermenêutica do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] de Ser e Tempo. * (a) Para Husserl, a intuição doadora originária (originär gebende Intuition) tem na percepção sensível seu modelo, de sorte que também a apreensão intuitiva das essências ([[lx>termos:w:wesensschau|Wesensschau]]) constitui uma intuição doadora originária de tipo psíquico, e nenhuma teoria concebível pode contestar esse princípio, pois toda teoria deve extrair sua própria verdade justamente dessa doação originária. * (b) Para Heidegger, o princípio dos princípios, liberado de sua explicação reflexiva, não implica a dualidade e o distanciamento entre objeto e conhecimento próprios da reflexão, mas antes uma permanência dentro daquilo que há de ser visto, de descrito e de formulado linguisticamente, de tal modo que a descrição e a linguagem hermenêuticas mesmas se realizam em simpatia absoluta com o viver, e não em atitude teórica. {{tag>Herrmann Hermenêutica}}