===== Linguagem (1985:V) ===== //HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Subjekt und Dasein: Interpretationen zu “Sein und Zeit”. Frankfurt am Main: V. Klostermann, 1985.// **ONTOLOGIA FUNDAMENTAL DA LINGUAGEM** **1. A abertura e a transcendência como âmbito da pergunta ontológico-fundamental pela essência ontológico-existencial da linguagem** 1. A essência ontológico-existencial da linguagem radica na abertura ([[lx>termos:e:erschlossenheit|Erschlossenheit]]) bidimensional do ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]), na qual a existência se abre a si mesma de maneira ekstático-própria e, simultaneamente, abre de maneira ekstático-horizontal o ser, o mundo e os entes, constituindo a transcendência originária que precede tanto a relação intencional com os entes quanto toda linguagem verbalmente pronunciada. * O “[[lx>termos:d:das=da|aí]]” do ser-aí designa a abertura ou clareira em que se tornam compreensíveis o próprio ser, os modos de ser dos entes não humanos e as possibilidades concretas do ser-no-mundo. * A existência realiza-se como abertura [[lx>termos:e:ekstase|ekstática]] de si porque, em seu ser, está em jogo esse próprio ser, enquanto a dimensão horizontal mantém previamente aberto o mundo a partir do qual os entes podem manifestar-se. * A transcendência originária ([[lx>termos:u:urtranszendenz|Urtranszendenz]]) antecede a transcendência ôntica dirigida aos entes e compreende a disposição afetiva do estar-lançado, o projeto compreensivo e o deixar interpretativo que faz os entes virem ao encontro. * A intencionalidade não se funda na imanência de uma consciência isolada, mas na abertura prévia do ser-no-mundo, que já mantém o ser-aí fora de si junto ao mundo e aos entes. * A análise da linguagem integra a sequência constituída pela disposição afetiva ([[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]]), pela compreensão ([[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]]), pela interpretação ([[lx>termos:a:auslegung|Auslegung]]) e pelo enunciado, retrocedendo da linguagem pronunciada ao discurso ([[lx>termos:r:rede|Rede]]) como sua essência existencial. * O som verbal e a significação verbal não constituem o fundamento último da linguagem, pois ambos recebem sua possibilidade ontológica da articulação prévia da abertura do ser-no-mundo. **2. A peculiaridade da cooriginariedade existencial do discurso com a disposição afetiva e a compreensão** 2. O discurso (Rede) é cooriginário com a disposição afetiva (Befindlichkeit) e a compreensão (Verstehen) não como um terceiro existencial autônomo acrescentado a ambas, mas como a articulação originária que perpassa conjuntamente o estar-lançado afetivamente aberto e o projetar compreensivo, de modo que toda abertura do ser-aí já se encontra essencialmente estruturada pela linguagem. * A cooriginariedade existencial não corresponde a uma equivalência formal entre três elementos independentes, mas a uma conexão fenomenológica na qual o discurso articula o próprio acontecer da abertura. * A compreensão projetiva abre possibilidades do ser-no-mundo, enquanto a interpretação se apropria do que já foi compreendido e articulado no projeto, sem instituir pela primeira vez essa articulação. * As possibilidades assumidas pelo projeto são previamente dadas pela disposição afetiva, pois o ser-aí somente pode projetar-se sobre possibilidades nas quais já se encontra lançado. * A articulação ocorre facticamente na disposição afetiva e projetivamente na compreensão, sendo retomada e desenvolvida pela interpretação como explicitação daquilo que já se abriu. * Caso o discurso fosse separado da disposição afetiva e da compreensão, estas permaneceriam originariamente desprovidas de linguagem, e a linguagem surgiria apenas como revestimento posterior de uma abertura inicialmente muda. * A morada essencial do ser humano na linguagem significa que a essência da linguagem alcança a mesma profundidade ontológica que a existência e não se restringe à produção de palavras ou sons. **3. A essência da linguagem como articulação da abertura ekstático-horizontal e própria do sentido; o articulado como totalidade significativa aberta de maneira própria e ekstático-horizontal** 3. A essência da linguagem consiste em articular o sentido ([[lx>termos:s:sinn|Sinn]]) aberto no projeto lançado, estruturando a possibilidade bidimensional do ser-no-mundo como totalidade significativa ([[lx>termos:b:bedeutungsganze|Bedeutungsganze]]), na qual a abertura própria e ekstática das possibilidades da existência permanece inseparável da abertura horizontal do mundo e de sua rede de remissões. * O sentido é aquilo em que se sustenta a compreensibilidade de alguma coisa, isto é, o horizonte relacional a partir do qual algo pode tornar-se compreensível como algo. * A interpretação não produz originalmente o sentido, mas desenvolve a articulação já acontecida no compreender projetivo e afetivamente lançado. * A estrutura formal do sentido permanece constante como totalidade de relações, embora cada possibilidade concreta do ser-no-mundo apresente uma configuração própria dessas relações. * A dimensão própria e ekstática compreende a totalidade das possibilidades de existência e dos comportamentos possíveis, ao passo que a dimensão horizontal compreende a totalidade referencial do mundo, das conjunturas e da significância. * A distinção entre as duas dimensões não autoriza sua separação, pois uma possibilidade da existência somente se abre em correlação com uma possibilidade de mundo, e esta somente se abre para uma existência projetiva. * As significações não são inicialmente conteúdos ligados a palavras isoladas, mas relações articuladas no interior da totalidade significativa aberta. * As palavras referentes às coisas mundanas recebem sua possibilidade da totalidade referencial do mundo, enquanto as palavras relativas às maneiras humanas de existir recebem sua possibilidade da articulação própria e ekstática dos comportamentos. * A abordagem fenomenológica impede que o sentido e suas relações sejam convertidos em entes simplesmente dados, exigindo a recondução da palavra pronunciada à abertura ontológica que a torna possível. **4. O pronunciamento na totalidade sonora das palavras como modo de ser “mundano” da essência da linguagem; corporeidade e vocalização** 4. O pronunciamento da totalidade significativa articulada confere ao discurso um modo de ser “mundano” ao fazê-lo vir à palavra na vocalização corpóreo-vocal, sem convertê-lo na expressão externa de representações interiores, pois aquilo que se pronuncia é a própria abertura ekstático-horizontal do ser-no-mundo, que adquire nas palavras um modo peculiar de presença entre os entes. * A linguagem pronunciada constitui a Hinausgesprochenheit do discurso, isto é, seu ingresso na totalidade sonora das palavras a partir da abertura ekstático-horizontal, e não a passagem de uma interioridade consciente para um exterior. * As significações precedem ontologicamente as palavras porque pertencem primeiro à totalidade significativa aberta e articulada, à qual os sons verbais somente depois se associam. * O caráter “mundano” do discurso deve ser compreendido em sentido ôntico como sua entrada na intramundanidade, pela qual a articulação não ente da abertura ganha consistência em um ente peculiar: a palavra vocalizada. * O ser-aí, enquanto ser-no-mundo lançado e dependente dos entes, remete-se previamente tanto aos entes intramundanos quanto às maneiras corpóreas de comportamento mediante as quais pode existir junto deles. * A corporeidade ([[lx>termos:l:leiblichkeit|Leiblichkeit]]) não constitui um acréscimo exterior à existência, pois determina a maneira como o ser humano existe onticamente em seus comportamentos e possibilita a formação vocal da palavra. * A palavra pronunciada ocupa uma posição ontológica intermediária: aproxima-se do ser-aí por ser formada corporal e vocalmente, mas também se autonomiza como ente intramundano encontrável, sem se identificar com um utensílio manual. * Falar, ouvir e ler não encerram a compreensão numa interioridade psíquica, mas mantêm o ser-aí fora de si, na abertura de mundo e junto aos entes cuja manifestabilidade se articula nas palavras. * A interpretação da linguagem como expressão de vivências e representações internas cede lugar à compreensão da vocalização como modo ôntico no qual a abertura articulada do ser-no-mundo alcança uma posição própria entre os entes. **5. Aquilo sobre o que se discorre, aquilo que é dito, comunicação e pronunciamento como momentos estruturais da articulação discursiva no âmbito do descobrimento dos entes** 5. A articulação discursiva determina não apenas a abertura de ser e de mundo, mas também o descobrimento dos entes e a automanifestação do ser humano mediante quatro momentos constitutivos — aquilo sobre o que se discorre ([[lx>termos:b:beredetes|Beredetes]]), aquilo que propriamente se diz ([[lx>termos:g:geredete|Geredetes]]), a comunicação ([[lx>termos:m:mit-teilung|Mit-teilung]]) e o pronunciamento de si ([[lx>termos:s:sichaussprechen|Sichaussprechen]]) —, pelos quais toda compreensibilidade ôntica se mostra originariamente atravessada pela essência da linguagem. * Aquilo sobre o que se discorre é o ente, o acontecimento, o comportamento ou o outro ser-aí que se torna manifesto no falar interpretativo, seja na ocupação com as coisas, seja na solicitude dirigida aos outros. * Aquilo que se diz propriamente corresponde ao aspecto determinado sob o qual o referente se torna compreensível e manifesto, pois nunca se fala sobre algo sem alguma perspectiva delimitadora. * O referente do falar cotidiano permanece geralmente um ente manual ([[lx>termos:z:zuhanden|Zuhandenes]]) inserido na ocupação, distinguindo-se do objeto simplesmente dado que funciona como referente de um enunciado teórico. * A compreensibilidade dos entes não subsiste fora da linguagem para depois receber uma denominação, mas nasce da abertura de ser e de mundo já articulada pelo discurso. * A comunicação (Mit-teilung) não significa transporte de representações entre duas interioridades, mas partilha da compreensão e da manifestabilidade do ente junto ao qual os interlocutores já se encontram ekstaticamente. * A partilhabilidade é anterior à comunicação efetiva porque o ser-com ([[lx>termos:m:mitsein|Mitsein]]) constitui a abertura do ser-no-mundo e faz de toda compreensão uma compreensão potencialmente compartilhável. * A linguagem possui caráter essencialmente dialógico porque a abertura própria de cada ser-aí já é abertura compartilhada com outros, e o mundo é originariamente mundo-com ([[lx>termos:m:mitwelt|Mitwelt]]). * O pronunciamento pode permanecer potencial, mesmo quando nenhuma palavra é efetivamente proferida, ou atualizar-se na vocalização corpórea daquilo que já se encontra significativamente articulado. * O tom, a modulação, o ritmo, a velocidade e a maneira de falar manifestam a disposição afetiva do ser-no-mundo inteiro, e não sentimentos encerrados no interior de um sujeito. **6. A determinação essencial da poesia no horizonte da questão ontológico-fundamental; as possibilidades existenciais da disposição afetiva e o discurso poético** 6. A poesia constitui um modo eminente de discurso no qual possibilidades existenciais abertas pela disposição afetiva alcançam a palavra e tornam visíveis o mundo, os entes intramundanos e a existência humana em sua pertença recíproca, porque o existir poético permanece mais intensamente exposto ao abrir afetivo do ser-no-mundo e pode articular possibilidades inacessíveis à existência cotidiana. * O tom, a modulação, o ritmo, a métrica, o verso e a forma poética derivam das disposições afetivas ekstático-horizontais, deixando de constituir uma forma exterior separável do conteúdo. * A linguagem poética é o vir-à-palavra de um habitar poético no mundo, cuja singularidade se funda numa relação mais aberta com o mundo e com as coisas que nele vêm ao encontro. * O discurso poético articula e comunica possibilidades existenciais da disposição afetiva, abrindo modos de existência que o ser-aí cotidiano não consegue revelar por si mesmo. * A maior exposição do poeta às tonalidades afetivas permite uma compreensão mais rica do mundo e torna os entes visíveis em sua vinculação mundana ou em seu estar-carregado-de-mundo. * A poesia não introduz arbitrariamente um sentido subjetivo nas coisas, mas interpreta e ilumina sua constituição mundana, encoberta na familiaridade do trato cotidiano. * A descrição poética da parede remanescente em Rilke faz aparecer, nas marcas materiais do edifício demolido, a totalidade do habitar, das ocupações e das vidas que constituía sua realidade mundana. * A tonalidade afetiva fundamental ([[lx>termos:g:grundstimmung|Grundstimmung]]) sustenta a singularidade de uma existência poética como fundamento não ente e, nesse sentido, como sem-fundo ([[lx>termos:a:ab-grund|Ab-grund]]) que possibilita a manifestação dos entes. * A criação poética não procede da soberania produtiva de um sujeito autocentrado, mas da apropriação projetiva daquilo que se abre na disposição afetiva e na tonalidade afetiva fundamental. * Pensamento e poesia permanecem distintos, embora a proximidade com o poetar possa orientar o pensar para dimensões do mundo, das coisas e da existência que a conceituação tradicional manteve encobertas. * A leitura compreensiva de uma obra poética compartilha o ser-no-mundo que nela veio à palavra e abre possibilidades do existir-com e do ser-um-para-o-outro no mundo comum. **7. A constituição ekstático-horizontal do ouvir e do silenciar como possibilidades existenciais do falar discursivo** 7. O ouvir e o silenciar pertencem originariamente ao caráter dialógico do discurso como modos ekstático-horizontais do ser-com, pois o ouvir recebe compreensivamente a manifestabilidade articulada pelo outro, enquanto o silenciar constitui um modo de dizer que pode fazer compreender algo sem vocalização e manter os participantes conjuntamente junto ao ente em questão. * O ouvir acústico funda-se no ouvir compreensivo, assim como a produção fonética da palavra se funda no dizer que manifesta, de maneira que sons e dados sensoriais não constituem o ponto de partida ontológico. * Ouvir é uma compreensão receptiva que permanece aberta ao que outro ser-aí faz aparecer em seu dizer e, por isso, pertence necessariamente a uma existência constituída como ser-com. * Todo falar já se dirige a quem ouve e inclui a expectativa de uma resposta, enquanto aquele que fala permanece também capaz de ouvir e de acolher o que o outro manifesta. * Seguir, acompanhar, não escutar, resistir, desafiar e desviar-se constituem modos possíveis do ouvir recíproco nos quais se concretiza o ser-um-com-o-outro. * Na experiência natural não se ouvem primeiramente complexos acústicos aos quais depois se acrescentaria uma significação, mas o carro rangendo, o vento, o fogo crepitando, o pica-pau ou os passos de uma pessoa. * A apreensão imediata daquilo que soa torna-se possível porque o ser-aí já provém compreensivamente do mundo aberto e se encontra junto aos entes intramundanos. * O silenciar não equivale à mudez, pois quem silencia pode responder, interpretar e fazer compreender de maneira até mais determinada do que mediante palavras pronunciadas. * Somente pode silenciar propriamente quem possui a possibilidade de falar e sabe acolher o momento apropriado tanto da palavra quanto do silêncio. * O dizer silencioso e o ouvir que o compreende encontram-se no ser ekstático compartilhado junto ao ente manifestado, não em interioridades separadas conectadas por empatia. * Falar, ouvir e silenciar constituem maneiras pelas quais o ser-aí articula o mundo horizontalmente aberto e permanece compreensivamente junto aos entes e aos outros. **8. A posição do fenômeno existencial do discurso em Ser e tempo; crítica às objeções críticas** 8. O discurso não é afastado pela decadência ([[lx>termos:v:verfallen|Verfallen]]) nem constitui um terceiro momento estrutural da cura ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]]) coordenado à disposição afetiva e à compreensão, pois sua função articuladora atravessa cooriginariamente a totalidade da cura — o anteceder-se-a-si, o já-ser-em e o ser-junto-a — e determina tanto a abertura lançada e projetiva quanto o descobrimento ocupado dos entes, permanecendo atuante nos modos próprio e impróprio da existência. * A objeção segundo a qual a decadência substituiria subitamente o discurso como terceira estrutura confunde os existenciais constitutivos da abertura com os momentos da estrutura unitária da cura. * O terceiro momento da cura não é a decadência, mas o ser-junto-a ([[lx>termos:s:sein-bei|Sein-bei]]) ocupado e descobridor, que pode assumir tanto o modo impróprio da perda de si no mundo quanto o modo próprio da existência decidida. * A decadência modifica a cura inteira, incluindo a disposição afetiva, a compreensão e o discurso, mas não possui o mesmo estatuto ontológico dessas determinações nem ocupa o lugar do discurso. * O discurso não figura como momento isolado da cura porque sua articulação perpassa todos os seus momentos e alcança tanto a abertura do ser-no-mundo quanto o descobrimento dos entes possibilitado por essa abertura. * O anteceder-se-a-si funda-se [[lx>termos:e:ekstase|ekstaticamente]] no futuro, o já-ser-em funda-se no vigor de ter sido, e o ser-junto-a funda-se na atualidade, formando a unidade temporal da cura como futuro que vigora tendo sido e atualiza. * A atualidade não é reservada à decadência nem permanece ontologicamente vazia, pois nela se funda o deixar-ser-em-conjunto, o fazer-vir-ao-encontro, o liberar e o descobrir dos entes, tanto no modo impróprio quanto no próprio. * O instante ([[lx>termos:a:augenblick|Augenblick]]), enquanto atualidade própria, não representa uma retirada da situação, mas a abertura decidida da situação na qual a existência se ocupa de maneira atuante e circunspecta com o ente manual de seu mundo circundante. * A situação é o “aí” aberto na resolução antecipadora, a partir do qual o ser-aí pode atualizar propriamente seu ser-junto aos entes sem recair necessariamente na perda imprópria de si. * A não atribuição do discurso a uma única ekstase temporal decorre de sua abrangência ontológica, pois ele articula a disposição afetiva fundada no vigor de ter sido, a compreensão fundada no futuro e o ser-junto-a fundado na atualidade. * A posição singular do discurso confirma que as raízes da linguagem alcançam a totalidade do ser do ser-aí e não podem ser reduzidas à fala presente, à vocalização ou a uma estrutura regional da existência. {{tag>Herrmann Zeitlichkeit}}