====== Que chamaremos "cristianismo"? ====== //HENRY, Michel. Eu Sou a Verdade. Por uma filosofia do cristianismo. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2015// * Não se trata de perguntar se o cristianismo é "verdadeiro" ou "falso", mas de compreender que gênero de verdade ele propõe aos homens, verdade não teórica e indiferente mas essencial, única capaz de assegurar a salvação, sendo esse o domínio a delimitar antes de tudo * O conteúdo do cristianismo parece dever ser buscado no corpus do Novo Testamento — Evangelhos, Atos, epístolas e Apocalipse —, do qual foi elaborado o conjunto dos dogmas, parecendo passar por esses textos todo conhecimento e toda reflexão sobre sua possível verdade * Essa aproximação apresenta duas características: primeiro, implica investigações infinitas sobre a autenticidade dos textos, datação, autoria, testemunhas oculares ou tradição oral incerta, podendo-se chegar a considerá-los mera mitologia ou reconstrução imaginária * Colocam-se ainda questões sobre a língua original desses textos, grego, hebraico ou aramaico, pesando sobre o cristianismo das origens todo o pensamento grego caso escritos em grego, sendo as interpretações aristotélicas e platônicas fundadoras da teologia cristã * se os textos originais fossem em hebraico, a referência ao Antigo Testamento habitaria o próprio Novo Testamento, correndo o risco de este aparecer como mera variante dos escritos judaicos, seus heróis simples reaparecimento de personagens já presentes no Antigo Testamento * A segunda característica dessa aproximação textual é conduzir a investigações sem fim, citando-se a observação irônica de Kierkegaard sobre quem quisesse interrogar o Evangelho sobre a salvação de sua alma ter de esperar a publicação do último livro sobre a questão, sendo a morte certa interrompê-lo antes de qualquer resposta * Começando pela história, a crítica dos textos fundadores desdobra-se em crítica dos acontecimentos relatados e crítica histórica dos próprios textos, dispondo a primeira de um critério de verdade que é a visibilidade objetiva de um fenômeno constatado por testemunhas * Suponha-se um acontecimento real jamais percebido nem mencionado por ninguém: tal acontecimento escaparia à verdade da história, revelando isso não a inexistência dos indivíduos mas a incapacidade do próprio conceito de verdade histórica de captar sua realidade * Se o Todo da realidade é constituído de indivíduos, é o Todo da realidade que escapa à história, já que a quase totalidade dos indivíduos que viveram na Terra se furta ao requisito de se mostrarem objetivamente no mundo * Diante desse desvanecimento geral, a história muda de objeto e se atém aos documentos, adquirindo assim o corpus do Novo Testamento importância decisiva como único modo de acesso a Cristo e a Deus * Essa substituição da análise histórica pela análise textual coloca-nos diante de nova aporia, pois todo texto se desdobra em sua própria estrutura interna e em sua referência a uma realidade estranha a ele, sendo essa referência o que constitui sua verdade aos olhos da história * daí o esforço da análise cristã em situar a redação dos originais próxima aos fatos relatados, e o esforço inverso da crítica cética em contestar essa proximidade, desacreditando os textos e a história de Cristo por eles narrada * Pergunta-se se a verdade do cristianismo se reduziria à da história, supondo-se satisfeitas todas as exigências da verdade histórica, respondendo-se que de modo algum, pois a verdade do cristianismo não é que Jesus tenha caminhado de povoado em povoado nem que tenha pretendido ser o Messias — afirmação que poderia ser mera divagação de exaltado, como creram muitos que o viram e não creram nele —, mas que Aquele que se dizia Messias era verdadeiramente esse Messias, o Filho de Deus trazendo em si a Vida eterna * Inversamente, ainda que se supusesse a redação dos textos canônicos tão tardia e suspeita quanto possível, tornando a existência histórica de Cristo tão incerta quanto a de qualquer ser humano anônimo, sua identidade com a Vida eterna, se verdadeira, não seria menos verdadeira apesar desse vazio histórico, prova disso sendo que muitos que não viram nem ouviram Cristo creram e ainda creem nele * A incapacidade da verdade histórica de testemunhar a favor ou contra a verdade do cristianismo é ainda maior no caso dos próprios textos, que se desdobram em dois registros, a narração de acontecimentos e as palavras entre aspas em que o próprio Cristo fala como Verbo de Deus, ou relatadas em estilo indireto, notadamente no Evangelho de João * Apesar de seu poder estupefaciente, essas palavras de Cristo são apenas palavras, fragmentos de linguagem incapazes de vencer o abismo entre toda verdade significante e a realidade significada, exemplificando-se que dizer "Tenho uma moeda de dez francos no bolso" não faz existir a moeda, tal como dizer "Eu sou o Messias" não faz alguém Filho de Deus por efeito da palavra * Não é somente sob o olhar da história que o texto confessa sua incapacidade de pôr a realidade que enuncia: a impotência do documento escrito repete a impotência do próprio acontecimento de se pôr no ser, traçando essa dupla incapacidade o círculo em que toda verdade histórica ou textual se autodestrói * Notável é que essa crítica da linguagem encontre formulação no próprio Novo Testamento, que desacredita por razões de princípio o universo das palavras, opondo-se a essa impotência a única coisa que importa ao cristianismo, o poder, citando-se: "Pois o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder" (1 Coríntios 4,20), e sobre a "extraordinária grandeza de seu poder" ao ressuscitar Cristo dentre os mortos (Efésios 1,18-20) * À linguagem resta apenas um poder, o de mentir, dizendo uma realidade quando ela não existe, não sendo a mentira uma possibilidade entre outras da linguagem mas enraizada nela como sua própria essência, explicando-se assim o furor de Cristo contra escribas e fariseus, "hipócritas... Serpentes! Raça de víboras!" (Mateus 23,1-36) * A linguagem tornou-se o mal universal por sua diferença essencial com respeito à coisa, que a torna indiferente a ela, podendo unir-se igualmente a qualquer coisa e assim identificar-se com a realidade e desfigurá-la à vontade, citando-se a Epístola de Tiago (3,3) sobre a língua como fogo que incendeia floresta imensa, da mesma boca provindo bênção e maldição * Se a linguagem por si mesma é incapaz de dar acesso à realidade e à verdade do cristianismo, a relação deve ser invertida: não é o corpus dos textos que dá acesso à Verdade, mas a Verdade, ao contrário, que dá acesso a si mesma e ao texto onde está depositada * Enuncia-se uma das afirmações mais essenciais do cristianismo: somente a Verdade que é a sua pode dar testemunho de si mesma, sendo essa autorrevelação a própria essência divina, tornando-se filho dessa verdade, filho de Deus, aquele a quem ela se revela e que a ouve * A linguagem, tida por meio de comunicação por excelência da verdade, revela-se incapaz de transmitir senão uma verdade já revelada independentemente dela, sendo essa indigência mais radical: a linguagem é propriamente negação de toda realidade concebível, exceto a pálida realidade irreal de seu próprio sistema de significados * A indigência da história não é menor, mostrando-se assim que aquilo se pergunta pela condição de possibilidade dessa disciplina, sendo seu horizonte de visibilidade o do mundo e do Tempo, verdade tal que tudo que nela aparece não cessa de desaparecer, perdendo-se para sempre cada um dos milhares de seres humanos que habitaram a Terra * A verdade da história é também a da linguagem, pois esta só é possível se deixa ver o que fala dentro desse mesmo horizonte do mundo e do Tempo, remetendo a história os acontecimentos desvanecidos a documentos igualmente fugidios e incertos * Sendo verdade da história e verdade da linguagem idênticas, e ambas incapazes de dizer palavra sobre a verdade do Evangelho, resta compreender por que a terceira forma de verdade, a do cristianismo, teria o poder de relegar as duas outras à insignificância, remetendo-se à angustiada pergunta de Pilatos a Cristo diante do tumulto: "O que é verdade?" (João 18,38) {{tag>Henry cristianismo}}