====== §69 Imanência do sentimento ====== //HENRY, Michel. L’ essence de la manifestation. Paris: PUF, 1963// §69 - A imanência radical do sentimento e a impossibilidade, por princípio, de agir sobre ele * A determinação ontológica fundamental da afetividade como constituindo o ser do querer e da ação traz a problemática diante da consequência essencial de que o sentimento, sendo-lhes interior como seu ser, não pode depender do querer ou de seu exercício nem ser por eles produzido * o sentimento não pode ser produzido nem modificado pelo querer porque está presente nele, escapando necessariamente à nossa ação por já estar ali antes que a ação se produza e precisamente para que ela possa se produzir * porque o sentimento penetra o querer e a ação como o que lhes dá a permissão de ser, o sentimento os domina necessariamente, determinando tudo o que esse querer quer e tudo o que essa ação realiza, constituindo essa determinação uma propriedade essencial da afetividade e não uma simples proposição psicológica * A independência absoluta do sentimento em relação ao querer e à ação, a impossibilidade de agir sobre ele, é o conteúdo temático da proposição de Lutero segundo a qual a beatitude é requerida como condição de toda ação boa, condição da obra positiva e salvadora * o que interessa a Lutero é a impotência radical do homem para salvar-se a si mesmo por sua ação, expressando a crítica às boas obras consideradas em si mesmas inoperantes, a ideia de que cumpre remontar a um domínio de origem do qual tudo depende mas que não depende de nenhum esforço ou obra, essa impotência radical da ação diante de seu fundamento * a anterioridade ontológica desse fundamento, sua independência absoluta em relação à ação, o fato de a afetividade e suas tonalidades fundamentais, a beatitude do salvo ou o desespero da perdição, dominarem e predestinarem a vida prática em vez de dependerem dela, constitui o conteúdo filosófico da doutrina da predestinação, acordando-se aqui o pensamento de Lutero com são Paulo, para quem tudo é vão se não se tem a caridade, e com a doutrina da graça, sendo a impotência do homem diante de Deus a impotência da ação diante da afetividade * A impotência da ação diante da afetividade não resulta apenas da imanência do sentimento nela, mas confirma a problemática em suas teses fundamentais, pois toda ação pressupõe por essência uma relação intencional ao que ela visa obter e realizar * o vouloir pressupõe igualmente a exterioridade daquilo que quer, sendo essa relação intencional o que determina rigorosamente, do ponto de vista ontológico, aquilo que o vouloir quer e aquilo sobre que a ação age como correlato dessa relação, o que o sentimento por princípio se recusa a ser * é por isso, porque não pode ser o correlato de um querer nem o termo de uma ação, que o sentimento não pode ser produzido, sendo essa a significação da imanência do sentimento * Objetar-se-ia com a lição da experiência que o sentimento é justamente o que os homens propõem à sua ação como fim, como a felicidade, mas visado no querer o sentimento é irreal, pois toda relação intencional a ele basta para torná-lo impossível, dando apenas seu conceito e portanto sua negação * Scheler observa que há coisas que precisamente não se obtêm quando se tornam o fim consciente da atividade, como o prazer e a fusão afetiva, que fazem falta justamente onde o parceiro é considerado simples meio de gozo autoerótico * a razão dessa desaparição do prazer quando intencionalmente visado não reside numa simples lei psicológica de inibição da atenção, mas na incapacidade de princípio do sentimento de se desenvolver sob o olhar da atenção, incapacidade que é a do movimento subjetivo e originalmente afetivo impropriamente qualificado por Scheler de automático * A impossibilidade de o sentimento constituir jamais, como sentimento real, o tema do querer ou da ação esclarece o caráter paradoxal da relação da existência a seus próprios sentimentos, isto é, da afetividade a si mesma, não podendo por exemplo amar-se o próprio amor * isso não significa que o sentimento careça de toda relação consigo, mas que essa relação, a própria afetividade, é irredutível à relação intencional como a toda forma de transcendência em geral * A impossibilidade de a existência afetiva relacionar-se a seus próprios sentimentos, estrutura ontológica última onde se enraíza essa dupla impossibilidade, é o que pode dar a uma ética da afetividade algo como um fundamento, sendo por isso que o fariseísmo se destrói a si mesmo, pois não se pode amar a própria bondade * essa autodestruição do sentimento ao propor-se a si mesmo como tema não deve ser compreendida dialeticamente, pois nem o querer produz o sentimento nem a ação o destrói, podendo-se muito bem querer experimentar um sentimento e experimentá-lo efetivamente * o caráter paradoxal da relação do querer ao sentimento que visa, o fato de que ao querer pô-lo o manque, não exprime nenhuma relação real mas sublinha antes a ausência entre eles de toda relação, a heterogeneidade ontológica absoluta entre a realidade do sentimento e o meio onde se move a ação * É notável que as diversas teorias, do Pórtico à Christian Science, passando por Spinoza e Goethe, que pretenderam submeter a afetividade ao poder do homem, tenham começado por reduzi-la a um conjunto de representações homogeneizáveis ao pensamento pela objetivação * tratar a realidade como representação submetida ao poder da atividade consciente é o que se chama mistificação, encontrando sua forma extrema na Christian Science, onde a realidade tida por ilusão pretende tornar-se dócil às técnicas do pensamento * o que se oferece a essas objetivações é quando muito o objeto da afetividade, jamais sua realidade, que escapa e se mantém tanto mais perigosamente quanto se acreditou tê-la apreendido ou eliminado, confirmando esse fracasso os resultados da análise eidética * Enraizando-se na essência da afetividade, a impossibilidade de agir sobre o sentimento afirma-se qualquer que seja sua natureza, devendo ser rejeitada a pretensão de Scheler de distinguir entre sentimentos e seus níveis, como se apenas os mais profundos fossem independentes da vontade * o excitante conveniente pode provocar formas de prazer, sendo já mais difícil produzir voluntariamente o sentimento vital ligado a condições subtraídas ao vouloir, e mais ainda os sentimentos da alma interiores ao eu, sendo essa impossibilidade insuperável no caso do desespero ou da beatitude * que a impossibilidade de agir sobre o sentimento resulte de sua pertença interior ao eu e de sua profundeza significa que ela resulta de sua imanência e lhe é idêntica, o que Scheler só descobre psicologicamente a propósito dos sentimentos espirituais mais profundos, confundindo os demais com seu ser-constituído * quanto à ação que Scheler considera sobre os sentimentos sensoriais, vitais e da alma, é notável que a apresente como indireta, realizando-se pela mediação de uma causa ou excitante, isto é, de um objeto suscetível de nos afetar * Uma ação indireta sobre o sentimento pela mediação de um objeto não seria possível para todos os sentimentos em geral, quando um comportamento individual ou coletivo propicia uma situação em que a existência experimenta tonalidades determinadas * tal possibilidade de ação indireta pela mediação do objeto não é senão a possibilidade de uma determinação da afetividade pela própria afecção, determinação cujo sentido a problemática mostrou dever ser invertido, compreendida antes como determinação da afecção pela afetividade * a independência absoluta do sentimento em relação à ação recobre sua independência absoluta em relação à afecção, corroborando-a e sendo-lhe idêntica * A independência absoluta do sentimento em relação à ação e à afecção traz inevitavelmente a problemática diante da questão de sua origem e de seu fundamento, que não se encontrando nem na ação nem na afecção, das quais é antes o fundamento, deve ser buscada nele mesmo e em sua essência * cabe à problemática evidenciar o enraizamento das tonalidades afetivas fundamentais na essência mesma da afetividade, seu ser-possível e seu devir a partir da estrutura interna desta {{tag>Henry}}