====== 2 Pressupostos ====== //HENRY, Michel. Incarnation: une philosophie de la chair. Paris: Seuil, 2000.// ** 2. A indeterminação inicial das pressuposições fenomenológicas da fenomenologia. Os “princípios da fenomenologia ** * Toda investigação, incluindo a fenomenologia, implica pressuposições, mas as próprias à fenomenologia apresentam traço distintivo, sendo nas ciências ordinárias, como a matemática, os axiomas livremente escolhidos e modificáveis pelo pensamento, e nas ciências empíricas as pressuposições um conjunto de propriedades características de certos fatos * É próprio das pressuposições da fenomenologia serem fenomenológicas num sentido radical, tratando-se do aparecer, da fenomenalidade pura, que deve guiar a análise dos fenômenos considerados no "Como" de seu aparecer, permanecendo fenomenologicamente indeterminados enquanto esse aparecer não for questionado em si mesmo * Interroga-se como analisar o fenômeno histórico sem questionar o modo de aparecer da temporalidade que lhe confere sua "historicidade", como compreender a vinda do Verbo ao mundo sem reconhecer previamente o modo de aparecer do próprio mundo, e como saber se essa vinda é num corpo, como pensam os gregos, ou numa carne, como diz João * pergunta-se se a manifestação de um corpo e a revelação da carne pertenceriam a ordens heterogêneas e irredutíveis do aparecer, e se a revelação de Deus em seu Verbo, do Verbo em sua carne, não seriam solidárias, tomando carne em nós do mesmo modo * Constata-se a indeterminação das pressuposições fenomenológicas da fenomenologia histórica, reconhecível em três "princípios" que ela mesma se deu * O primeiro princípio, tomado por Husserl da escola de Marburg, enuncia-se "A tanta aparência, tanto ser", reformulado sem ambiguidade como "A tanto aparecer, tanto ser", dada a dupla significação possível do termo aparência * ao senso comum a correlação se lê do ser para o aparecer, pois as coisas antes de tudo são para poderem aparecer, exemplificando-se com a ida à tabacaria comprar cigarros, cuja existência prévia é dada como certa * a fenomenologia lê essa correlação no sentido inverso: porque algo me aparece, ele ao mesmo tempo é, sendo o aparecimento de uma imagem absolutamente certo independentemente de corresponder ou não à realidade, dependendo do aparecer toda existência e todo ser possível * Apesar dessa suposta identidade de essência, aparecer e ser não têm a mesma dignidade: o aparecer é tudo, o ser não é nada senão porque o aparecer aparece, tendo o ser sua essência apenas no aparecer que previamente desdobrou a própria essência do aparecer, seu autoaparecer * Reconhece-se a importância desse primeiro princípio por colocar a fenomenologia antes da ontologia, subordinando esta àquela, não para desqualificá-la mas para lhe assinalar fundamento seguro, escapando à contestação o que aparece de modo incontestável * Aponta-se, contudo, sua imensa fraqueza, sua indeterminação fenomenológica profunda: nomear o aparecer sem dizer em que consiste, sem remontar à instância que nele permite aparecer, sem reconhecer sua matéria fenomenológica pura, sua carne incandescente * permanecendo o aparecer indeterminado em si mesmo, permanece indeterminada a própria determinação do ser por ele, correspondendo ao conceito formal do aparecer um conceito formal do ser que nada permite saber sobre a potência do ser, o ente, ou a natureza de sua diferença * As mesmas observações concernem ao segundo princípio da fenomenologia, sua palavra de ordem "Zu den Sachen selbst!" ("Direito às coisas mesmas!"), sendo as "coisas mesmas" os fenômenos reduzidos a seu conteúdo fenomenológico efetivo, livre das interpretações que ameaçam recobri-lo * Pergunta-se qual via conduz ao aparecer enquanto tal, não havendo outra resposta senão o próprio aparecer, que em seu autoaparecer nos conduz a ele, implicando isso que objeto e método da fenomenologia constituem algo uno, sendo o objeto que constitui o método, como o raio cuja própria luz o faz ver * essa reabsorção do método em seu objeto parece torná-lo inútil, contrariando a ideia habitual de um conhecimento sempre separado do objeto e necessitado de procedimentos metodológicos, sendo o método fenomenológico um procedimento de elucidação rumo à "clareza da evidência", implícito em todo saber que se pretende científico e fundado na evidência racional * Pergunta-se, remetendo a Kant, se todo conhecimento não remete necessariamente ao a priori de um poder de conhecimento, condição de toda experiência possível, interrogando-se então o que dizer de um Inteligível que escapasse a toda condição prévia, precedendo inexoravelmente qualquer processo de elucidação * citando-se Kafka, "Há um fim, mas não há caminho. Isso a que chamamos caminho é a hesitação", pergunta-se se haveria um fim a que nenhum caminho conduzisse por ser ele mesmo o caminho, uma Arqui-inteligibilidade situada no início, análoga talvez à de que fala João * Declara-se impossível por ora responder a essas questões, precisamente porque a fenomenologia histórica deixou indeterminadas as pressuposições fenomenológicas sobre as quais repousa, não tendo o aparecer para o qual convergem sido objeto de elucidação levada até o fim, exigindo-se um desnudamento de sua matéria fenomenológica pura, sua carne incandescente, restando saber se essa matéria se presta a algum desnudamento, a alguma evidência, ao "ver" de algum pensamento {{tag>Henry}}