====== 3 Preconceito ====== //HENRY, Michel. Incarnation: une philosophie de la chair. Paris: Seuil, 2000.// ** 3. O preconceito oculto das pressuposições da fenomenologia. A redução ruinosa de todo “aparecer ” ao aparecer do mundo. ** * Convém voltar às pressuposições da fenomenologia histórica, cuja indeterminação, dita provisória, esconde na verdade a introdução sub-reptícia de uma concepção da fenomenalidade tomada da percepção dos objetos do mundo, preconceito mais antigo da filosofia tradicional * Ainda que se reconheça a contribuição da fenomenologia em discernir o próprio aparecer no seio dos fenômenos do mundo, esse aparecer destacado só pode ser o do mundo, cedendo o conceito formal e vazio do aparecer lugar sub-repticiamente a um conceito perfeitamente determinado, o aparecer do mundo, excluindo-se a priori modos de aparecer talvez essenciais * Supõe-se que um corpo só possa dar-se no aparecer do mundo, decorrendo daí propriedades essenciais determinadas por esse modo de aparecer, fornecendo uma fenomenologia do mundo, ao estabelecer espacialidade e temporalidade originárias, o arquétipo inteligível de todo corpo possível * Supõe-se agora que nenhuma carne possa mostrar-se no mundo, sendo esse porém o único modo de aparecer conhecido pelo pensamento, resultando daí que a natureza da carne se encontraria inevitavelmente falsificada, confundida com a do corpo, propondo-se essa carne/corpo como misto duplo sem razão última de sua duplicidade * Interroga-se a proposição joanina central desta investigação: que o Verbo tenha vindo numa carne significaria também vir num corpo e assim ao mundo, o que implicaria os homens serem seres do mundo — mas João não diz isso, dizendo antes que os homens são Filhos de Deus, reconhecíveis a partir de uma Arqui-inteligibilidade que não pertence senão a Deus, brilhando sobre seu Verbo, sobre a carne dele proveniente e sobre nossa carne semelhante à sua, supondo tudo isso um modo de aparecer radicalmente estranho ao do mundo * Essa confusão do aparecer do mundo com todo aparecer concebível não impede apenas o acesso ao cristianismo mas corrompe toda a filosofia ocidental, sendo o "princípio dos princípios" husserliano, no parágrafo 24 de Ideen I, o que expõe essa confusão em toda amplitude, pondo a intuição doadora originária como fonte de direito para o conhecimento * Explica-se o conceito de intuição como modo de aparecer, dito "doador" e "originário", distinguindo-se a percepção atual de uma mesa, dada originariamente, da lembrança vaga de uma mesa antiga, mera representação segunda * Devendo-se dizer em que consiste o aparecer da intuição, a resposta husserliana é sempre a mesma: é a intencionalidade que dá à intuição seu caráter doador, consistindo esse pôr em fenomenalidade no movimento pelo qual a intencionalidade se lança para fora de si rumo ao "correlato intencional" ou "objeto transcendente", sendo esse pôr à distância no "lá fora" primitivo o que constitui a fenomenalidade em sua pureza * Descobre-se assim como os princípios da fenomenologia saem de sua indeterminação: tanto o princípio dos princípios quanto o "zu den Sachen selbst" esclarecem-se pela intencionalidade, descrita como "relacionar-se ao objeto transcendente", operando-se corte nítido entre a realidade da consciência e o objeto expulso para fora dela * Levanta-se a questão de uma suposta "interioridade" da consciência oposta à exterioridade do objeto, mostrando-se que essa interioridade, compreendida como intencionalidade, nada mais é que o movimento de lançar-se para fora, esgotando-se sua "substância" nesse processo de exteriorização, sendo revelar, nesse vir-para-fora, fazer ver, e ob-jeto o que é posto diante do ver e assim visto * Reconhece-se o alcance da análise intencional husserliana, descrição sistemática dos diversos tipos de intencionalidades — percepção, imaginação, intencionalidades significantes, intuição categorial —, exemplificando-se novamente com a audição de um som cujas fases se dão no futuro, presente e passado por protensão, consciência do presente e retenção, cada tipo indispensável à percepção mais elementar * Com a descoberta desses múltiplos tipos de intencionalidade realiza-se extraordinária extensão do campo da visão, sendo essa extensão do reino do ver idêntica à do domínio do que é visto, descobrindo-se assim novos domínios de objetos * A definição intencional da experiência confere-lhe traço adicional: na percepção de um cubo apenas uma face é dada em evidência, sendo as outras apenas visadas, projetando-se sempre a intencionalidade para além do dado, inscrevendo-se num processo de conhecimento cuja teleologia imanente é aumentar incessantemente o campo do ver, permitindo o progresso indefinido do conhecimento * Sendo a estrutura do conhecimento tomada da intencionalidade, o fazer ver rege o conjunto das relações que ligam o homem ao ser, citando-se um assistente de Husserl: "É preciso ver, somente ver", e a exigência de pôr em obra a visão como último critério, não podendo se ir atrás dela, só uma visão melhor retificando o engano de uma visão anterior * Pergunta-se como a intencionalidade, que revela cada coisa como diante de nós, poderia revelar-se a si mesma, dirigindo a si própria nova intencionalidade, o que reconduziria ao destino amargo da filosofia clássica da consciência, uma regressão sem fim, interrogando-se se existiria outro modo de revelação além do fazer ver intencional, cuja fenomenalidade já não fosse a do "lá fora" do mundo * Não há resposta a essa questão na fenomenologia husserliana, surgindo dela crise de extrema gravidade decorrente do caráter redutor de seu conceito de fenomenalidade, perguntando-se se todo nosso destino se limita à experiência do mundo, sensível ou inteligível, e quem já viu sua própria visão * Mais grave que essa redução implícita é a aporia dela resultante: é a própria possibilidade da fenomenalidade em geral que se torna problemática se a intencionalidade mesma é incapaz de assegurar sua própria promoção à condição de fenômeno, perguntando-se se o que é visto ainda pode ser visto se a própria visão soçobra na noite e já não é nada {{tag>Henry}}