====== Rebaixamento do indivíduo ====== //HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.// * O marxismo, que obnubila a consciência dos intelectuais europeus durante um século e atinge as massas através de partidos, sindicatos, universidades e imprensa, encerra um equívoco a dissipar desde já: construído sobre o nome de Marx, um dos maiores filósofos do Ocidente e o único a pensar radicalmente o universo dos fatos econômicos remontando à sua raiz, contrasta com as ciências econômicas atuais, que apesar de sua pretensão à cientificidade nunca tratam desse fundamento * Constata-se que o marxismo é tão cego quanto a economia moderna a respeito desse fundamento vislumbrado por Marx, paradoxo explicado pelo fato extraordinário de que os textos filosóficos em que Marx elaborou esse fundamento meta-econômico permaneceram inéditos até 1927-1933, desconhecidos portanto dos que construíram a doutrina marxista — Plekhanov, Lênin, Trotski, Stalin, Mao * dois desses textos, a Crítica da filosofia do Estado de Hegel e A ideologia alemã, escritos em 1842-1843 e 1845-1846, não publicados por falta de editor, constituem análise filosófica rigorosa daquilo que Marx considera a única realidade verdadeira e o fundamento do universo econômico, que não é autônomo mas produzido a cada instante por essa realidade mais profunda * Essa realidade é a da vida no sentido comum, aquela de que se diz ser difícil, penosa ou breve, ou como escreveu Maupassant que "não é nem tão boa nem tão má quanto se diz", citando-se um místico do início do século XIV: "De todos os bens, nenhum nos é tão caro nem tão desejável quanto a vida... Por que comes? Por que dormes? Para viver... Aqueles que estão no inferno, nos tormentos eternos, almas ou demônios, não querem perder sua vida; pois sua vida também é tão nobre..." * O que caracteriza essa vida desejável e nobre é experimentar-se a si mesma, sofrendo e gozando incessantemente do que é, nada tendo a ver com a vida biológica, constituída de processos cegos como moléculas, cadeias de ácidos e neurônios que não se sentem nem são "conscientes", diferindo assim inteiramente da vida de que falam Maupassant, Eckhart ou o senso comum, e que é também aquela que Marx põe no fundamento da economia * Marx é tão atento ao que faz da vida vida, ao fato de que ela se sente e se experimenta, que tudo o que carece dessa propriedade lhe parece privado de sentido, tendo amado tudo o que é vivo e rejeitado a um plano inferior tudo o que, privado da capacidade de sentir, sofrer, gozar e amar, é apenas morte, construindo-se toda sua análise econômica sobre essa oposição decisiva entre o trabalho vivo e os elementos materiais, instrumentos e matérias-primas, sempre afetados de um coeficiente de inércia que os torna incapazes de produzir valor, podendo a vida passar sem a morte e bastar-se a si mesma * Destacam-se dois caracteres da vida: primeiro sua subjetividade, o simples fato de se sentir a si mesma, não devendo entender-se aqui "subjetivo" no sentido trivial de relativo, mas como a realidade mais essencial do indivíduo, sua condição ontológica, seu ser enquanto vida * O segundo caráter da vida é ser uma força produtiva capaz de criar o que não existiria sem ela, modificando a natureza ao seu redor e dando origem a objetos de duas espécies: "valores de uso" destinados a seu próprio uso — alimentos, vestimentas, edifícios — e instrumentos que servem para produzi-los, sendo essa força chamada por Marx em 1845 de "práxis", qualificada como subjetiva, reprovando ao materialismo apreender a realidade "apenas sob a forma de objeto ou intuição, mas não como atividade humana concreta, não como prática, de modo subjetivo" * o termo práxis desaparecerá do vocabulário de Marx, substituído em sua obra econômica por expressões como "subjetividade inorgânica", "corpo vivo", "trabalho vivo", "força de trabalho", "força subjetiva de trabalho", "trabalho subjetivo" * Encontra-se um terceiro caráter da vida, que a opõe às concepções românticas que contaminaram o marxismo mais que o próprio pensamento de Marx: a vida não é entidade universal subsistente como realidade geral, mas sempre individual, atualizando-se unicamente sob a forma de um indivíduo vivo, obedecendo essa atualização à lei de uma reiteração indefinida * na crítica à monarquia, Marx recusa a Hegel o direito de incluir a soberania num único indivíduo em detrimento de todos os outros, insistindo na pluralidade indefinida dos indivíduos vivos: "O indivíduo só tem verdade enquanto é muitos indivíduos" * é sob o título de "indivíduos vivos", "indivíduos reais", que são designados na Ideologia alemã como "a pressuposição de toda história": "A primeira pressuposição de toda história dos homens é naturalmente a existência de indivíduos humanos vivos" * Na análise econômica que constitui o essencial da obra de Marx após 1847, o termo indivíduo vivo cede lugar ao de trabalhador, cujo sentido, rigorosamente idêntico, só se entende a partir da vida, sendo o traço distintivo do trabalhador o trabalho vivo sob a tripla forma subjetiva, ativa e individual, não se podendo compreender a análise econômica de Marx assim que se considera positivamente o indivíduo como ser empírico, erro no qual incorreu o marxismo, forma histórica de positivismo e cientificismo * A designação da vida como "indivíduo vivo" é tão evidente para Marx que ele mal se preocupou em justificá-la, importando mostrar por que a vida reveste sempre existência individual: porque a prova que ela faz de si mesma, reduzida à sua subjetividade pura, é necessariamente esta ou aquela experiência singular, incluindo esse Si irredutível a qualquer outro que faz dela um Indivíduo, um Si transcendental sentindo e sentindo-se a si mesmo, constantemente afetado por si e por nada mais * Deve-se guardar-se de autonomizar esse indivíduo vivo como princípio absoluto: ele é princípio a respeito de tudo que produz, notadamente todos os valores, mas não se criou a si mesmo, caracterizando-o antes uma passividade radical a respeito de seu próprio ser, mais forte que todo poder, todo querer e toda liberdade, sendo justamente essa passividade radical que faz dele um vivente * ser um vivente é nascer da vida, ser gerado por ela sem que essa geração cesse, não sendo o indivíduo senão a prova desse engendramento interior ininterrupto que flui através dele sem que o tenha querido e com o qual, contudo, se confunde * Essa condição metafísica do indivíduo foi pensada por Marx na extraordinária crítica dirigida contra Stirner nos anos 1845-1846, manuscrito de 429 páginas permanecido desconhecido até 1933, quando o marxismo já tinha o indivíduo por quantidade negligenciável, mero efeito de leis econômicas e sociais, gerando-se assim, ao ser finalmente lida de modo rápido e superficial, um contrassenso imediato: o marxismo viu nela a confirmação de sua crítica geral ao indivíduo, contrassenso facilitado pela ironia de Marx contra a pretensão de Stirner de ser "o Único" dono do mundo inteiro como sua "propriedade" * Uma leitura mais atenta mostra que a crítica de Marx é dirigida contra a definição do indivíduo pelo pensamento ou pela consciência, definição clássica que Stirner toma de Hegel, opondo-lhe Marx brutalmente sua definição a partir da vida, como "indivíduo vivo", mudando tudo conforme se conceba o homem como sujeito pensante dominando o universo dos objetos reduzidos a suas representações, ou como ser vivo submergido pela vida e suas necessidades * no primeiro caso chega-se às teses idealistas que Stirner leva ao extremo, segundo as quais Deus, o Estado, o Direito e o poder político não passam de representações da consciência que dependem de seu livre querer, podendo por isso a consciência, depois de considerá-los sagrados, "considerá-los como nada", libertando-se de todo servilismo, fundando-se aí a revolução anarquista pregada por Stirner: nem Deus nem senhor * quanto à propriedade, a consciência de Stirner pode considerar que o mundo inteiro lhe pertence e que é ela quem concede provisoriamente a outrem o direito sobre uma casa, conclusão ridícula da qual Marx extrai a lição: o poder da consciência de se representar as coisas à sua maneira é apenas a máscara de sua total impotência sobre o plano da realidade, prosseguindo o mestre-escola Stirner seu caminho de estômago vazio depois de se persuadir de que é o Único dono de tudo * A crítica de Marx é dupla: crítica do pensamento como tal e crítica da definição do homem por esse mesmo pensamento, sendo a consciência que se representa uma coisa como sendo o que é o próprio pensamento, pondo-a diante de si como objeto dotado de tal ou tal essência, e implicando toda representação de um ente a representação prévia de seu ser, isto é, do fato de que ele existe * O poder da consciência de conferir a uma coisa a significação de ser árvore ou homem é assim uma doação de sentido que confere a tudo que se representa a significação de ser tal coisa e, mais fundamentalmente, de ser em geral, mostrando a crítica abissal de Marx contra Stirner, isto é, contra o pensamento, que a posição dessa significação de ser não concerne à realidade, não sendo o ser redutível a um sentido posto pela consciência * Levanta-se então o contrassenso maciço do marxismo, partilhado por todo objetivismo e pelo senso comum: já que as representações da consciência não podem definir a realidade, esta lhes preexistiria como realidade exterior do mundo, opondo-se à crença de Stirner de poder modificá-la mudando seu "ponto de vista", primeiro como realidade exterior do mundo material independente do pensamento, segundo como realidade social com leis próprias que a pensée pode reconhecer mas não criar ou modificar arbitrariamente * assim "santo Max" ou "santo Sancho", como Marx chama Stirner, pode mudar seu ponto de vista sobre as coisas, mas elas não mudarão por isso, e as leis da propriedade que ele "considera como nada" continuarão a proibi-lo de se apropriar, senão em pensamento, do bem alheio * Antes de opor as intuições decisivas de Marx a esse realismo objetivista partilhado pelo marxismo e pela ciência do século XIX, observa-se sua extrema fraqueza: afirmar que a realidade não é redutível a uma representação da consciência é a tese defendida neste ensaio, mas a questão é saber qual é essa realidade irredutível às representações da consciência, pois conceber imediatamente o universo material como constituído de objetos já pressupõe o poder sem o qual não haveria objeto, a própria consciência entendida como pensamento * um idealismo da consciência incapaz de ser revertido é apenas um realismo do objeto que, sem sabê-lo, repete o primeiro * Quanto à realidade social e suas leis, seria vão explicá-las a partir das partículas microfísicas do universo material, nada tendo a física das partículas a dizer a seu respeito, sendo erro do materialismo de sempre identificar essa realidade social anterior ao pensamento com a "realidade exterior" do universo material, devendo-se antes conceber essa realidade social, com Marx, como a da vida: a realidade da história é a dos indivíduos vivos, a realidade social é uma práxis subjetiva, a práxis social * Deve-se dirigir crítica radical contra o marxismo por ter afastado a definição idealista da realidade apenas para pô-la como realidade objetiva e material, permanecendo prisioneiro da dicotomia clássica Sujeito/Objeto em sua formulação mais ingênua: ou o sujeito cria o objeto, ou o objeto determina o sujeito, idealismo ou materialismo * Responder a essa questão, seja idealista seja materialista a resposta, é perder de vista o que constitui aos olhos de Marx a essência da realidade verdadeira, a vida subjetiva dos indivíduos, que não é nem representação da consciência nem realidade material, nenhum objeto concebível * A consequência dessa decisiva errata teórica é tomar a crítica do indivíduo definido pelo pensamento, pelo poder da consciência de modificar livremente suas representações identificadas à realidade, por uma crítica do indivíduo vivo ele mesmo, quando a crítica do indivíduo pensante é para Marx apenas a antítese que lhe serve para definir em toda sua força o indivíduo vivo, restando indicar por quais entidades abstratas este se encontra substituído no marxismo e como essa substituição de abstrações à vida conduz os regimes nela fundados à ruína {{tag>Henry indivíduo}}