====== Morte ====== //HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.// ** A morte e a política ** * A negação teórica do indivíduo que faz do marxismo uma forma pura de fascismo determina nele uma concepção do político encontrada também, sob aspectos vizinhos, nas democracias modernas, tornando urgente sua clarificação diante das transformações políticas do Leste * Não há mais "política" na natureza em que vivem os homens do que realidade econômica propriamente dita, não devendo chamar-se "política" a organização espontânea hierárquica de um grupo, assim como não se chama "econômico" o ato de caçar * tal como a economia supõe um duplicado das atividades práticas por um universo de idealidades, a política lança sobre essas mesmas atividades um horizonte de compreensão de outra ordem * Deve-se surpreender o Ato que cria essa dimensão específica do político, ato pelo qual a consciência confere a uma série de fatos a significação de dizer respeito a todos os indivíduos de um grupo, isto é, de ser "assunto de todos", sendo esse conteúdo ideal "assunto geral" que define a essência política * Dessa origem segue que a essência política não tem autonomia alguma, remetendo necessariamente, além da consciência que a engendrou, aos indivíduos vivos e às atividades subjetivas em que produzem sua vida, isto é, à práxis social * Objeta-se que o assunto geral se oporia ao que é assunto de um indivíduo particular, mas cada ação da vida cotidiana, marcada pelo selo da individualidade, não pode ser oposta ao assunto geral sem absurdo, sendo justamente o assunto de todas essas vidas irredutíveis * Resulta dessa análise o caráter referencial do político, sendo impossível conceber um assunto geral que não remeta à vida dos indivíduos como seu único conteúdo real, não tendo a essência política, tal como a realidade econômica, autonomia própria * Deve-se evitar interpretar politicamente a própria definição do político: dizer que o assunto geral é assunto de todos parece tautológico, mas dar-lhe imediatamente sentido político é fazê-lo funcionar dentro do campo político quando na verdade nos lança fora dele, ao lugar não-político da vida * Politicamente, ser assunto geral significa que cada um tem voz na condução dos assuntos públicos, diferenciando-se por essa exigência os regimes: democracias, que honram o conceito de "república" ao tornar o assunto geral público e debatido por todos, e ditaduras, que negam ao cidadão esse direito * Ilustra-se com um plano de irrigação submetido a um conselho municipal, tornando-se assunto político por ser discutido por essa assembleia, cuja própria instituição resulta de uma visada que faz aparecer um assunto particular como geral * o plano comporta dois aspectos, os trabalhos — horas de escavação, equivalente objetivo dos trabalhos reais de quem está no canteiro — e o resultado, a irrigação e as colheitas, valores de uso consumidos na vida, não mudando a entrada no político nada da subjetividade essencial dessa vida * Negar esse caráter referencial do político, ou simplesmente deixar de percebê-lo, é o maior perigo, sendo essa ocultação do sentido fundador da vida o que se produz no marxismo, uma vez o indivíduo reabsorvido na classe social e suas propriedades tratadas como objetivas * Essa realidade estranha ao indivíduo que passa a constituir o tema da análise marxista é a "realidade econômica e social", conjunto de equivalentes objetivos substituídos à subjetividade invisível do indivíduo, sendo absurdo pensar os indivíduos vivos determinados por essas abstrações * Um dos temas maiores do marxismo, herdado do próprio ensino de Marx, é a redução do político à economia entendida como seu substrato real, aparecendo o político como simples expressão da realidade econômica, sendo o governo, como se vê ainda hoje no Japão e alhures, apenas "o conselho de administração dos grandes negócios da burguesia" * Compreende-se por que, apesar dessa desvalorização redutora, o político ocupa lugar preponderante para os marxistas, definindo o único modo de vida que dá sentido à existência, pois para eles o indivíduo não é nada, tomando a análise marxista a realidade econômica imediatamente pelo fundamento, ao invés de decompô-la entre a vida subjetiva dos indivíduos e suas representações econômicas * Restando ao indivíduo, esvaziado de sua substância e reduzido a determinações objetivas de classe, apenas ser compreendido e agido sobre para ser transformado, essa visada que se ergue acima do ponto de vista limitado do egoísmo individual para abarcar o problema como assunto geral é a visada política, tornando-se a política o único meio de o indivíduo negado superar sua insignificância * Essa ação, como a visada que a sustenta, só pode ser política, exigindo capacidade de ação à sua medida que o indivíduo isolado não detém, sendo apenas uma força social, a classe, capaz de responder à visada política do assunto geral, motivando a ação não os caracteres individuais mas os caracteres sociais * É aqui que a política se junta à História, deixando de ser mero reflexo dos fenômenos econômicos para, abarcando-os em sua visão englobante, perceber as forças que a determinam, dando a cada um a possibilidade de superar seu destino irrisório integrando-se às grandes potências que habitam a História * A revalorização do político requer três condições: primeiro, o rebaixamento ou nulidade do indivíduo entregue a si mesmo e a seus interesses egoístas; segundo, a existência de uma realidade social mais alta à qual ele deve se ultrapassar, seja o determinismo econômico, seja a História investida de categorias existenciais tomadas do hegelianismo, da teosofia de Jacob Boehme e do próprio cristianismo * expõe-se esquematicamente, visível no Arquétipo de Cristo, a ideia de que só se vai à salvação pela morte, à felicidade pelo sofrimento, repetindo o proletariado a história de Cristo ao se afundar em miséria crescente e conduzir a humanidade inteira à sua salvação, explicando essa concepção messiânica do Desejo ferido e finalmente triunfante o poder de fascinação exercido pelo marxismo durante mais de um século * A terceira condição, a mais grave, não concerne apenas ao marxismo mas também à democracia que se pretende opô-lo, reconduzindo-nos a repensar a oposição indivíduo/sociedade, singular/universal, sobre a qual toda teoria política jamais deixou de repousar * O político é a visada do universal, considerando as atividades múltiplas dos indivíduos como assunto geral, mas essa visada mesma se destaca sobre a visão prévia do mundo, sendo sua luz emprestada do próprio mundo, desse horizonte de visibilidade onde tudo se mostra, opondo-se essa luz aos interesses particulares e egoísmos divergentes considerados forças cegas * Essa hierarquia ético-política que eleva o político rebaixando o indivíduo remete a uma hierarquia fenomenológica prévia entre dois modos de aparecer, o da vida que se experimenta a si mesma em seu pathos mudo, e o do mundo, horizonte onde se cumpre a visada política * A vida em nós, em sua subjetividade pura, é simplesmente ignorada pelo pensamento político, que por isso assimila a atividade individual a uma ação "cega" incapaz de resultado positivo por si só, exigindo o concurso de várias ações a luz superior do universal, "a luz do Estado", como ironizava Marx contra Hegel * A forma histórica concreta em que o político se identifica à fenomenalidade do mundo é a Cidade antiga, espaço de luz onde as ações humanas se harmonizam, recebendo aí o assunto geral sua determinação mais própria, a publicidade, sendo a publicidade do assunto geral o que funda sua generalidade, fundando o fenômeno do mundo o próprio político * Essa significação fenomenológica do político funda sua hipóstase, considerá-lo realidade autônoma da qual os indivíduos apenas participariam, exprimindo essa valorização a grande carência fenomenológica do pensamento ocidental, a crença de que só existe a fenomenalidade do mundo * Nessa objetivação que transforma vidas em indivíduos empíricos vistos de fora produz-se outra ilusão: os indivíduos nunca estão isolados, sendo a força da vida que os lança um em direção ao outro o fundamento de toda comunidade concebível, comunidade pulsional manifesta na simpatia, piedade, amor ou ódio, e primeiro no ser-com mudo que une a criança à mãe * O pensamento político se apropria desse ser-em-comum originário, invertendo tudo mais uma vez ao supor que é a visada da afaire geral que reúne os indivíduos, quando na verdade a experiência efetiva do outro só ocorre por ser experimentada em mim, sendo a comunidade da vida anterior a qualquer projeto político, sua causa e condição * A hipóstase do político e o rebaixamento correlativo da vida e do indivíduo têm por consequência o totalitarismo, que não designa um regime entre outros mas ameaça todo regime concebível assim que o político passa a ser tomado por essencial * Quando o político ocupa o proscênio, anuncia-se tempo perigoso, o da revolução, do terror e dos mortos, pois se o assunto público é o único que importa, colocado acima de cada indivíduo, ele pode também suprimi-lo, ele que só existe nela, por ela e para ela * Esse assassinato costuma cumprir-se simbolicamente sob forma de teoria política partilhada pelo maior número, mas às vezes as coisas se tornam sérias, abrindo-se então a era propriamente política em que a realidade se torna realmente política ao se cumprir no assassinato político, o assassinato do indivíduo em nome da essência política * O totalitarismo contém latentes esses pressupostos que se atualizam no tempo da revolução, escamoteando-se a subjetividade dos indivíduos vivos sob o conceito querido da política, o conceito de povo, no qual transparece a inquietante parentesco entre totalitarismo e democracia * o povo, que se quer coextensivo à totalidade dos indivíduos, na verdade não é ninguém, sendo nele abolido sub-repticiamente o traço mais decisivo da vida, o fato de ser sempre vida individual, devendo receber seu verdadeiro nome: a negação de toda vida possível, a morte * o conceito de povo é o equivalente político dos conceitos de classe ou sociedade já criticados, apresentando a mesma vacuidade ontológica, jamais tendo sido o povo surpreendido a lavrar ou operar cirurgicamente, sendo necessários homens para isso, como dizia Marx * Essa vacuidade ontológica do conceito de povo atinge o coração do conceito de democracia, pois numa democracia é o povo que governa, mas o povo não existe, não podendo governar mais do que lavrar um campo, sendo o conceito de democracia o maior engodo já inventado pelos homens, hoje agitado diante do olhar aturdido das nações que constroem juntas a Europa * Se, tal como sociedade ou classe, o povo não existe senão como conceito referido às múltiplas subjetividades dos "indivíduos vivos", sua significação política se anula, cabendo governar não ao povo mas a esses indivíduos, sendo essa a única aporia que dá origem à invenção política, análoga à impossibilidade de medir o trabalho vivo que originou a invenção econômica * Como todos não podem efetivamente governar, fazem-no por intermédio de representantes eleitos que decidem em seu nome, remetendo assim a representação política o assunto geral a seu fundamento não-político apenas para colocar em seu lugar não todos os indivíduos vivos mas apenas seus delegados, tornando-se o assunto de todos politicamente o assunto de poucos, a "classe política" * quando a democracia substitui uma ditadura totalitária, uma nomenclatura substitui outra, ou às vezes é a mesma, sendo a hipocrisia própria de todo regime político por princípio, tanto da ditadura comunista quanto da democracia que lhe sucede no Leste * A essa perversão soma-se outra mais grave, afetando o próprio conteúdo do assunto geral: sendo este sempre um assunto particular fundado na vida — irrigação, urbanismo, programa de ensino —, sua competência pertence a indivíduos determinados, urbanistas, agrônomos, universitários, e tornar-se político significa passar das mãos de quem tinha qualificação para tratá-lo às mãos de quem, escolhido por outras razões, carece dessa aptidão, como na escolha de um monumento decidida por um conselho político em vez de artistas * A incompetência do político culmina na administração, que substitui em toda parte, sob pretexto de defender o interesse geral, os problemas e finalidades vivas das iniciativas individuais por sua própria finalidade burocrática, comportando-se como força de morte, não se diferenciando os regimes ditos burocráticos, totalitários ou democráticos, no fato de o princípio político pretender reger todo o domínio da vida econômica, social ou cultural * O prejuízo que o político inflige à vida é sempre o mesmo em seu princípio, consistindo, de um lado, na pretensão de tornar público o que só se desdobra na subjetividade invisível da vida, e, de outro, na substituição dos assuntos dos indivíduos vivos por um pretenso assunto geral substancialmente diferente, reunindo-se assim a perversão política à perversão mais geral já denunciada, a da substituição como tal, que ao colocar em lugar da vida algo que não é ela, faz pesar sobre ela uma ameaça mortal {{tag>Henry economia técnica}}