====== Fascismo ====== //HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.// ** O princípio do fascismo ** * Chama-se fascismo toda doutrina que, confessadamente ou não, procede ao rebaixamento do indivíduo até que sua supressão pareça legítima, contraindo assim todo fascismo um vínculo essencial com a morte, já que a única realidade é a da vida, existente apenas sob a forma de indivíduos particulares, sendo atingir o indivíduo atingir a vida em sua única forma possível * a violência do fascismo, ainda que não assuma de imediato o aspecto extremo do assassinato, reduz-se sempre a uma violência feita ao indivíduo, sendo este o único em causa nas brutalidades, intimidações, prisões arbitrárias, torturas ou execuções * Objeta-se que os regimes fascistas, sobretudo o nazismo, glorificaram a "vida" e sobretudo a força, culto que estaria na origem de seus excessos, devendo-se responder com firmeza que nenhuma glorificação da vida pode jamais ser fonte de mal algum * os crimes imputáveis ao nazismo e aos regimes fascistas são crimes no sentido próprio, atos que causaram a morte, sendo o desprezo pela vida, e não sua exaltação, capaz de suscitá-los, salvo se a própria vida se engaja no processo monstruoso da autonegação de si, traço dominante do niilismo moderno e do fascismo * Considerando a força, caráter da vida mais facilmente criticado, reconhece-se que ela, como toda propriedade vital, é boa em si mesma, pois sem poder algum não se poderiam satisfazer as necessidades vitais elementares * A relação entre força e vida deve ser apreendida em seu nível mais profundo: nunca é lícito considerar a força separada da necessidade, do movimento, do olhar, da vontade, da inteligência, do amor, havendo antes uma força da necessidade, do olhar e do amor sem a qual essas propriedades não seriam nada * Ilustra-se essa força com o exemplo simples de mover a mão para tomar um objeto, força que jamais poderia se exercer se não se encontrasse antes de posse de si, sendo essa imersão do corpo em si mesmo a maior força, a força da força mas também da fraqueza, do que explica que os fracos sejam tão fortes que, ao se oporem a seres aparentemente superiores — enfermos ou doentes contra quem os cuida —, sempre acabem por vencê-los * Cada força particular encerra em si essa força maior que lhe permitiu se juntar a si mesma, comportando toda força uma retenção essencial, percebendo-se melhor uma força quando se percebe essa retenção, exemplificando-se com o gênio de Beethoven, cujo desencadeamento de forças brota sempre dessa retenção como de uma potência originária e inesgotável * Essa força maior que habita cada força é a própria vida, sua capacidade de se experimentar a si mesma imediatamente nessa constrição patética que lhe permite coincidir consigo e dar a cada um de seus poderes a capacidade de agir * Ao contrário da simples força, suscetível de mais ou menos entre indivíduos, a força dessa força não conhece grau nem variação, sendo a mesma em todos os indivíduos por ser absoluta, sem limites, infinita, citando-se Malebranche: tentai fazer com que num círculo nem todos os raios sejam iguais * a infinitude dessa força opõe-se à finitude de cada força particular pelo fato de que, por mais limitada que seja, cada força se experimenta na plenitude de seu ser, sem reserva, ligada a si mesma invencivelmente, sem que nenhum recuo do olhar possa quebrar esse vínculo * Essa vida engendra sempre em si um indivíduo vivo, pois sendo prova de si mesma encerra necessariamente um "si-mesmo", sendo esse ser-si-mesmo que define transcendentalmente o Indivíduo verdadeiro, como toda dor real, sendo experiência singular, encerra em si um Si irredutível a qualquer outro * Fala-se do "indivíduo", dos "indivíduos vivos" de modo ingênuo e pré-crítico, como se fossem indivíduos como as cadeiras são cadeiras, mas realidades empíricas vivas como moléculas ou células não são Indivíduos, sendo apenas partindo do fenômeno metafísico da Vida, reconhecida como Revelação originária, que se pode apreender o que é um indivíduo vivo * É decisivo apreender essa condição metafísica do Indivíduo, pois é em relação a ela que o fascismo se define por instinto, implicando sempre o rebaixamento do indivíduo e, no fundo dessa vontade de rebaixamento, sua negação, negação que atinge não qualquer aspecto do indivíduo mas precisamente aquilo que faz dele um vivente: seu poder de sentir, querer, compreender e amar, sua capacidade de se sentir a si mesmo como um Si diferente de todo outro * A situação-limite em que o fascismo se desvela em sua verdade é a tortura, que aparece primeiro como meio para obter informação através do sofrimento, mas nela, mais rápido que em qualquer outro assunto humano, o meio se torna o fim, sendo o caráter fascinante da tortura sua significação metafísica de reconduzir ao lugar onde o indivíduo é ele mesmo para poder atingi-lo no coração * no coração do indivíduo está a vida, a subjetividade pura onde a vida toca a si mesma, sendo sofrer não um conteúdo particular da vida mas o próprio fato de viver, enquanto viver é experimentar, sofrer o que se é, sendo a tortura dirigida à vida mesma através da exacerbação paroxística dessa prova de si * Pergunta-se por que o fascismo, como o desespero de que fala Kierkegaard, ou como o Eros ou o sadismo, reconduz a vida à essência de seu viver, incendiando a subjetividade pura, talvez para que, no cúmulo do sofrimento, ela alcance a prova plena e o gozo de seu ser, podendo bourreaux e vítimas, no instante do grito, levantar juntos o véu do mistério mais profundo do ser * o fascismo difere dessas experiências-limite por ver nessa emoção suprema da vida apenas o meio de levá-la a se renegar a si mesma, cumprindo a obra monstruosa da negação de si, a negação da vida como sua autonegação * No grito do sofrimento está o momento de denunciar um camarada, de entregar a informação exigida, e mais que isso, o momento em que o indivíduo que cede diz ele mesmo que não é nada, um covarde e um delator, abominação que atinge não só ele mas a vida inteira, pois é justamente quando a vida é plenamente vida, quando sua subjetividade se acende e queima em seu fogo metafísico, que essa vida confessa sua ignomínia * Todas as empresas específicas do fascismo visam constranger o indivíduo a manifestar ele mesmo sua baixeza e indignidade, exemplificando-se com prisioneiros de campo reduzidos a vasculhar lixo como porcos, cabendo a eles assumir esse comportamento e declarar que já não são seres humanos * Pergunta-se se a definição marxista do indivíduo pela classe a que pertence encerra visada análoga à da tortura, observando-se que a objetividade científica se edifica pela exclusão de tudo que releva de uma subjetividade particular * mas na teoria das classes trata-se necessariamente de propriedades sociais essencialmente subjetivas, só podendo existir na vida de um indivíduo, sendo por isso que Marx dizia que as propriedades sociais dos indivíduos de uma mesma classe são "semelhantes", pois todo trabalho real encerra inevitavelmente a subjetividade de uma experiência que o individualiza radicalmente * É precisamente essa subjetividade singular que o marxismo desconhece em razão de seu objetivismo, considerando como objetiva uma propriedade social que é subjetiva, o que equivale a negá-la, e como a propriedade social é o que define o indivíduo, este sofre o mesmo destino, tornando-se ponto de interseção de relações sociais objetivas * Enquanto mantidas em sua subjetividade radical, as determinações sociais só podem ser semelhantes — como o esforço de dois trabalhadores erguendo um peso —, mas ao serem pensadas como categoria geral, como "trabalho penoso", tornam-se entidades idênticas, uma mesma realidade objetiva visada por diferentes indivíduos, exemplificando-se com o mesmo triângulo isósceles sobre o qual argumentam os geômetras * Quando, como na teoria marxista da classe, os indivíduos são definidos por tais caracteres idênticos e objetivos, eles próprios se tornam idênticos, isto é, deixam de existir como indivíduos, pois cada indivíduo é por natureza diferente de qualquer outro * os indivíduos não diferem por diferenças empíricas mínimas mas sobre o fundo de uma identidade essencial, o fundo da Vida neles, sendo no fundo dessa prova de si singular que nasce o Si metafísico irredutível que é o Indivíduo, sendo esse mesmo Si metafísico que o fascismo quer reduzir levando-o a se negar, e que a teoria marxista nega teoricamente * Passa-se das determinações subjetivas singulares às determinações sociais objetivas idênticas por um ato de pensamento, que ao pô-las diante de si como propriedades vistas e idênticas substitui-as ao que só é possível experimentado numa subjetividade singular, omitindo o que se mantém fora de toda visão, na dimensão invisível da vida * Considera-se outra forma de fascismo, o racismo, que consiste em definir o indivíduo por caracteres objetivos étnicos — biológicos, psicológicos, socioculturais —, importando reconhecer que o racismo nada tem a ver com a existência real ou suposta de tipos étnicos ou "raças", havendo racismo desde que um caráter natural ou objetivo seja dado como constitutivo da realidade de um indivíduo, quando essa realidade é puramente metafísica * Existe assim um racismo social como há um racismo tout court, pela mesma razão: quando uma determinação objetiva — ofício, cor da pele, sexo, idade — é dada como o ser real do indivíduo * objeta-se que as determinações sociais, sendo subjetivas em sua realidade verdadeira, deveriam ser mais reais que qualquer propriedade objetiva, reconhecendo-se que o erro do marxismo foi apenas considerá-las objetivas, permanecendo, em sua subjetividade, capazes de instalar a diferença no coração do indivíduo * Reafirma-se que, posta a referência à realidade subjetiva do indivíduo vivo, sua irredutível individualidade se impõe, sendo as diferenças nascidas dessa individualidade totalmente diferentes das diferenças de classe, pois, como afirma Marx, um trabalho reputado objetivamente difícil será fácil para um e extenuante para outro, mudando as determinações "sociais" de sítio ontológico ao passar de sua representação objetiva à sua efetuação subjetiva, tornando-se puro afeto incomunicável * É precisamente nessa singularidade abissal onde se engolfam todas as determinações sociais, onde todo critério objetivo se dissolve na Noite da subjetividade absoluta, que se encontra a única igualdade concebível entre indivíduos irredutivelmente diferentes: sua condição metafísica de indivíduo enquanto Si singular engendrado na vida, encontrando-se essa igualdade essencial já a propósito da mais significativa das qualidades, a força * Mais que qualquer outra qualidade, a força institui desigualdade evidente conforme fatores circunstanciais como idade ou sexo, mas cada força, fraca ou forte, só é possível pela presença nela de uma força maior que a pôs de posse de si, sendo essa força maior, a própria vida, a mesma em todos os indivíduos, tornando-os metafisicamente iguais e, portanto, iguais em sua força última * O fascismo parece opor-se ao marxismo ao exaltar a força para legitimar a diferença entre fracos e fortes, mas essa diferença é ilusória e falsa metafisicamente, sendo desmentida no plano dos fatos, como mostram pequenas mulheres morenas que sempre souberam enfrentar bebedores de cerveja, pois a mesma força metafísica irrepressível habita todos os viventes * Para que uma diferença efetiva entre fracos e fortes apareça é preciso um evento extraordinário e metafísico: que a força maior, a vida ela mesma, adoeça, tornando-se menor num do que noutro, o que só é possível se ela mesma se voltar contra si — a autonegação da vida, único capaz de atingi-la, sendo esse ressentimento da vida contra si mesma o que cria em todos os casos a fraqueza * essa autonegação da vida é a forma primitiva da morte e ao mesmo tempo o princípio do fascismo, sendo os que nela a vida não se renegou totalmente estranhos a essa distinção entre fracos e fortes * É um universo homogêneo aquele em que a autonegação da vida produziu a distinção dos fracos e dos fortes, o ressentimento e esse odor de morte presente sempre que a vida se volta contra si, sendo por isso que todo fascismo, apesar de sua aparente exaltação da força e da vida, carrega esse odor e esse gosto de morte de que secretamente parte, sendo "Viva a morte!" sua verdadeira profissão de fé, tendo Hitler, quando perdido, querido arrastar consigo todo seu povo para a morte * Encerra-se deixando os mortos enterrarem seus mortos, tendo o atentado do fascismo contra o indivíduo vivo permitido desvelar sua essência metafísica, restando, antes de examinar as modalidades de sua eliminação nos regimes fundados no marxismo e talvez também nas democracias que se lhes opõem hoje, estabelecer o papel decisivo desse indivíduo vivo na economia, na atividade concreta de uma sociedade, revelando-se então com mais precisão e mais terror o que significa o rebaixamento do indivíduo e a ruína que ele acarreta para toda a sociedade {{tag>Henry fascismo}}