====== Suicídio da Razão ====== //JONAS, Hans. Poder o impotencia de la subjetividad. Barcelona: Paidós, 2005.// **III. A inutilidade da tese do epifenômeno ou o suicídio da razão** 1. A refutação total do epifenomenalismo somente seria necessária caso os motivos que conduziram à negação da eficácia psíquica fossem tão imperiosos que restassem apenas essa solução autodestrutiva ou a confissão de um enigma insolúvel, embora seja preferível conservar o enigma a aceitar uma teoria comprovadamente falsa e incapaz de oferecer verdadeira saída. * A demonstração da possibilidade factual da interação psicofísica e de sua necessária compatibilidade com a causalidade natural basta para fundamentar a ética, mesmo que o modo concreto dessa interação permaneça desconhecido. * A natureza deve ser interpretada de modo compatível com o fato da causalidade psíquica, em vez de se exigir que a subjetividade seja sacrificada a uma imagem apriorística da natureza. * A permanência do enigma acerca do modo da interação não impede que se procure diminuir a inquietação lógica dos defensores da causalidade física, mostrando que existem alternativas menos desesperadas do que o epifenomenalismo. 2. A tentativa hipotética de resolver o problema psicofísico pretende demonstrar que ainda é possível pensar onde a suposta impossibilidade de pensamento havia conduzido à fuga para o absurdo, sem fazer depender o valor do argumento da verdade definitiva da hipótese apresentada. * O êxito lógico da hipótese consistiria apenas em mostrar a possibilidade conceitual de uma solução compatível com os fenômenos. * A validade da refutação do epifenomenalismo não depende de que o modelo alternativo seja empiricamente verdadeiro. * A reflexão culmina numa proposta especulativa destinada a mostrar como a causalidade psíquica poderia inserir-se no curso natural. **Tentativa de resolver o problema psicofísico** **1. Artificialidade do problema** 3. O problema psicofísico não nasce naturalmente da experiência, mas é produzido por uma teoria da natureza, pois a experiência imediata nunca oferece razão para duvidar de que pensamento e vontade condicionam a conduta nem de que a reflexão possa seguir um caminho próprio antes de manifestar-se corporalmente. * A capacidade de agir segundo pensamento e vontade é imediatamente dada e sua formulação apenas explicita tautologicamente que o sujeito pode atuar. * O ato de refletir sobre o próprio problema psicofísico e registrar corporalmente os pensamentos pressupõe que o pensamento percorra previamente um âmbito de liberdade distinto do percurso corporal. * A dúvida surge apenas de uma teoria determinada da natureza, embora essa própria teoria seja produto do pensamento e, portanto, obra humana. * A construção teórica jamais eliminou a autocerteza imediata da ação, mas apenas a colocou externamente sob suspeita. 4. A dificuldade é exclusivamente uma questão de compatibilidade entre o testemunho imediato do pensamento e uma imagem teórica da natureza que pretende derivar do próprio pensamento sua autoridade para negar a eficácia daquele que a produziu. * A incompatibilidade não opõe diretamente a ação consciente à reflexão do pensamento sobre si mesmo, mas uma imagem ontológica e lógica da natureza ao testemunho da experiência subjetiva. * A pretensão absoluta dessa incompatibilidade deve ser questionada antes que se sacrifique a subjetividade em favor dela. * O princípio do tudo ou nada na causalidade mecânica decorre de um ideal da natureza que confunde a realidade física com a exatidão matemática. * O determinismo absoluto de Espinosa e de outros pensadores transforma dogmaticamente uma idealização científica em determinação ontológica integral. * A densidade ou a rarefação efetiva da rede causal não pode ser decidida previamente pelas leis de conservação, mas deve ser investigada sem preconceitos. * O abandono do modelo mecânico da bola de bilhar já demonstrou que a causalidade natural não precisa constituir uma malha rígida e uniforme. **2. Um experimento mental** 5. Um cone geometricamente perfeito, equilibrado sobre sua ponta com o centro de gravidade exatamente alinhado ao eixo, permaneceria em equilíbrio absoluto e simultaneamente instável, de modo que uma influência infinitesimal bastaria para romper a simetria e desencadear sua queda numa direção determinada. 6. A menor perturbação externa ou interna produziria consequências físicas gigantescas inteiramente governadas pelas leis naturais, embora o impulso determinante inicial permanecesse quantitativamente incomensurável e imprevisível quanto à direção assumida. * A aceleração, o impacto, os efeitos mecânicos e térmicos e a compensação energética da queda poderiam ser calculados pelas leis da natureza. * A direção concreta da queda não seria previsível, pois infinitas direções alternativas teriam inicialmente a mesma possibilidade. * O impulso desencadeante não entraria na mensuração das consequências porque seria abstratamente inapreensível e desprovido de valor quantitativo determinável. * A insignificância ou a natureza aleatória do impulso o tornaria praticamente inexistente para o cálculo causal dos acontecimentos macroscópicos. * As leis de conservação permaneceriam intactas porque todo o desenvolvimento verificável posterior se ajustaria a elas. 7. A exigência de uma causa física antecedente para o impulso infinitesimal constituiria postulado destinado apenas a preservar a integridade formal da teoria, pois tal antecedente seria empiricamente inacessível e nada acrescentaria à descrição quantitativa do processo. * A hipótese naturalista poderia declarar que o impulso já estava determinado segundo as leis de conservação. * A ausência de verificabilidade tornaria esse postulado vazio, ainda que fosse incorporado retroativamente à série dos antecedentes físicos. * Do ponto de vista puramente numérico, uma origem psíquica situada no valor físico próximo de zero não alteraria o balanço mensurável. * A atribuição de origem psíquica ao impulso pareceria uma criação a partir do nada apenas enquanto se permanecesse no exemplo abstrato do cone, no qual não há motivo positivo para introduzir causa distinta da física. **3. O princípio desencadeante nas vias nervosas eferentes** 8. O princípio desencadeante adquire forma mais realista nas organizações superiores da matéria viva, especialmente nos centros de controle das vias nervosas eferentes, onde diversos pontos desencadeadores correspondem a ordens alternativas e a possibilidades distintas de ação. * Os pontos desencadeadores A, B e C correspondem às ordens possíveis a, b e c dirigidas à motilidade. * Cada ordem representa a alternativa afirmativa ou negativa de realizar ações distintas. * O sistema físico pode encontrar-se num estado em que todas as possibilidades de ativação sejam igualmente disponíveis. * A decisão sobre qual possibilidade será primeiramente desencadeada permanece suspensa enquanto nenhuma diferença física relevante favoreça uma delas. * A passagem da potencialidade à atualidade requer influência de magnitude extremamente pequena. 9. Uma vez ativado o ponto desencadeador A, a transmissão neuronal da ordem, sua realização muscular e todos os efeitos subsequentes podem ser descritos sem lacunas pelas leis físicas, embora essa descrição não explique por que A foi escolhido em vez de B ou C. * A explicação física é completa para o curso posterior ao desencadeamento. * A magnitude que determina a escolha inicial possui valor praticamente nulo em comparação com os efeitos produzidos. * A ativação de qualquer alternativa seria igualmente compatível com as leis naturais antes do acontecimento e igualmente determinista após sua ocorrência. * A indeterminação encontra-se apenas no nível da escolha entre possibilidades fisicamente equivalentes, não na execução causal da alternativa escolhida. 10. A magnitude desencadeante, embora quase nula, continua sendo uma dimensão física mínima cuja origem pode ser atribuída ao acaso quântico ou à distribuição determinista precedente, mas nenhuma dessas explicações corresponde adequadamente à regularidade intencional dos atos conscientes. * O princípio de indeterminação permite compreender a incidência como acontecimento casual no campo das possibilidades quânticas. * O determinismo permite tratá-la como consequência necessária de condições físicas antecedentes. * A irregularidade puramente casual contradiz a ordem observável da conduta intencional. * O determinismo mecânico explica apenas as ações não conscientes, enquanto perde força diante da conduta orientada por escolhas. **4. Possibilidade de uma origem psíquica do desencadeamento** 11. Uma terceira alternativa consiste em admitir que a magnitude física necessária à escolha neuronal provenha do psiquismo, isto é, de uma dimensão situada além da matéria, introduzindo no sistema uma quantidade mínima capaz de decidir entre possibilidades físicas equivalentes. * O incremento não seria subtraído de nenhuma reserva interna do sistema físico e, sob uma perspectiva estritamente física, aparentaria criação a partir do nada. * Sua pequenez o tornaria invisível ao cálculo dos fatores físicos que compõem a sequência observável. * Apesar de fisicamente ínfimo, seu efeito desencadeante poderia alcançar dimensões imensas. 12. Uma determinação psíquica quase imperceptível pode desencadear guerras ou paz, fundar ou destruir impérios, construir catedrais ou bombas atômicas e produzir efeitos mundiais cujo desenvolvimento físico posterior permanece integralmente determinista. * O macrodesenvolvimento das ações permanece submetido às leis de conservação. * Apenas o início que seleciona uma alternativa entre várias possibilidades equivalentes deixa de ser fisicamente determinado. * O processo ulterior pode repetir incontáveis vezes a intervenção de novos atos humanos e novas decisões conscientes. * A sequência completa parecerá fisicamente determinista, embora contenha sucessivos pontos de escolha mental. * A experiência imediata testemunha que a escolha é determinada pelo pensamento, e não por acaso físico. 13. A dimensão psíquica que atua no ponto inicial desaparece quantitativamente diante dos acontecimentos que desencadeia, de modo que o sentido triunfante numa decisão humana aparece, da perspectiva da natureza, como acaso absolutamente indeterminável. * A desproporção entre causa desencadeante e consequências impede medir a importância psíquica pelo valor energético inicial. * Pequenas magnitudes podem somar-se e produzir efeitos físicos consideráveis. * A intervenção não constitui acontecimento único, mas se repete em todo ato eficaz da subjetividade. 14. A hipótese de contínuo fornecimento psíquico de energia anti-entrópica à natureza se tornaria teoricamente problemática e metodologicamente refutável, porque a acumulação de incrementos, ainda que individualmente mínimos, deveria em algum momento tornar-se mensurável e experimentalmente verificável. * O reino da vida forneceria incessantemente energia ao mundo físico por meio da subjetividade. * A soma de incontáveis incrementos deveria produzir desvio observável no balanço natural. * A ausência dessa comprovação retiraria da hipótese sua aparente proteção contra interferência nas leis físicas. **5. A dupla natureza passiva-ativa do psíquico** 15. A dificuldade do fornecimento unilateral de energia é corrigida pela natureza simultaneamente passiva e ativa da subjetividade, que teria sido anteriormente produzida pela matéria e, ao atuar sobre ela, apenas restituiria o dispêndio físico originariamente recebido. * A hipótese não descreve o curso do devir como processo unilateral do espírito para a matéria. * A consciência depende previamente da matéria que a engendrou. * A energia devolvida pela ação psíquica pode ser compreendida como recuperação do investimento material inicial. 16. A relação da consciência com o mundo possui circulação dupla, pois a ação eferente fundamenta-se em informações recebidas por vias aferentes, e toda percepção sensível termina numa representação mental cuja produção também deve possuir custo causal. * Os nervos aferentes correspondem aos nervos eferentes e estabelecem um circuito entre mundo, organismo e consciência. * A ação no mundo depende de informações anteriormente recebidas dele. * O processo físico da afecção sensível culmina numa percepção mental radicalmente distinta do acontecimento corporal. * A produção dessa subjetividade perceptiva não pode ser causalmente gratuita. * Algum valor deve desaparecer do âmbito físico objetivo para reaparecer na forma psíquica. 17. Caso os seres fossem apenas contemplativos, o mundo físico sofreria perda constante de algo convertido em subjetividade; caso fossem apenas ativos e já possuíssem conhecimento apriorístico dos objetos, haveria incremento físico contínuo proveniente da ação, mas a inseparabilidade entre receptividade e atividade permite que perdas e ganhos se equilibrem reciprocamente. * A passividade perceptiva representa transferência do físico para o psíquico. * A atividade volitiva representa transferência do psíquico para o físico. * A subjetividade real reúne ambas as direções e não pode ser reduzida a apenas uma delas. * O equilíbrio entre entrada e saída supera as dificuldades opostas da perda e do incremento unilateral. 18. A solução do problema psicofísico encontra-se na estrutura ancestralmente reconhecida da subjetividade como receptividade e espontaneidade, sensibilidade e entendimento, sensação e volição, sofrimento e ação, pois o psiquismo é simultaneamente passivo e ativo. **6. O modelo especulativo** 19. A rede causal da natureza pode ser concebida como suficientemente rarefeita para permitir a passagem de pequenas magnitudes entre as dimensões física e psíquica, à maneira de uma parede porosa através da qual ocorre osmose bilateral com prioridade originária do fluxo proveniente da matéria. * A dimensão física apresenta uma margem porosa em certas organizações extremas, como o cérebro. * Além dessa margem abre-se uma dimensão distinta, sem que se estabeleça separação absoluta entre dois mundos. * A osmose ocorre nos dois sentidos, embora a matéria preceda ontologicamente a subjetividade. * Todo conhecimento e toda atividade natural começam pela experiência recebida do mundo físico. 20. As quantidades que atravessam a fronteira são tão pequenas que não aparecem mensuravelmente em casos particulares, enquanto o equilíbrio global entre entrada e saída preserva integralmente as leis de conservação. * A pequenez da transferência não impede grandes consequências por causa do princípio desencadeante. * A passagem através da parede representa transformação radical, na qual deixa de valer uma equivalência quantitativa direta entre o físico e o psíquico. * Pensamentos de enorme importância podem nascer de estímulos físicos mínimos, enquanto pensamentos fúteis podem provir de intensa exaltação corporal. 21. Entre o input físico e o output corporal ocorre processo mental de ordem irredutível à causalidade quantificável, determinado por sentido, inclinação, interesse e valor segundo as leis da intencionalidade, constituindo precisamente o domínio da liberdade. * A determinação psíquica não é ausência de motivos, mas determinação por significações. * A dimensão do movimento mental não depende da grandeza física dos estímulos recebidos ou dos efeitos produzidos. * O produto psíquico retroalimenta a esfera física mediante ações observáveis. * A natureza irreflexiva não constrói cidades, de modo que a organização intencional testemunha a intervenção da subjetividade. 22. A transferência osmótica mantém igual o balanço físico entre entrada e saída, permitindo que as ciências naturais expliquem integralmente o processo no nível desse equilíbrio, embora a compreensão do movimento psíquico permaneça situada momentaneamente fora do cálculo físico. * A causalidade natural permanece válida no âmbito quantitativamente acessível. * A transformação subjetiva encontra-se fora do balanço sem contradizê-lo. * O fenômeno psíquico escapa intencionalmente da causalidade física para retornar a ela mediante a ação. 23. A subjetividade, originada de quantidade mínima de energia, pode gerar novas pequenas quantidades que se encontravam abaixo da superfície física como uma corrente subterrânea, enquanto o intervalo entre recepção e ação constitui o reino próprio de sua liberdade. * A energia psíquica não surge de um nada verdadeiro, porque procede de algo anteriormente recebido da matéria. * O desaparecimento físico durante a transformação corresponde à emergência subjetiva. * O retorno à esfera corporal encerra o circuito entre passividade e atividade. 24. O cérebro é órgão da liberdade somente enquanto é órgão da subjetividade, pois um cérebro fisicamente idêntico ao humano, mas privado de consciência, não teria no mundo visível o mesmo desempenho criador e intencional. * A diferença entre a inteligência das máquinas e o espírito humano reside na presença operativa da subjetividade. * Descartes reconheceu essa diferença em seu experimento mental sobre a impossibilidade de uma máquina reproduzir plenamente o pensamento humano. * O erro cartesiano consistiu em tratar o espírito como acessório separado da máquina corporal. * A hipótese de um cérebro exclusivamente físico é ilegítima, salvo no caso do cadáver, porque a organização cerebral viva já envolve uma dimensão psíquica operante. 25. A liberdade não é ilimitada, mas possui campo de ação conquistado à necessidade física e circunscrito pelas possibilidades oferecidas em cada situação pela organização corporal. * A subjetividade participa da causalidade geral em posições decisivas. * Sua eficácia depende dos pontos de indeterminação fisicamente disponíveis. * A liberdade não cria arbitrariamente qualquer possibilidade, mas seleciona entre alternativas fornecidas pela estrutura orgânica. 26. A força física da consciência é extremamente pequena, embora não seja nula, e pode exercer máximo poder quando incide sobre uma organização cujo equilíbrio permite que uma influência mínima determine qual possibilidade será desencadeada. * A consciência atua como reforçador entre efeitos estimulativos fisicamente disponíveis e equivalentes. * O sentido próprio da organização corporal consiste em oferecer possibilidades à escolha subjetiva. * A menor força pode produzir o maior efeito quando basta para inclinar o equilíbrio instável. * O modelo não admite telecinesia nem macroefeitos espiritistas, pois a eficácia psíquica exige mediação pela organização orgânica adequada. 27. A dimensão situada além da fronteira física não constitui reino autônomo de espíritos, pois depende continuamente da alimentação proveniente da matéria e restitui a ela aquilo que foi transformado, pertencendo ambas ao mesmo e único ser sob formas substancialmente distintas. * A subjetividade não subsiste isoladamente da matéria que a sustenta. * A transformação produz diferença essencial entre os elementos físico e psíquico sem destruir sua unidade ontológica. * O aspecto físico predominante não esgota a totalidade do ser. * A presença irredutível do eu testemunha desde tempos imemoriais que a realidade possui dimensão subjetiva. **7. Avaliação do modelo** 28. O modelo evita a anomalia epifenomenalista de uma realidade que surge sem custo e permanece sem consequência, preserva a integridade das leis de conservação no domínio físico e abre espaço para o poder e a liberdade da subjetividade. * Todo o real permanece inserido num contexto operativo, sem gratuidade causal do devir nem nulidade causal daquilo que surgiu. * As leis físicas conservam sua validade sem exigir o sacrifício da consciência. * A causalidade psíquica é reconhecida sem destruir o interesse teórico que motivou o determinismo naturalista. * A liberdade é preservada como núcleo da subjetividade e condição do pensamento. 29. Apesar de seu caráter arbitrário e especulativo, o modelo respeita melhor a realidade física e psíquica do que o epifenomenalismo, pois se fundamenta na autoevidência absoluta da interioridade e concede à natureza e à consciência exatamente o estatuto que lhes corresponde. * A construção pode ser considerada ad hoc, mas o fato da interioridade possui dignidade teórica superior à de um ideal exagerado da natureza. * A natureza recebe todo o reconhecimento exigido pelas evidências científicas, mas não autoridade para negar a consciência. * A consciência recebe o reconhecimento mínimo exigido por sua evidência imediata, sem ser convertida em princípio absoluto de toda a realidade. **8. Pretensão exemplar, mas não de verdade do modelo** 30. O modelo não reivindica verdade, mas apenas exemplaridade lógica, pois pretende mostrar que os fenômenos podem ser preservados sem contradição e que é possível construir alternativas mais elegantes à doutrina epifenomenalista. * Uma solução correta provavelmente apresentaria forma diferente. * A hipótese situa-se no domínio do livre ensaio e da especulação. * Sua falta de refinamento não elimina sua clareza conceitual nem sua capacidade de fazer justiça tanto à natureza quanto à subjetividade. * O princípio da bilateralidade passivo-ativa e o princípio desencadeante permanecem relevantes para qualquer tentativa posterior de solução. * A metáfora da parede porosa é provisória e deverá ser substituída por sistema categorial ontológico ainda inexistente. * Toda investigação que atravessa a fronteira entre natureza e espírito possui inevitavelmente caráter metafísico e não pode apresentar-se como hipótese científica verificável. 31. A impossibilidade de comprovação ou refutação empírica não favorece o epifenomenalismo, pois ambas as hipóteses são especulativas, embora o modelo bilateral possua a vantagem de não destruir os fenômenos que pretende explicar. 32. A solução proposta constitui obra excedente cujo êxito não condiciona a recuperação da verdade axiomática do poder da subjetividade, pois a indivisibilidade entre autodeterminação interna e externa permite reconhecer a causalidade da consciência independentemente de se conhecer o modo de seu exercício. * A demonstração central procede da inalienabilidade da liberdade interna do pensamento. * Toda teoria que reconhece a efetividade do pensamento deve reconhecer também sua eficácia externa. * A refutação da tese adversária reabre o caminho para a verdade imediata da consciência. * A integração dessa verdade no conhecimento da natureza permanece tentativa, não conquista definitiva. 33. O desconhecimento do modo concreto da interação pode permanecer como ignorabimus, desde que seja eliminada a suposta incompatibilidade entre consciência e natureza e preservada a possibilidade real da causalidade psíquica. * A ignorância acerca do mecanismo não autoriza a negação do fato. * O enigma pode ser tolerado quando não se transforma em argumento contra a subjetividade. * A natureza deve acomodar a realidade da consciência, e não excluí-la por exigência dogmática. 34. O poder da subjetividade confirma-se no próprio ato de pensar, porque a reflexão sobre si mesma já manifesta autodeterminação, embora tenha sido necessário percorrer longamente a teoria adversária para desfazer a inversão que concedia valor apenas ao conhecimento mediato e recusava autoridade à experiência imediata. 35. A extensa refutação do materialismo do espírito tornou-se necessária diante da persistência desse ídolo mesmo entre pesquisadores reflexivos, embora o ponto de partida imediato nunca tenha sido realmente problemático e a questão decisiva deva agora deslocar-se para o uso moral da liberdade recuperada. {{tag>Jonas psique organismo fisiologia}}