====== História do Ser ====== //HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.// * Apesar da aparente proximidade entre as histórias do Ser e do Espírito, a comparação entre Heidegger e Hegel é complexa, pois, embora ambos pensem um destino que não é decidido pelo homem, a História do Ser é governada por uma descontinuidade e por um errância cuja origem é impenetrável à razão, diferindo do desenvolvimento lógico de uma Ideia racional. * Heidegger elogia Hegel como o único pensador ocidental que teve uma experiência pensante da história do pensamento, reconhecendo seu mérito ao fazer da história do pensamento uma totalidade orgânica e ao identificar a História com a "sublação" do Passado. * O que Heidegger admira em Hegel é a descoberta da convertibilidade entre Ser e História como o "ter-sido essencial", como o recolhimento de um passado que continua a durar, ecoando o princípio hegeliano de que a essência é o que foi. * A distinção heideggeriana entre o histórico e o historiográfico parece perpetuar a diferença metafísica entre o transcendental-necessário e o empírico-contingente, e a ênfase na tarefa de lembrar revela uma perpetuação não apenas do hegelianismo, mas também do platonismo. * A série das épocas do Ser obedece a uma necessidade inflexível e coerente que é "como uma lei e uma lógica", e a ideia de uma "escatalogia" final, de um recolhimento final de todo o processo histórico, é o que mais aproxima os dois pensadores. * O ponto de maior proximidade, a escatologia, é também o de maior afastamento, pois a totalidade heideggeriana repousa sobre o abismo do infundado, e a aurora grega não é o único começo possível, havendo a possibilidade de um novo começo totalmente diferente e inaudito. * Para Heidegger, a verdadeira história não é o efêmero e o anedótico, mas o que foi e perdura até o presente e abriga o futuro, sendo o "ter-sido essencial" o que transcende a dimensão do puro passado e é capaz de um futuro, ao contrário do passado que simplesmente se esvai. * O "ter-sido essencial" não é o produto ou resultado da história, mas uma interioridade absolutamente inaugural, e o que controla toda a história é a exigência do inaugural, que exerce uma influência semelhante a um destino sobre toda a tradição, sendo a primeira apreensão do ser. * A definição da história como destino é o reconhecimento da onipotência desse passado inaugural, pois a história não é apenas o que já está aí, mas o que já está cumprido no destino do Começo, e nada acontece que já não tenha sido originalmente recolhido na essência do Ser. * O começo inaugural não se desenvolve como um ponto de partida que desaparece no que produz, mas permanece inalterado em todas as sequências que dele provêm, e o passado essencial governa o futuro como um destino imutável, razão pela qual o pensamento é definido como "pensamento recolhedor" ou rememoração. * A essência do pensamento é retrospectiva, e o pensamento recolhedor obtém sua luz desse passado inaugural e essencial, sendo a memória o recolhimento do pensamento recolhedor em torno do que se oferece para ser pensado. * A rememoração da História do ser não é o resultado dos esforços humanos, mas é realizada pelo próprio ser, que concede ao homem o papel de testemunha convocada, e a única liberdade que resta ao homem seria a recusa a testemunhar. * A História do Ser possui uma coerência sistemática em seu desenvolvimento, possuindo unidade, totalidade, necessidade e uma forte estrutura teleológica, pois o seu progresso é governado pelo telos que é a consumação da Metafísica. * O "motor" da História não é a totalização final, mas o crescente esquecimento do começo, da essência inaugural da verdade como aletheia, e a História não é o progresso da consciência em direção à autotransparência, mas a perda gradual do sentido da presença como clareira e retraimento. * Embora a História do Ser seja dividida em épocas, não há comparação possível entre o sentido hegeliano de época como um momento num processo evolutivo e o sentido heideggeriano de época como um retraimento do Ser, pois não há uma racionalidade global regendo a sucessão das épocas. * A sucessão das épocas é uma "sucessão livre" em relação a uma necessidade dialética, mas não em relação ao destino do esquecimento do Ser, e a regra que preside a sucessão e a ligação das mutações da essência da verdade é o retraimento da aletheia que libera as figuras subsequentes do Ser. * O começo inaugural não é o momento mais abstrato e pobre, mas o relativamente mais pleno e rico, embora a ideia de que o começo poderia ter sido uma plenitude absoluta pareça contrária a todo o pensamento de Heidegger. * A "lógica" da História do Ser se orienta segundo uma dupla série de relações: as relações com o começo, segundo um esquecimento crescente, e as relações com o fim, nas quais a noção de preparação unifica o desenvolvimento histórico e explica a passagem de uma época a outra. * As relações com o começo se desdobram em dois planos paralelos: o plano mais geral das épocas e o plano mais específico das mutações da essência da verdade, e a lógica do obscurecimento do entendimento inaugural grego é paralela a uma lógica cumulativa das proposições metafísicas. * A lógica cumulativa das proposições metafísicas, na qual as etapas passadas são preservadas na profundidade do presente, aproxima Heidegger de Hegel, mesmo que ele se distinga ao afirmar que a consumação não é de modo algum um aperfeiçoamento ou um acabamento. * As mutações da essência da verdade permanecem inacessíveis à metafísica, assim como sua própria essência, que igualmente possui um poder de necessidade, lhe permanece estrangeira. * A ideia de um fim da História, presente na escatologia do Ser, é hegeliana, e a Fenomenologia do Espírito constitui uma "fase" da escatologia do Ser, na qual a História do Ser é a verdadeira história do mundo. * A escatologia significa que a História do Ser termina na época da Técnica, que retoma e totaliza a totalidade do que essencialmente foi, e essa época tem uma face dupla, prolongando o projeto hegeliano de totalização e, ao mesmo tempo, significando a despedida do Ser. * Heidegger abandona o modelo hegeliano ao dizer que a História do Ser chegou ao fim e que é necessário "deixar a metafísica a si mesma", e o Despertar para o Ereignis não é um novo nome para o Ser, mas um evento no qual o esquecimento do Ser "se supera". * Apesar da afirmação de que o esquecimento do Ser se supera, Heidegger também descreve o Ser como o objetivo único ainda não alcançado pelo pensamento essencial, o que contradiz a ideia de que a questão do Ser seria ela mesma descartada. * A escatologia faz aparecer a possibilidade indeterminada de um "outro começo", que se situa a uma distância infinita de nossa época, mas esta possibilidade pode ser uma possibilidade vazia, uma pura ficção ou um não-sentido. * A verdadeira dificuldade que pesa sobre o pensamento do "outro começo" é o que Heidegger chama de "perigo" e, apesar das incertezas, a escatologia mantém a possibilidade de uma História totalmente outra, ainda que esta permaneça indeterminada e distante. {{tag>Haar physis terra}}