====== Kierkegaard, Søren (1813-1855) ====== LDMH * Reconhecimento da influência de Kierkegaard por Heidegger. * No prefácio do Curso do semestre de verão de 1923, //Ontologia (Hermenêutica da Facticidade)//, Heidegger nomeia suas referências na gênese de //Ser e Tempo//. * Afirma: //Companheiro em minha busca [Begleiter im Suchen] me foi o jovem Lutero, e modelo: Aristóteles, que Lutero detestava. Impulsos recebidos: de Kierkegaard; e os olhos, foi Husserl quem me os enxertou//. * Kierkegaard figura nominalmente como o pensador religioso que deu //impulsos (Stöße)//, certamente decisivos, à empresa da //Analítica existencial// de //Ser e Tempo//. * Esta influência é confirmada no Curso de 1941 sobre //A Metafísica do Idealismo Alemão (Schelling)//, que dedica um capítulo ao //conceito kierkegaardiano de existência// e sua relação com o //existencialismo// e a //problemática de Ser e Tempo//. * Referências e reservas explícitas em //Ser e Tempo//. * Kierkegaard (assim como Pascal) é mencionado, mas também objeto de reservas explícitas. * O aporte existencial de suas análises da condição temporal, da finitude e do caráter //movimentado// da existência humana é reconhecido. * As reservas incidem sobre a falta de uma //problemática existencial [existenziale]// em Kierkegaard. * Três notas de rodapé evocam Kierkegaard: * A primeira trata da //angústia (Angst)// e remete a //O Conceito de Angústia// (1844). * A segunda trata da problemática existencial, remetendo aos //Discursos Edificantes// e ao //Conceito de Angústia//. * A terceira trata do conceito de //instante (Augenblick)// e da concepção de //temporalidade [Zeitlichkeit]// que esse conceito //pressupõe//. * É plausível que os //impulsos// kierkegaardianos também concernam a análise do //cuidado [Sorge]//, do //ser-culpável [Schuldigsein]// e do //ser-para-a-morte [Sein-zum-Tode]//, que implicam a leitura de //A Doença para a Morte// (1849). * Análise da angústia e do papel precursor de Kierkegaard. * Na longa nota ao §40 de //Ser e Tempo//, Heidegger destaca a importância dada ao //problema antropológico do ser do ser humano// sobre os fenômenos da angústia e do medo (cuidadosamente distinguidos), bem como da fé, do pecado, do amor e do remorso, //ontologicamente no círculo de visão da teologia cristã//. * Cita Santo Agostinho, Lutero e Kierkegaard, ressaltando que foi este último //que avançou mais longe na análise do fenômeno da angústia, e isso novamente no contexto teológico de uma exposição 'psicológica' do problema do pecado original//, referindo-se a //O Conceito de Angústia//. * Crítica à falta de problemática existencial e submissão a Hegel. * A nota ao §45 de //Ser e Tempo// articula o reconhecimento do papel pioneiro de Kierkegaard na //apreensão existencial do problema da existência// com uma dupla reserva que Heidegger manterá posteriormente. * Heidegger afirma: //No século XIX, S. Kierkegaard se apoderou expressamente do problema da existência como problema existencial [existenziell] e o pensou com penetração. Mas a problemática existencial [existenziale] lhe é tão estranha que ele continua a se manter, em relação à ontologia, sob o império de Hegel e das visões de Hegel sobre a filosofia antiga. Nele, filosoficamente há mais a aprender de seus escritos 'edificantes' do que de seus escritos teóricos – com exceção do tratado sobre o conceito de angústia//. * Esta dupla reserva (ausência de acesso à problemática //existencial// e submissão à tradição metafísica hegeliana) parece limitar o aporte de Kierkegaard a uma apreensão puramente //existencial [existenziell]// da finitude da existência. * Crítica à compreensão do //instante// e da //temporalidade//. * A nota ao §68 de //Ser e Tempo// (sobre //a temporalidade da abertura do ser-o-aí//) repete o reconhecimento com nuances: //S. Kierkegaard viu sim, e da maneira mais penetrante, o fenômeno existencial do instante [Augenblick]; o que não quer dizer, porém, que também tenha chegado à interpretação existencial [existenziale] que lhe corresponde. Ele permanece no conceito ordinário de tempo e determina o instante com a ajuda do agora e da eternidade. Quando fala de 'temporalidade' [Zeitlichkeit], pensa no 'estar-no-tempo' do homem. O tempo como intra-temporalidade [als Innerzeitigkeit] só conhece o agora, e nunca o instante [Augenblick]. Se este vem a ser experimentado existencialmente [existenziell], então uma temporalidade mais originária é pressuposta, mas existencialmente [existenziale] não explicitada.// * Se Kierkegaard suspeitou algo dessa //temporalidade mais originária//, foi à mercê de um //estreitamento do conceito de existência pela cristandade//, portanto como //escritor religioso// mais do que como //pensador// original. * Estatuto de //escritor religioso// versus //pensador//. * Heidegger reconhece o impacto de Kierkegaard no //existencialismo// moderno, atribuído a //uma certa forma de renovação de pensamentos kierkegaardianos//. * Porém, este estatuto híbrido de //escritor religioso// não basta para fazer Kierkegaard escapar nem ao império metafísico de Hegel e do idealismo alemão, nem ao império //onto-teológico// da //teologia cristã//. * Heidegger chega a apresentar //Marx e Kierkegaard// como //os maiores dos hegelianos//, ainda que //contra sua vontade//. * No entanto, reconhece a Nietzsche o estatuto de //pensador//, à altura de Aristóteles, estatuto que não pode reconhecer a Kierkegaard. * O comum aproximação entre Nietzsche e Kierkegaard lhe parece desconhecer //uma desconhecimento do aître mesmo do pensar//: Nietzsche é um //pensador metafísico// que se move //na proximidade de Aristóteles//, enquanto Kierkegaard lhe permanece //essencialmente afastado//. * Heidegger conclui: //Kierkegaard não é um pensador, mas um escritor religioso; não, porém, um escritor religioso entre outros, mas o único que está à medida do destino de sua época. Nisso reside sua grandeza.// * Julgamento final sobre a relação com a questão do Ser. * Se Kierkegaard, pela mediação da própria //metafísica de Hegel// (que combate), permanece filosoficamente preso a uma tradição aristotélica dogmática e à subjetividade do idealismo alemão, é preciso fazer-lhe justiça: não se pode //querer negar, de maneira unilateral, os impulsos que partiram de Kierkegaard em relação ao renovo da consideração concedida ao 'existencial'//. * Mas é importante não perder de vista que //Kierkegaard não sustenta a mínima relação com a questão decisiva que indaga do aître do Ser//.