====== Destruição / Des-estruturação ====== LDMH * Definição da dupla tarefa na elaboração da questão do Ser em //Ser e Tempo//. * Primeira tarefa: //A analítica ontológica do ser-o-aí// (//être-le-là//), concebida como um //desobstrução do horizonte// para uma interpretação do sentido do Ser puro e simples. * Segunda tarefa (não menos importante): //A tarefa de uma destruição da história da ontologia//. * Sentido e escopo da //destruição da história da ontologia//. * Definida no §6 de //Ser e Tempo// como: //a destruição, que se cumpre no fio condutor da questão do Ser, daquilo que, da ontologia antiga, nos é entregue como constituindo o fundo, a fim de remontar até às experiências originais nas quais foram conquistadas as primeiras determinações, e desde então as determinações diretrizes, do Ser//. * Não tem nada a ver com a //devaste// de uma tradição venerável. * Consiste numa atividade de //des-estruturação// das //estruturas sedimentadas// depositadas ao longo da longa tradição da história da metafísica ocidental. * Esta atividade envolve uma certa violência hermenêutica. * Advertências contra interpretações negativas e o sentido positivo da destruição. * Heidegger adverte constantemente contra uma interpretação puramente negativa, //devastadora// ou //niilista// da des-estruturação. * No §6 de //Ser e Tempo//, após definir a tarefa, esclarece: * A investigação da proveniência dos conceitos filosóficos fundamentais não é uma //relativização mesquinha// de pontos de vista ontológicos. * A destruição também não tem o sentido negativo de um //desmantelamento por dislocação// da tradição ontológica. * Deve, ao contrário, //efetuar o repérage em suas possibilidades positivas//, ou seja, dentro de seus limites, que lhe são factualmente dados pelo questionamento que é em cada caso o seu e a partir do qual lhe é também prescrita a delimitação de seu campo possível de investigação. * A destruição não se relaciona de forma negativa com o passado: sua crítica visa o //hoje// e o modo dominante de tratar a história da ontologia, seja de forma doxográfica, por meio da história das ideias ou da história dos problemas. * A destruição não quer //engloutir o passado na nulidade//. Sua intenção é positiva; sua função negativa permanece implícita e indireta. * A obra própria da des-estruturação: //delitar// e //des-edificar//. * Consiste em //delitar// e //des-edificar// (//abbauen//) as camadas de sedimentos superpostos que gradualmente recobriram (soterrando até o esquecimento) toda possibilidade de acesso às //experiências originais// do sentido do Ser, conquistadas outrora com grande esforço na origem da própria tradição metafísica. * Exemplo na Conferência de Cerisy (1955) sobre //O que é isso – a filosofia?//: * O caminho para a resposta não é ruptura com a história, nem sua negação, mas sim uma //apropriação// e //metamorfose// do que é entregue pela tradição. * É essa apropriação que se visa no título //Destruktion//. * O sentido da palavra é claramente circunscrito em //Ser e Tempo// (§6). * //Destruktion// não significa //devaste// (//Zerstören//), mas //des-edificar// (//Abbauen//), //arrazar// (//Abtragen//) e //depor de lado// (//Auf-die-Seite-stellen//) – neste caso: os enunciados puramente historicistas sobre a história da filosofia. * //Destruktion// significa: //abrir o ouvido, torná-lo livre para aquilo que, no que a tradição nos entrega, se pronuncia a nós como ser do ente//. É escutando tal chamado que chegamos a lhe responder. * Precisões sobre o alvo e a tendência positiva da destruição. * É importante precisar sobre o que deve e não deve incidir o momento propriamente destrutivo da //Destruktion//. * Deve-se lembrar frequentemente a que tende a //tendência positiva da destruição//: inteiramente ligada a uma //apropriação produtiva// do sentido do Ser. * A função da //destruição da tradição// não deve ser entendida como //devaste//, mas como //Wiederholung// (repetição), no sentido preciso que a questão do Ser dá a esta palavra: uma //franca re-petição da questão do Ser//. * Não consiste em //destruir// com a tradição esclerótica o que constitui seu fundo, recurso e legado antigo, mas em dar hoje a esse //fundo inicial// a possibilidade de uma //metamorfose// libertadora. * A //ontologia fundamental// é apenas uma //repetição// que se nutre dessa antiguidade, dessa primazia. Mas esta só se transmite a nós nessa mesma repetição se lhe dermos a possibilidade de sua metamorfose. * A tradição, como repercussão mais exteriorizada, impede justamente que o problema, na repetição, realize sua metamorfose. Ela repercute proposições e opiniões rígidas, modos rígidos de questionar e de reconhecer os lugares. * Esta tradição exterior de opiniões e pontos de vista que se dá livre curso é chamada hoje de //história dos problemas// (//Problemgeschichte//). * A luta é contra os //maus administradores// da tradição, não contra a Antiguidade em si. * O objetivo é proporcionar a esses //problemas-de-fundo//, à //metaphysica naturalis// que tem seu jazigo no próprio //ser-o-aí//, uma ocasião de metamorfose. Isso é o que Heidegger entende por //destruição da tradição//. Não se trata de //fazer tabula rasa dos dois últimos milênios para se instalar em seu lugar//. * Retornos e esclarecimentos posteriores sobre a //Destruktion//. * Ao longo de seu caminho de pensamento, Heidegger retornou frequentemente a este grande mal-entendido. * Exemplo no protocolo do Seminário do Thor (4 de setembro de 1969): * Heidegger começa dando o nome próprio do método seguido: é a //destruição// – que deve ser entendida estritamente como //de-struere//, //ab-bauen//, //des-fazer//, e não //devaste//. * Pergunta: O que é desfeito? Resposta: //aquilo que recobre o sentido do Ser, as estruturas acumuladas umas sobre as outras e que mascaram o sentido do Ser//. * A //Destruktion// visa então //a descoberta do sentido inicial do Ser//. Este sentido inicial é a //Anwesenheit// – a //chegada-à-presença//. * Estrutura característica e etimologia da des-estruturação. * O momento destrutivo é estritamente marcado em sua proveniência etimológica: do latim //de-struere//. * Enfatiza a operação delicada de relevar e clivar as camadas e estratos superpostos, cujo depósito constitui propriamente a //structura//, o aparelho da muralha romana. * Retomado sob a forma do alemão //ab-bauen//, usado frequentemente por Heidegger. * Evoca a atividade cuidadosa de //des-edificar// – e sobretudo não devastar – o que foi edificado. * Aplica-se tanto ao //edifício construído// (de mãos humanas), que o trabalho paciente do arqueólogo põe a descoberto, quanto ao país e à paisagem //edificados// pelo trabalho dos camponeses ao longo dos tempos (através da atividade do //Ackerbau// – cultivo do campo), e que o lento trabalho da erosão faz surgir lentamente no desenho complexo e imemorial de seus estratos.