====== Propriação / Apropriação (Das Ereignis) ====== LDMH * Tradução francesa do termo //Ereignis//, na acepção singular do pensamento de Heidegger, é problemática e infeliz em suas diversas tentativas. * Opção de deixar o termo intraduzido, como um nome próprio na solidão de sua singularidade, é talvez o menor dos males. * Todas as escolhas de tradução sugeridas geram sensação de infelicidade: //événement// (evento), //avènement// (advento), //amêmement à soi// (acolhimento a si), //avenance// (aveniência), //appropriement// (apropriação), //propriation// (propriação). * A dificuldade reside menos na sagacidade dos tradutores do que nas próprias limitações da língua francesa em captar a essência (//aître//) do conceito. * Justificativa para opções lexicais que recorrem ao campo semântico do //próprio//, da //propriedade// e do //apropriamento// apoia-se numa aparente etimologia. * Justificativa aparente vê no termo //Er-eignis// o radical //eigen// (próprio) e o verbo //eignen// (apropriar). * Heidegger recorre a esta família de verbos: //eignen//, //vereignen//, //übereignen//, flexionando a atividade que emana do //Ereignis//. * Etimologia verdadeira do antigo termo alemão //Ereignis// é distinta e remete a //Eräugnis//. * Em //Er-äugnis//, o verbo em operação é //äugen//, não //eignen//. * Verbo //äugen// diz a atividade do olho (alemão //Auge//, grego //auge//): olhar, ver, mostrar, dar a ver, revelar. * Na forma reflexiva //sich eräugen//: mostrar-se, dar-se a ver, e consequentemente, produzir-se, acontecer. * Daí o sentido habitual de //Ereignis//: o evento, o acontecimento. * Tradução pioneira de François Fédier em //Acheminement vers la parole// (1976) expõe a dificuldade e as condições para o recurso ao léxico do //próprio//. * Recorrer à semântica do //próprio// e do //apropriamento// é possível apenas sob a condição de não ignorar a reserva de sentido da etimologia verdadeira. * Nota longa do tradutor na primeira ocorrência do verbo //ereignen// na página 28 é elucidativa a esse respeito. * Contexto dessa decisão refere-se ao modo como a //Diferença (Unter-schied)// //apropria (ereignet)// as coisas à gestação do mundo e o mundo a si mesmo. * Em muitos contextos de uso transitivo dos verbos do //Ereignis//, a acepção de //apropriar// (ou do antigo verbo francês //proprier//) pode ser acolhida por um ouvido atento. * Dificuldades específicas surgem na tradução do substantivo //Ereignis// por //apropriamento// ou //propriação//. * Dificuldade é ainda maior para traduzir o verbo //ereignen// usado absolutamente, como na fórmula //das Ereignis ereignet//. * François Fédier elucida esses desafios em nota preciosa à tradução da conferência //Tempo e Ser// (1962). * O registro do //apropriamento// permanece excessivamente implicado nas noções de //propriedade// e //apropriação//, com conotações possessivas e privativas. * Isso pode impedir que seja ouvido, em francês, no sentido do que está em jogo no //Ereignis//. * O aspecto possessivo pode prevalecer invencivelmente sobre a aspectualidade verbal do próprio //Evento//. * Evento é singularmente //único// e imemorial, abrindo a dimensão de //aventura// da //dispensação do Ser// e da história do Ser (//Seyn//). * Busca por outras recursos semânticos é questionada, como //amêmement à soi// ou //avenance//. * Essas nuances propostas recentemente por F. Fédier poderiam dar a ouvir harmonias do //Evento//, incluindo tonalidades mais sombrias. * Questão permanece aberta sobre sua eficácia. * Capacidade do termo //apropriamento// de cumprir as promessas do //Ereignis// é posta em dúvida. * Heidegger, em nota de 1959, recorda que usa a palavra //Ereignis// há mais de vinte e cinco anos nos manuscritos (os //Traités impubliés//) para designar o que deve ser pensado. * O que está em jogo, embora simples em si, permanece inicialmente difícil de pensar porque o pensamento deve primeiro perder o hábito de opinar que o //ser// é aqui pensado como //apropriamento//. * Heidegger afirma: //O apropriamento é, quanto ao seu desdobramento, outro – porque mais rico – que toda possível determinação metafísica do ser. Em contrapartida, o ser, com respeito à proveniência de seu desdobramento, se deixa pensar a partir do apropriamento.// * Questão final e decisiva: na tradução francesa, é realmente adquirido que o que está em jogo no //Ereignis// se deixe pensar genuinamente a partir do //apropriamento//? * A tradução e a recepção do conceito permanecem um problema em aberto, um desafio hermenêutico contínuo.