====== VIRAGEM FENOMENOLÓGICA DA HERMENÊUTICA NO SÉCULO XX (2003) ====== //GRONDIN, Jean. Le tournant herméneutique de la phénoménologie. Paris: PUF, 2003.// * A hermenêutica geral no século XX consolidou-se não como teoria normativa universal, mas como reflexão filosófica sobre o fenômeno da compreensão, apresentada por seus principais expoentes como uma inflexão necessária da fenomenologia [1]. * Distinção entre teoria normativa e reflexão filosófica. * Papel de Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer e Paul Ricœur. * Caráter interpretativo da experiência do mundo. * A relação entre hermenêutica e fenomenologia caracteriza-se por uma tensão histórica onde, apesar da hostilidade inicial de Edmund Husserl ao historicismo, a própria análise da intencionalidade acaba sendo descrita por ele como uma hermenêutica da vida da consciência [2]. * Tensão latente descrita por Paul Ricœur como subversão. * Conferência de 1931 sobre Fenomenologia e Antropologia. * Equivalência entre hermenêutica e elucidação da intencionalidade ou Deutung. * Corolação entre intenção e dado. * A metodologia fenomenológica em Ser e Tempo exige a complementação hermenêutica para superar a trivialidade da descrição superficial e realizar a destruição crítica das conceptualidades que encobrem o ser e a essência do Dasein [3]. * Caráter ingênuo e trivial do retorno às coisas mesmas sem crítica. * Necessidade de desobstrução do essencial encoberto. * Lógica do evitamento da questão do tempo. * Indissociabilidade entre os olhares fenomenológico e hermenêutico. * A indissociabilidade entre os campos revela que o ser não pode ser dito sem a mediação hermenêutica da linguagem, mantendo-se a pesquisa heideggeriana tardia como uma explicação com a história da metafísica em busca de uma nova fenomenologia do ser [4]. * Necessidade de apontar o fenômeno dos fenômenos. * Caráter poético do pensamento sobre a linguagem. * Título A caminho da linguagem como resumo da condição humana. * A obra de Paul Ricœur e Hans-Georg Gadamer inscreve-se no contexto da virada hermenêutica da fenomenologia, partindo do pressuposto comum da interdependência impraticável entre as duas disciplinas, ainda que descrita de modos distintos [5]. * Irrelevância da classificação estrita em uma tradição. * Reconhecimento mútuo da necessidade de integração. * A abordagem de Paul Ricœur postula a impossibilidade da descrição direta dos fenômenos sem o recurso ao desvio hermenêutico, concepção desenvolvida de forma autônoma e prévia ao diálogo com as obras de Hans-Georg Gadamer ou Martin Heidegger [6]. * Independência da gênese do pensamento ricœuriano. * Ausência de referências iniciais a Verdade e Método. * Primazia do conceito de desvio pelas interpretações. * A entrada de Paul Ricœur na hermenêutica decorre da investigação sobre a simbólica do mal, onde a perversão da vontade se mostra refratária à tematização direta e exige a mediação interpretativa dos símbolos [7]. * Origem da reflexão na década de 1950. * Impossibilidade de acesso imediato ao problema do mal. * Necessidade de hermenêutica dos símbolos. * O desenvolvimento da hermenêutica dos símbolos propiciou o diálogo com a exegese bíblica e manteve a filiação ao paradigma diltheyano da interpretação das objetivações, ainda que ampliando seu alcance semântico [8]. * Interlocução com Gerhard von Rad e Rudolf Bultmann. * Herança epistemológica de Wilhelm Dilthey. * Paradigma da hermenêutica das objetivações. * A aplicação da hermenêutica diltheyana ao universo simbólico preserva a intenção epistemológica original de tornar inteligível a lógica das objetivações e estabelecer as condições de validade da compreensão nas ciências humanas [9]. * Foco na teoria do compreender. * Validação das manifestações fixadas da vida. * Lógica da objetivação. * A extensão do arco hermenêutico abrange desde a psicanálise e a teoria do texto até a compreensão de si, mantendo sempre o foco na reflexão sobre os sentidos depositados em formas objetivas que demandam a integração de abordagens explicativas [10]. * Inclusão de metáfora, narrativismo e história. * Retorno ao projeto de hermenêutica da existência. * Necessidade de confronto com o estruturalismo e a economia freudiana. * A compreensão do sentido impõe, na perspectiva ricœuriana, a obrigatoriedade do trânsito indireto através da ordem das objetivações [11]. * Caráter incontornável do desvio metodológico. * A crítica de Hans-Georg Gadamer ao privilégio da objetivação identifica nela um resíduo cartesiano e contrapoe-lhe a facticidade da compreensão baseada no modelo da experiência da arte, onde a verdade reside no ser capturado pelo sentido e não no distanciamento metódico [12]. * Influência de Martin Heidegger na desconfiança metodológica. * Primazia do ser-jogado ou ser-preso pelo sentido. * Caráter tardio e secundário da análise objetivante. * Fusão entre quem compreende e o compreendido. * A divergência fundamental entre os autores reside na filiação de Paul Ricœur ao paradigma metodológico das objetivações em contraste com a ênfase gadameriana na ontologia do Dasein como o local de advento do sentido, dificultando o diálogo efetivo entre as duas vertentes [13]. * Percepção de Paul Ricœur como continuador de Wilhelm Dilthey. * Oposição entre método epistemológico e acontecimento ontológico. * Diferença nos pontos de partida filosóficos. * A articulação entre as disciplinas difere na medida em que Paul Ricœur propõe o enxerto da hermenêutica na fenomenologia via objetivações, enquanto Hans-Georg Gadamer opera uma virada fenomenológica da própria hermenêutica para superar o viés epistemológico tradicional [14]. * Distinção entre o desvio pelas obras e o retorno à experiência originária. * Foco de Verdade e Método na história da hermenêutica. * Identificação da hermenêutica diltheyana como epistemológica. * A obsessão diltheyana com a fundamentação científica das humanidades é contestada por impor um ideal de objetividade exógeno que deforma a natureza específica da verdade na compreensão, submetendo-a a critérios de distanciamento e controle alheios à sua essência [15]. * Combate ao arbítrio subjetivo como motivação de Wilhelm Dilthey. * Inadequação do modelo das ciências exatas. * Distorção da verdade pela distância objetivante. * A verdade hermenêutica manifesta-se na arte, na práxis e na linguagem cotidiana como resposta a um apelo que nos interpela, estrutura que não se confunde com o subjetivismo arbitrário nem depende do distanciamento objetivante [16]. * Exemplo da evidência na arte e na moral. * Compreensão como ser-preso pelo sentido. * Resposta a um apelo ou interpelação. * O recurso às ciências objetivantes possui utilidade reconstrutiva, porém secundária, uma vez que a compreensão genuína ocorre em um nível anterior que implica necessariamente a aplicação do sentido à consciência do intérprete [17]. * Posterioridade lógica da análise estrutural. * Condição de possibilidade da verdade na interpelação pessoal. * Elemento inerradicável da aplicação. * O imperativo de superar o paradigma epistemológico visa resgatar o tema da verdade para a hermenêutica, deslocando o foco dos critérios de validação objetiva para o acontecimento do desvelamento de sentido característico da investigação fenomenológica [18]. * Risco de mascaramento da experiência de compreensão pela epistemologia. * Título programático em Verdade e Método sobre a pesquisa fenomenológica. * Reconquista do tema da verdade. * O retorno à fenomenalidade implica situar a compreensão como forma de realização originária da vida e da autocompreensão, anterior à codificação científica, permitindo definir o rigor e o método das ciências humanas a partir de sua própria práxis efetiva [19]. * Recusa dos ídolos da epistemologia. * Compreensão como tradução de sentido para o sujeito. * Legitimação da verdade interna das humanidades. * Fenomenologia das ciências humanas. * A paternidade teórica da virada fenomenológica remonta à redefinição husserliana da consciência como intencionalidade aberta ao mundo da vida, onde a historicidade e o contexto de sentido atuam como condições de possibilidade e não obstáculos [20]. * Contribuição de Edmund Husserl e Martin Heidegger. * Superação da subjetividade isolada. * Inserção da consciência na trama da vida e do sentido. * A radicalização do projeto exige o abandono da pretensão husserliana ao saber apodítico, cujas raízes ontológicas não elucidadas prendem a fenomenologia a modelos epistemológicos incompatíveis com a facticidade da linguagem e da vida [21]. * Limitação da fenomenologia de Edmund Husserl. * Crítica heideggeriana aos esquemas de pensamento cientificistas. * Necessidade de fundamentos ontológicos elaborados a partir dos fenômenos. * A concepção heideggeriana desloca a compreensão da esfera do conhecimento teórico para a de uma competência existencial de orientação no mundo, onde a busca por sentido emerge fundamentalmente da experiência de estranhamento e não-familiaridade [22]. * Saber como poder-ser ou capacidade. * Prioridade do não-senso na motivação do compreender. * Pressuposto da ausência de familiaridade. * O caráter projetivo da compreensão envolve o sujeito em um investimento de si que pode ser explicitado pela interpretação, oscilando entre as antecipações inautênticas do senso comum e a possibilidade de uma apropriação autêntica que serve de horizonte necessário à consciência da própria inautenticidade [23]. * Definição de Auslegung como explicitação do compreender. * Papel dos rumores e do on nas antecipações inautênticas. * Função da má consciência e da dívida ou Schuldigsein. * Autenticidade como utopia pressuposta. * A hermenêutica da existência define-se como o esforço fenomenológico de apropriação das possibilidades de compreensão pelo Dasein, que, ao compreender o ser, torna-se capaz de voltar-se reflexivamente sobre seu próprio ato de compreender [24]. * Natureza estritamente fenomenológica da descrição existencial. * Circularidade da compreensão do ser. * Lembrança da compreensão a si mesma. * O posicionamento de Hans-Georg Gadamer e Paul Ricœur caracteriza-se por um certo recuo diante da radicalidade da hermenêutica da existência, deslocando o foco da apropriação das antecipações ontológicas para a realização concreta da compreensão nas obras e na história [25]. * Diferença de escopo em relação a Martin Heidegger. * Foco heideggeriano na desconstrução da metafísica da presença. * Interesse na realização ou Vollzug da compreensão. * A prática fenomenológica em seus desdobramentos hermenêuticos deve ser compreendida fundamentalmente como uma virtude do olhar capaz de fazer ver os fenômenos por si mesmo, e não como um conjunto rígido de regras metodológicas ou domínio de objetos [26]. * Autonomia da visão fenomenológica. * Recusa da definição restritiva de método. * Capacidade de ver por si mesmo. * A complementariedade das trajetórias revela que Hans-Georg Gadamer submete a hermenêutica a um banho de fenomenologia para expurgar o psicologismo e o metodologismo, enquanto Paul Ricœur imerge a fenomenologia na hermenêutica para curá-la da ilusão da visão direta e da fundação última [27]. * Hermenêutica filosófica versus Fenomenologia hermenêutica. * Correção mútua dos vícios das tradições de origem. * Capacidade de leitura e visão. * O projeto gadameriano visa destruir a hegemonia do ideal de domínio metodológico para revelar a eficácia da história e da linguagem como condições positivas da verdade, e não como obstáculos à objetividade científica [28]. * Denúncia do instrumentalismo e do ideal de controle. * Reabilitação da consciência da história dos efeitos ou Wirkungsgeschichte. * Vigilância da condição langagière da compreensão. * A trajetória tardia de Paul Ricœur retorna ao projeto de uma hermenêutica da existência e da ipseidade, cumprindo rigorosamente a exigência heideggeriana de que a filosofia, nascida da interrogação da vida, deve refluir sobre a própria compreensão de si do existente [29]. * Persistência da destruição fenomenológica através do desvio. * Passagem da filosofia reflexiva para a hermenêutica do si. * Equivalência final entre os dois movimentos de virada. * Fenômeno do re-jaillir ou zurückschlagen. {{tag>Grondin hermenêutica}}