====== HERMENÊUTICA EM SER E TEMPO (2003) ====== //GRONDIN, Jean. Le tournant herméneutique de la phénoménologie. Paris: PUF, 2003.// * A definição da filosofia em Ser e Tempo como ontologia fenomenológica universal que parte da hermenêutica do Dasein estabelece o fio condutor do questionamento filosófico em sua origem e em seu necessário retorno sobre a existência. * Caracterização da sentença como a mais importante da obra. * Vinculação metodológica entre fenomenologia e hermenêutica. * Identificação do ponto de surgimento e de reincidência da interrogação. * A estrutura gramatical da frase decisiva do parágrafo sétimo revela uma complexidade sintática que visa camuflar a primazia da proposição relativa referente à hermenêutica do Dasein. * Acúmulo de quatro orações relativas. * Posicionamento estratégico ao final da Introdução. * Antecipação do caráter inaudito das formulações ontológicas. * Comparação com os tours de force de Platão e Aristóteles. * A promessa de um retorno da analítica sobre a existência, embora não realizada no plano original de 1927, encontra um prolongamento na problemática da metontologia e na questão da ética. * Caráter de balanço e promessa programática da sentença. * Interpretação de Jean Greisch sobre a metontologia. * Associação entre o retorno à existência e a Kehre. * Inserção da questão ética no domínio da metafísica da existência. * A articulação dos títulos de fenomenologia, ontologia e hermenêutica visa estabelecer uma solidariedade essencial, embora o conceito de hermenêutica permaneça menos elucidado que os demais no glossário da obra. * Concorrência e interdependência dos três termos. * Clareza dos projetos ontológico e fenomenológico em contraste com a brevidade sobre a hermenêutica. * Definição da hermenêutica como ponto de partida ou Ausgehen. * Necessidade de justificar o papel fundante da hermenêutica. * O conceito de hermenêutica no jovem Martin Heidegger, embora classificado por ouvintes contemporâneos como Josef König de incoerente e dissimulado, possui uma coerência interna que serve a uma estratégia subversiva em relação à fenomenologia tradicional. * Referência à hermenêutica da facticidade nos cursos de 1920. * Testemunho epistolar de Josef König a Helmut Plessner. * Caracterização da hermenêutica como inteligente mas sournois. * Existência de um conceito oculto em Ser e Tempo. * A indispensabilidade da hermenêutica reside no fato de que, sem ela, a filosofia não consegue cumprir suas pretensões de ser ontologia e fenomenologia, dada a natureza inapparente do ser. * Caráter proibitivo ou negativo da exigência hermenêutica. * Impraticabilidade da fenomenologia e ontologia sem esse alicerce. * Problema central de que o ser não se mostra espontaneamente. * A distinção entre fenomenologia como método e ontologia como objeto estabelece a primazia da questão do ser nas ordens ontica, ontológica e ontico-ontológica. * Função proibitiva da fenomenologia de rejeitar o sem fundamento. * Primazia da inteligibilidade e da preocupação do Dasein. * Detalhamento didático das três primazias em Ser e Tempo. * Referência a Jean Greisch sobre as ontologias regionais. * A inserção de obstáculos na via da ontologia e da fenomenologia visa expor as aporias que ameaçam qualquer empreendimento filosófico que tente dispensar a mediação hermenêutica. * Acompanhamento da reabilitação da ontologia por uma destruição histórica. * Caráter não ortodoxo da fenomenologia heideggeriana. * Crítica implícita a Edmund Husserl e às aporias estruturais. * Necessidade da hermenêutica para superar os impasses. * A aporia fundamental da fenomenologia consiste na tarefa paradoxal de fazer ver aquilo que, por essência, se encontra dissimulado e não aparece à primeira vista. * Contradição com a definição husserliana de ciência dos fenômenos. * Identificação do objeto da fenomenologia com o que está oculto. * Função do oculto de fornecer sentido e fundamento ao que aparece. * O dilema temático da fenomenologia exige a superação da trivialidade dos objetos do mundo ambiente para identificar quais fenômenos merecem o estatuto de objeto filosófico privilegiado. * Crítica à fenomenologia das mesas e janelas. * Necessidade de sair do sono positivista. * Exigência de seleção e hierarquização dos fenômenos. * A relação entre hermenêutica e fenomenologia não deve ser reduzida à tese banal de que todos os fenômenos são interpretações, o que equivaleria a negar a existência das coisas mesmas. * Crítica à interpretação vaga influenciada por Nietzsche ou Richard Rorty. * Ausência de oposição entre hermenêutica e legitimação fenomenológica. * Manutenção do imperativo de ir às coisas mesmas. * A estrutura de antecipação da compreensão não invalida o acesso às coisas mesmas, mas exige que os pressupostos sejam elaborados a partir da própria realidade investigada e não de caprichos ou lugares-comuns. * Análise da Vorstruktur no parágrafo 32. * Rejeição da leitura que vê na antecipação um obstáculo à objetividade. * Tarefa da interpretação de assegurar o tema científico. * Conformidade da elaboração conceitual com as coisas mesmas. * A função da hermenêutica justifica-se pela necessidade de desvelar um fenômeno insigne que se encontra ativamente dissimulado ou reprimido, e não apenas situado em um nível infra-fenomenal. * Explicação do vínculo pela noção de dissimulação ou Verborgenheit. * Natureza do inapparente como algo que tem interesse em permanecer oculto. * Caráter de refoulement ou repressão da dissimulação. * Importância de Sinn und Grund naquilo que não aparece. * O fenômeno do ser deve ser resgatado do esquecimento através da análise do Dasein, definido originariamente como o ente que não foge de sua própria condição de abertura. * Identificação do fenômeno oculto com o ser. * Definição de Dasein no curso de 1923 como Nichtweglaufen. * Capacidade de estar lá onde caem as orientações fundamentais. * Relação entre o Dasein e o poder-ser. * A substituição progressiva do termo facticidade pelo de Dasein visou evitar as conotações neokantianas de oposição ao universal, mantendo-se a hermenêutica do Dasein como ponto de partida e retorno. * Origem do conceito de Dasein na explicação da facticidade. * Análise de Theodore Kisiel sobre as raízes do termo. * Risco de platonismo invertido na noção de facticidade. * Sentido retrospectivo da hermenêutica da facticidade em Ser e Tempo. * A condição habitual do Dasein caracteriza-se como um estar-alhures ou Wegsein, motivado pela fuga diante da angústia da temporalidade finita e da própria mortalidade. * Oposição entre Dasein e Wegsein. * Distinção entre inexistência e ausência a si mesmo. * Associação da ruína ou Ruinanz com a fuga da morte. * Caráter individual e universal do horror à finitude. * A decadência no falatório constitui uma modalidade deficiente de presença onde o Dasein confirma seu ser através da fuga e do divertimento no espaço público. * Interpretação do Wegsein como modalidade de manquement. * Antítese entre o Gerede e o Dasein autêntico. * Aversion de Martin Heidegger à publicidade ou Öffentlichkeit. * Abandono aos racontars como perda do ser-aí. * O objetivo ético secreto da hermenêutica da facticidade é promover o despertar ou Wachsein do sujeito para suas possibilidades próprias, resistindo à ditadura do impessoal. * Descrição da finalidade como apelo ao despertar. * Impossibilidade de substituição da responsabilidade individual. * Uso de indicações formais para anunciar possibilidades. * Resistência à diversão do on. * A alternativa fundamental imposta ao Dasein não é entre fenômenos brutos e interpretados, mas entre a assunção hermenêutica de si mesmo e a alienação no falatório. * Enquadramento da análise da compreensão pelos fenômenos do on e do falatório. * Contexto dos parágrafos 31 a 34. * Definição da apropriação de si como meta. * Combate à obstrução causada pelo Gerede. * A interpretação ou Auslegung atua como um esclarecimento ou Aufklärung das possibilidades de compreensão projetadas pelo Dasein, visando a transparência e a apropriação de seus pressupostos. * Definição de Auslegung como explicitação. * Trabalho de clarificação das vias de inteligibilidade. * Proximidade com o conceito de Iluminismo ou Aufklärung. * Terminologia de transparência e clareza. * A hermenêutica define-se tecnicamente como o trabalho de explicitação destinado a destruir os ídolos e lugares-comuns que impedem o acesso do Dasein à sua própria realidade. * Equivalência entre hermenêutica e Auslegung. * Caráter de exercício de vigilância. * Necessidade de combater o falatório ideológico e político. * Acesso às coisas mesmas via destruição da dissimulação. * A natureza fenomenológica da hermenêutica do Dasein consiste na reconquista do fenômeno da existência contra sua encubação pelo falatório, exigindo a legitimação das opiniões correntes. * Intersecção entre fenomenologia e hermenêutica. * Tarefa de submeter o falatório à prova das coisas mesmas. * Recuperação do fenômeno essencial do poder-ser. * Superação da obstrução causada pela evidência pública. * O retorno da filosofia à sua origem na existência concreta implica que a hermenêutica do Dasein, ao confrontar o indivíduo com seu próprio ser, estabelece a condição de possibilidade de uma ética. * Resumo da função de desvelamento do fenômeno oculto. * Destruição das estratos de dissimulação. * Repercussão ou zurückschlagen dos esclarecimentos sobre o ente. * Enraizamento das questões filosóficas no cuidado do Dasein. {{tag>Grondin hermenêutica SZ}}