====== Abertura ====== - A consciência hermenêutica se caracteriza por uma abertura que tem a estrutura lógica da pergunta, pois toda experiência pressupõe o questionar, já que reconhecer que um objeto é diferente do que se pensava implica necessariamente ter perguntado se era assim ou assado. * A abertura essencial à experiência é precisamente a abertura de ser isto ou aquilo, o que corresponde à forma lógica da pergunta. * A negatividade dialética da experiência culmina na consciência da própria finitude e limitação, assim como a forma lógica da pergunta culmina em sua negatividade radical: o conhecimento do não saber. * Essa é a famosa docta ignorantia socrática que, em meio à negatividade extrema da dúvida, abre o caminho para a verdadeira superioridade do questionar. - A essência da pergunta está em ter sentido, e sentido implica uma direção, de modo que somente a partir da orientação aberta pela pergunta é que uma resposta pode fazer sentido, pois a pergunta coloca o que é interrogado em uma perspectiva particular que fende o ser do objeto. * O logos que explicita esse ser aberto é a resposta, e seu sentido reside no sentido da pergunta. - Platão, ao retratar Sócrates, revela que perguntar é mais difícil do que responder, pois quem dialoga apenas para provar que tem razão, e não para obter conhecimento, fracassa ao tentar assumir o papel de questionador. * Nos diálogos platônicos, o fracasso contínuo dos interlocutores demonstra que quem acredita saber mais não consegue sequer formular as perguntas certas. * Para ser capaz de perguntar, é preciso querer saber, e isso significa saber que não se sabe. * A confusão cômica entre pergunta e resposta, conhecimento e ignorância descrita por Platão, contém um reconhecimento profundo da prioridade da pergunta em todo conhecimento e discurso que realmente revela algo de um objeto. - O caminho de todo conhecimento passa pela pergunta, pois perguntar significa trazer à abertura, e a abertura do que está em questão consiste no fato de que a resposta ainda não está decidida, permanecendo indeterminada e aguardando uma resposta decisiva. * A questionabilidade do que se questiona precisa ser revelada, trazendo-o a um estado de indeterminação em que há equilíbrio entre o pró e o contra. * Toda pergunta verdadeira exige essa abertura; sem ela, trata-se apenas de uma pergunta aparente, como a pergunta pedagógica, que é uma pergunta sem questionador, ou a pergunta retórica, que não tem questionador nem objeto. - A abertura de uma pergunta não é ilimitada, pois é delimitada pelo horizonte da questão, de modo que perguntar implica abertura, mas também limitação, mediante o estabelecimento explícito de pressupostos que deixam ver o que ainda permanece em aberto. * Uma pergunta pode ser formulada correta ou incorretamente, conforme alcance ou não a esfera do verdadeiramente aberto. * Uma pergunta é formulada incorretamente quando não alcança o estado de abertura por reter pressupostos falsos, fingindo uma abertura e uma susceptibilidade à decisão que não possui. - A pergunta tendenciosa, familiar na vida cotidiana, não admite resposta porque conduz apenas aparentemente, e não realmente, pelo estado aberto de indeterminação em que uma decisão é tomada. * O termo "tendencioso" refere-se a algo que se desviou da direção correta; a tendenciosidade de uma pergunta consiste em não fornecer nenhuma direção real, tornando impossível qualquer resposta. * De modo semelhante, afirmações que não são exatamente erradas, mas tampouco corretas, são "tendenciosas", pois não correspondem a nenhuma pergunta significativa e carecem de sentido correto a menos que sejam elas mesmas corrigidas. * O sentido correto deve estar de acordo com a direção para a qual uma pergunta aponta. - Enquanto permanece aberta, uma pergunta inclui sempre julgamentos tanto negativos quanto positivos, o que fundamenta a relação essencial entre pergunta e conhecimento, pois a essência do conhecimento consiste não apenas em julgar algo corretamente, mas também em excluir o que é falso. * Decidir a questão é o caminho para o conhecimento, e o que decide uma questão é a preponderância de razões a favor de uma e contra a outra possibilidade. * O objeto em si só é conhecido quando as contrainstâncias são dissolvidas e os contraargumentos se revelam incorretos. - A dialética medieval, ao listar os argumentos pró e contra, apresentar sua própria decisão e expor todos os argumentos, ilustra a conexão interna entre conhecimento e dialética, isto é, entre resposta e pergunta. * Uma passagem célebre da Metafísica de Aristóteles, que sustenta que a dialética é o poder de investigar os contrários independentemente do objeto, pode ser explicada pela prioridade da pergunta sobre a resposta. * O conhecimento sempre significa, precisamente, considerar os opostos; sua superioridade sobre a opinião preconcebida consiste na capacidade de conceber possibilidades como possibilidades. * O conhecimento é dialético desde a base: só quem tem perguntas pode ter conhecimento, e as perguntas incluem a antítese do sim e do não, do ser assim e do ser de outro modo. * A questão aparentemente demasiado especializada de Aristóteles sobre se é possível ter uma única ciência dos contrários contém, na verdade, o fundamento da própria possibilidade da dialética. - A prioridade da pergunta no conhecimento revela o limite fundamental da ideia de método, pois não existe método para aprender a fazer perguntas ou a ver o que é questionável, como demonstra o exemplo de Sócrates, para quem o importante é o conhecimento de que não se sabe. * A dialética socrática, por meio de sua arte de confundir o interlocutor, cria as condições para a pergunta. * Todo questionar e todo desejo de saber pressupõem o conhecimento de que não se sabe, de tal modo que uma falta particular de conhecimento leva a uma pergunta particular. * Ernst Kapp, em seu trabalho brilhante sobre a origem do silogismo aristotélico, demonstrou que mesmo as concepções de Aristóteles sobre prova e argumento, que tornam a dialética um elemento subordinado no conhecimento, concedem a mesma prioridade à pergunta. - Platão mostra de modo inesquecível que a dificuldade de reconhecer o que não se sabe reside no poder da opinião, que suprime as perguntas, pois a opinião tem uma tendência curiosa de se propagar e quer sempre ser a opinião geral, assim como a palavra grega doxa, que significa opinião, também significa a decisão tomada pela maioria na assembleia. - As ideias não ocorrem a nós de modo inteiramente inesperado, pois pressupõem sempre uma orientação em direção a uma área de abertura da qual a ideia pode surgir, o que significa que pressupõem perguntas. * A natureza real da ideia repentina talvez seja menos que uma solução nos ocorra como a resposta a um enigma do que uma pergunta nos ocorra, rompendo o que está aberto e tornando assim possível uma resposta. * Toda ideia repentina tem a estrutura de uma pergunta, e a ocorrência repentina da pergunta é já uma brecha na frente lisa da opinião popular. * Dizemos que uma pergunta também "nos ocorre", que "surge" ou "se apresenta", mais do que que a formulamos ou a apresentamos. - O questionar é mais uma paixão do que uma ação, pois temos experiências quando somos surpreendidos por coisas que não correspondem às nossas expectativas, e da mesma forma a pergunta se impõe a nós, tornando impossível persistir na opinião habitual. - A dialética socrático-platônica eleva a arte do questionar a uma arte consciente, mas trata-se de uma arte peculiar reservada a quem quer saber, ou seja, a quem já tem perguntas, pois não é uma arte no sentido grego de techne, nem um ofício que possa ser ensinado ou por meio do qual se possa dominar a descoberta da verdade. * A assim chamada digressão epistemológica da Sétima Carta de Platão visa a distinguir a arte única da dialética de tudo que pode ser ensinado e aprendido. * A arte da dialética não é a arte de vencer todo argumento; ao contrário, é possível que quem a pratica saia em desvantagem no argumento aos olhos dos ouvintes. * A arte do questionar é a arte de questionar cada vez mais adiante, ou seja, a arte de pensar; chama-se dialética porque é a arte de conduzir um diálogo real. - Conduzir um diálogo exige, antes de tudo, que os parceiros não falem em propósitos cruzados, o que implica necessariamente a estrutura de pergunta e resposta, e requer que não se tente derrubar o outro pelo argumento, mas que se considere realmente o peso da opinião alheia. * Conduzir uma conversa significa deixar-se conduzir pelo assunto em torno do qual os parceiros no diálogo estão orientados. * Uma pessoa hábil na arte do questionar é aquela que pode impedir que as perguntas sejam suprimidas pela opinião dominante, buscando tudo que favorece uma opinião. * A dialética consiste não em tentar descobrir a fraqueza do que é dito, mas em revelar sua força real; não é a arte de argumentar, mas a arte de pensar, que pode fortalecer objeções referindo-se ao assunto. - A relevância única e contínua dos diálogos platônicos deve-se à arte do fortalecimento, por meio da qual o que é dito é continuamente transformado nas possibilidades mais extremas de sua correção e verdade, superando toda oposição que tente limitar sua validade. * O falante é posto em questão até que a verdade do que está em discussão finalmente emerja. * A produtividade maiêutica do diálogo socrático, a arte de usar as palavras como parteira, está voltada para as pessoas que são parceiras no diálogo, mas se ocupa apenas com as opiniões que expressam e com a lógica imanente do assunto desdobrado no diálogo. * O que emerge em sua verdade é o logos, que não é meu nem seu, e transcende de tal modo as opiniões subjetivas dos interlocutores que até mesmo aquele que conduz a conversa sabe que não sabe. * A dialética como arte de conduzir uma conversa é também a arte de ver as coisas na unidade de um aspecto (sunoran eis hen eidos), isto é, a arte de formar conceitos por meio da elaboração do significado comum. - O diálogo se distingue das afirmações escritas precisamente porque a linguagem falada, no processo de pergunta e resposta, de dar e receber, de falar em propósitos cruzados e de ver o ponto do outro, realiza a comunicação de sentido que, com respeito à tradição escrita, é a tarefa da hermenêutica. * Descrever a tarefa da hermenêutica como entrar em diálogo com o texto é mais do que uma metáfora: é uma memória do que originalmente era o caso. * Quando interpretada, a tradição escrita é trazida para fora da alienação em que se encontra e de volta ao presente vivo da conversa, que é sempre fundamentalmente realizado em pergunta e resposta. - Platão pode ser invocado para sublinhar o lugar da pergunta na hermenêutica, pois ele mesmo manifesta o fenômeno hermenêutico de modo específico, sobretudo em sua crítica à palavra escrita e em sua oposição ao tipo de interpretação textual cultivado pelos sofistas. * A forma literária do diálogo coloca a linguagem e o conceito de volta no movimento original da conversa, protegendo as palavras de todo abuso dogmático. - As cartas são um fenômeno intermediário interessante, uma espécie de conversa escrita que estende o movimento de falar em propósitos cruzados e de ver o ponto do outro, e a arte de escrever cartas consiste em não deixar o que se diz tornar-se um tratado, mas em torná-lo aceitável ao correspondente. * O intervalo de tempo entre o envio de uma carta e o recebimento de uma resposta não é apenas um fator externo, mas confere a essa forma de comunicação sua natureza especial como forma particular de escrita. * O aumento da velocidade do correio não melhorou essa forma de comunicação, mas, ao contrário, levou a um declínio na arte de escrever cartas. - A dialética de Hegel como método filosófico, ao elaborar a totalidade das determinações do pensamento, representa a tentativa de compreender dentro do grande monólogo do "método" moderno o continuum de sentido que se realiza em cada instância particular do diálogo. * Quando Hegel se propõe a tornar fluidas e sutis as determinações abstratas do pensamento, isso significa dissolver e remodelar a lógica em linguagem concreta, transformando o conceito no poder significativo da palavra que pergunta e responde. * A dialética de Hegel é um monólogo do pensamento que tenta realizar antecipadamente o que amadurece pouco a pouco em todo diálogo genuíno.