====== Doença psíquica ====== //FUCHS, Thomas. Para uma psiquiatria fenomenológica: ensaios e conferências sobre as bases antropológicas da doença psíquica, memória corporal e si mesmo ecológico. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2018 (2ª ed., 2026).// **A pergunta sobre por que há doença psíquica pode ser respondida de maneiras diversas** 1. A pergunta pelas causas da doença psíquica conduz a um feixe praticamente inabarcável de condições — genéticas, neurobiológicas, traumáticas, pulsionais, pessoais e sociais —, cuja multiplicidade sobrecarrega a investigação e exige outra abordagem. 2. A antropologia filosófica e psiquiátrica desloca a questão das causas particulares para as condições de possibilidade do adoecimento, perguntando o que na organização psicofísica humana o torna vulnerável à doença psíquica. 3. A ausência de psicoses, compulsões, alucinações e suicídio nos animais, aliada à exclusividade humana da decisão contra a própria vida, evidencia que a doença psíquica se enraíza nos graus mais elevados de liberdade da organização humana, conforme a formulação de Jaspers de que o inacabamento e a abertura do homem são o fundamento de um ser doente. 4. A tarefa consiste em verificar em que medida a própria conditio humana abriga linhas de ruptura e conflitos incontornáveis que, sob certas condições, levam à sobrecarga e ao adoecimento, e até que ponto os novos graus de liberdade humana são inseparáveis de uma fragilidade psíquica. 5. Essa perspectiva se justifica pela inexistência de causas genéticas ou neurobiológicas específicas das doenças psíquicas e pela impossibilidade de diagnosticá-las por imagem ou biomarcas, o que revela perturbações complexas de interação biopsicossocial sem limite claro entre doença e saúde, impondo outro ponto de observação. 6. O percurso investigativo divide-se em duas etapas: primeiro, os fundamentos da vulnerabilidade antropológica na abertura, variabilidade e contraditoriedade da organização psíquica humana; depois, a interpretação dessa disposição como vulnerabilidade existencial, sensibilidade a conflitos fundamentais que torna o homem suscetível a situações limite, nas quais a descompensação e o adoecimento sobrevêm. **I. Vulnerabilidade antropológica** 1. A organização e o desenvolvimento psicofísicos do homem apresentam, simultaneamente, condições de descarrilamento e de adoecimento psíquico. 2. A pobreza de instintos, apontada por Scheler e Gehlen, desvincula o homem de esquemas pulsionais e comportamentais fixos, substituídos por papéis e hábitos culturais que o desoneram da busca permanente de metas e do planejamento expresso de cada ação. 3. A abertura e a liberdade de escolha do desenvolvimento individual fazem do homem o animal não fixado de Nietzsche e o prematuro fisiológico de Portmann, cuja imaturidade natal só se completa pela socialização, pela linguagem e pela cultura, apoiadas na plasticidade única do cérebro humano e de seu córtex pré-frontal, base da assunção de perspectivas e do desenvolvimento moral. 4. Mesmo a cultura não fixa o homem por completo, restando-lhe a liberdade individual de conduzir e moldar a própria vida por decisões e ações, abertura celebrada por Pico della Mirandola como o poder de o homem determinar livremente sua própria natureza. **Angústia como “vertigem da liberdade”** 1. A abertura humana traz múltiplas possibilidades de perturbação, começando pela disposição particular para a angústia, que, de função biológica de advertência diante do perigo, passa crescentemente a reação a riscos sociais e existenciais, devendo-se notar que o termo alemão Angst abrange também o temor, ainda que a tradução por angústia se imponha por não fazer sentido pensar o temor como vertigem da liberdade. 2. Com o desenvolvimento cultural, a angústia perde seu caráter originário de alarme corporal e assume o papel de reação individual a riscos sociais e existenciais, para os quais aqueles alarmes já possuem utilidade limitada. 3. Como prematuro fisiológico, o homem está desde o início exposto a um risco particular, e Freud situou a raiz da prontidão neurótica para a angústia no desamparo prolongado e na dependência da criança pequena, cumprindo a angústia função central no sistema de vinculação ao sinalizar a perda da proximidade materna e da proteção vital, assim como a angústia de desagregação do homem primitivo derivava da perda do grupo, cujo banimento equivalia à condenação à morte. 4. O desenvolvimento cultural assenta-se em controles e renúncias pulsionais internalizados que equilibram a falta de instintos ao preço de uma angústia instalada como vigia interior do autocontrole, voltada para ameaças ao valor e ao status no grupo, para a punição e para a exclusão, sendo a consciência moral, na origem, angústia social e reservatório rico de desenvolvimentos neuróticos, e os conflitos entre necessidades egocêntricas e ofertas sociais, inatos ao homem, os ocasionadores mais frequentes de angústias e perturbações clínicas. 5. A capacidade de imaginação e de antecipação do futuro intensifica a prontidão para a angústia ao permitir antever perigos, e apenas o homem amplia sua perspectiva temporal até a incontornabilidade da própria morte, abrindo-se o campo das angústias existenciais e transformando-se o cuidado com a vida em estrutura fundamental da existência, pois a vida lhe é entregue como tarefa, e só o homem pode fracassar na vida. **Posicionalidade excêntrica** 1. A angústia é o preço da liberdade e da consciência da vida e da morte, e nesse contexto assume significado particular a posição excêntrica de Plessner, pela qual o homem, diferentemente do animal preso ao seu meio e ao seu centro, sai de si e vê a si mesmo com os olhos dos outros, conquista realizada no segundo ou terceiro ano de vida com a autoconsciência e a reflexividade, quando a criança aprende a dizer eu e a assumir uma relação consigo mesma. 2. A autoconsciência e a reflexão, centrais para as conquistas culturais, cobram preço elevado: a imediatidade e a espontaneidade infantis sofrem ruptura fundamental, expressa em emoções auto-reflexivas como acanhamento, orgulho, vergonha e culpa, e a vulnerabilidade da relação consigo e da autoestima manifesta-se em perturbações histriônicas, narcisistas, depressivas e fobias sociais, todas pressupondo a autopercepção e a autoavaliação a partir do ponto de vista dos outros. 3. A reflexão, além de dom, porta o germe da alienação, pois na cisma depressiva e nas ideias compulsivas anancásticas ou esquizofrênicas o pensar se autonomiza em círculo vazio, sem saída da espiral atormentante, configurando-se uma psicopatologia regular da hiper-reflexividade que só o homem pode desenvolver. 4. Na compulsão à repetição, autonomiza-se a possibilidade de controle pulsional e afetivo, e a angústia diante das parcelas inconscientes do si mesmo conduz à defesa excessiva por rituais de autodisciplina, como no caso de Frankl do contador perfeccionista que, ao concentrar-se excessivamente na própria escrita, perdeu a capacidade de escrever e só se curou pela intenção paradoxal de produzir borrões deliberados. 5. A hiper-reflexividade dissolve a atividade óbvia ao fixar a atenção em detalhes em vez do todo, e o neurótico compulsivo, abandonando a obviedade, quer controlar tudo e não deixa nada acontecer, por medo de se entregar, consistindo a intervenção paradoxal em mobilizar justamente as parcelas reprimidas rebeldes do paciente. 6. As despersonalizações e autoalienações expressam a ruptura fundamental do ser que se distancia da sensação primária de si, e o ganho de liberdade daí decorrente assume caráter aflitivo na cisão em relação ao próprio sentir, com a perturbação da autoestima penetrando todos os âmbitos da vivência, como no relato de quem se pergunta constantemente como é e reflete tanto que não chega a fazer mais nada. 7. A dúvida radical sobre o próprio pensar, expressa no medo de deixar de pensar e na pergunta noturna sobre se ainda pensa para saber se existe, mostra que o autoasseguramento constante é vão e que a certeza cartesiana já não socorre quando a dúvida atinge o íntimo do sujeito. 8. Quando a atenção se volta para o ponto cego da existência, como na imagem goetheana da mancha cinzenta do cérebro em que nenhum objeto se reflete, a reflexão se torna nó cego e o homem decai em adoecimento mental. 9. A confusão na assunção de perspectivas pode dissolver a demarcação entre si e o outro, como na esquizofrenia em que o jovem perde a distinção entre suas ideias e as do interlocutor, sente o outro entrar nele e evita ver sua imagem na vitrine por não saber onde propriamente se encontra. **Relação-corpo-físico-corpo-vital** 1. Só para o homem o corpo vital vivido se transforma em corpo físico observável, instrumento formável e objeto que ele mesmo é, numa ligação ambivalente formulada por Jaspers, e nessa base antropológica se fundam a observação hipocondríaca, a fobia cardíaca, a dismorfofobia e os transtornos alimentares, nos quais os pacientes, entregues à contingência do corpo, buscam controlá-lo, dominá-lo ou manipulá-lo. 2. O hipocondríaco perde a confiança nos processos corpóreos naturais e tenta assegurar-se por vigilância médica, e sua auto-observação desconfiada produz ou intensifica sensações inabituais interpretadas como sintomas ameaçadores, como no paciente que, temendo um tumor ocular, vigiava tensamente as sensações dos olhos e assim provocava tensões e secreções lacrimais, com a atenção desviada do mundo para o próprio corpo. 3. A perda de confiança no corpo funda-se no saber reflexivo de que o homem é suscetível de adoecimento e ferimento enquanto ser mortal, de modo que toda dor banal anuncia a possibilidade de doença mortal, e o hipocondríaco, sensível em excesso à vulnerabilidade corporal e incapaz de suportá-la, tenta banir o risco de doença e morte pelo controle absoluto do corpo, travando uma luta de vida inteira contra a mortalidade que não pode reconhecer nem aceitar. 4. No paciente anoréxico o corpo vital se torna objeto alienado, e o controle completo, a independência da alimentação e dos outros converte-se em triunfo grandioso, como no relato de quem sentia punir e odiar o corpo, precisava prescindir dele após dias de tratamento normal e sentia-se presa nele, que sob controle rigoroso não podia enganá-la. 5. A tensão humana entre ser corpo vivo e ter corpo físico se converte, na anorexia, em dualismo radical que recorda a concepção platônico-cristã do corpo como cárcere da alma, revelando a ruptura antropológica como base do adoecimento, pois nenhum animal deixaria seu corpo voluntariamente passar fome, já que é apenas seu corpo e o tem. **II. Vulnerabilidade existencial** 1. À vulnerabilidade antropológica, ligada ao enfraquecimento e à contraditoriedade das condições fundamentais da existência, acrescenta-se a vulnerabilidade existencial, lado subjetivo daquela, consistente na sensibilidade particular dos doentes psíquicos para as contradições humanas entre autonomia e dependência, liberdade e segurança, autorrealização e culpa, prazer de viver e certeza da morte, de modo que conflitos ou perdas cotidianas se tornam para eles situações limite no sentido de Jaspers. 2. Nas situações limite, uma condição fundamental até então encoberta ou reprimida vem à tona e não pode mais ser negada — separação, culpa, feribilidade do corpo, solidão fundamental e finitude —, e o chão sob os pés é como que retirado, desmoronando o invólucro, isto é, as suposições fundamentais e edifícios de pensamento que protegem o homem das contradições da vida e dos abismos da existência, também designáveis como mecanismos de defesa existenciais. 3. Tais invólucros consistem em suposições implícitas e inquestionadas que sombreiam ou negam as contradições da existência, como a de que o mundo é corretamente erigido e recompensa o posicionamento suficiente, a de que manter a culpa afastada impede o mal, a de que a subordinação aos outros garante proteção e condução, a de que a perfeição assegura o controle da vida e a de que a ascensão contínua torna a morte inócua. 4. Essas suposições seguem o padrão de que não pode ser o que não tem o direito de ser, pois o mal, a injustiça, o sofrimento e a morte existem, mas não podem atingir o inocente ou invulnerável, e elas caracterizam pacientes com esgotamento ou burnout e, em geral, a personalidade depressiva designada por Tellenbach como typus melancholicus, marcada pelo caráter metódico, pela conscienciosidade superacentuada, pela adequação excessiva às normas, pela manutenção de vínculos até a autonegação e pelo evitar penoso de culpa ou descumprimento. 5. O invólucro rígido do melancólico, embora o torne supertencionado socialmente e passe despercebido, revela-se precário, pois diante de atraso em relação aos compromissos, preterições injustificadas ou perda de vínculos próximos, o mundo colapsa literalmente e a situação limite desemboca na depressão. 6. O nexo entre vulnerabilidade, defesa existencial e decomposição na situação limite ilustra-se no caso do paciente de 64 anos que adoeceu de pesada depressão após a aposentadoria, vindo de família adoentada e condições humildes, tendo chegado por trabalho duríssimo e ambição extrema a diretor de pessoal, à custa de família e relacionamento, e tendo ficado doente apenas 10 dias em 45 anos de profissão, com a extração de três dentes como desencadeador imediato. 7. A depressão caracterizou-se pelo sentimento de decomposição, com forças desaparecidas e membros desobedientes, e o paciente se acusava de abusar da saúde e descuidar da família, agora recebendo a conta, sentindo a vida no fim e o hálito da morte no rosto, a ponto de pedir que o colocassem numa câmara mortuária no porão. 8. O projeto de vida rigidamente orientado pelo desempenho às custas dos próximos encontrou na aposentadoria o fim da ascensão narcisista, e a extração dos dentes trouxe à consciência a possibilidade reprimida de ferimento da existência, de modo que a queda depressiva respondeu ao desvelamento do invólucro como aparência ilusória, situação limite não dominada em que o lado sombrio da existência — envelhecimento, doença, culpa, descaso e morte — tomou conta do paciente. 9. O segundo caso ilustra a defesa dependente do typus melancholicus numa mulher de 55 anos que, após longa indecisão sobre vender a casa grande demais depois da morte do marido, seguiu conselhos alheios, vendeu e caiu em crise de arrependimento amargo, autocrítica dura e pesada depressão, queixando-se da má decisão, da grande perda financeira, dos danos irreparáveis aos filhos e da incapacidade de se mudar. 10. A terapia mostrou que dois momentos da decisão se tornaram insuportáveis: sua irrevogabilidade, ligada ao reconhecimento definitivo da morte do marido com quem convivera mais de 20 anos na casa, e o fato de ser a primeira decisão fundamental de vida tomada sem ele. 11. Particularmente sensível à dimensão existencial da decisão — irrevogabilidade, responsabilidade própria e solidão da resolução —, a paciente trazia o invólucro literalmente incorporado à casa, que entrou em colapso com a venda, e a depressão respondeu ao desvelamento da vanidade de todas as estratégias de escape e asseguramento, pois nenhum procedimento poupa o homem de conduzir a vida sem segurança derradeira, solitária e inseguramente. **Síntese** 1. A antropologia psiquiátrica investiga a vulnerabilidade específica da organização psíquica humana — os pressupostos do adoecer psíquico, as possibilidades de descarrilamento da estrutura psíquica e as condições problemáticas sob as quais a tarefa da existência sobrecarrega o homem —, propiciando compreensão aprofundada das contradições e conflitos existenciais dos doentes psíquicos. 2. Entre as razões da vulnerabilidade, destaca-se a abertura, insegurança e contraditoriedade da organização e da existência humanas, que começa no nascimento prematuro em termos fisiológicos e, ao abrir o campo de jogo do desenvolvimento cultural e individual, mantém a liberdade precária e ameaçada, pois a falta de instintos exige aprendizado complexo e sincronização com normas e papéis culturais, dependentes de adaptação e de meios ambientes positivos e, por isso, sujeitos a falhar. 3. A posição excêntrica adquirida na socialização concede ao homem a assunção de perspectivas, a autoconsciência e a reflexão, mas contém o germe da alienação e da autocontraditoriedade entre corpo vital e corpo físico, entre si e os outros, entre impulsos e controle, alienação que pode se intensificar até a despersonalização ou a perda dos limites entre eu e outros na esquizofrenia. 4. A consciência da morte é companheiro difícil de suportar, exigindo múltiplas defesas e repressões que frequentemente conduzem a supercompensações, fugas e malogro da autorrealização. 5. Diversos tipos de personalidade protegem-se por invólucros rígidos contra os medos da casualidade e incalculabilidade do existir, da falta de justificativa da existência, da culpa inexorável, da liberdade irrepresentável do ser si mesmo e da restrição vergonhosa das próprias capacidades, mas as situações limite tornam questionáveis todos esses invólucros e defesas e confrontam o homem com as antinomias indissolúveis da conditio humana, ensejando crises e adoecimentos psíquicos pesados. 6. Uma terapia atenta a esse pano de fundo existencial não se limita à desoneração passageira ou à retomada da capacidade de trabalho, mas aproveita a situação limite para abrir o paciente aos conflitos existenciais fundamentais e, se possível, ao reconhecimento e aceitação das condições precárias e limitadas da conditio humana, apoiando-o na revisão de sua estrutura existencial de defesa e na busca de uma forma responsável de vida, cabendo a psiquiatras e psicoterapeutas compreender esses conflitos para auxiliar o paciente a reconhecer as implicações existenciais de sua crise e a não vivê-la como culpa própria, mas como expressão da situação fundamental da qual todos participam e sofrem, pois nada humano é estranho ao homem. {{tag>Fuchs psiquiatria psicologia psicanálise doença psique}}