====== A objeção do solipsismo (2014) ====== Franck2014 ===== 1. A ameaça do solipsismo ao idealismo fenomenológico ====== * A introdução do problema do outro coloca diretamente em questão o idealismo fenomenológico. * Ao definir a subjetividade transcendental como concreta, parece tornar-se impossível postular outro ego. * Com isso, o mundo objetivo torna-se fenomenologicamente impensável, comprometendo o próprio projeto filosófico. * A dificuldade não pode ser resolvida pela veracidade divina. * Tal solução recorre a uma metafísica já submetida à redução. * Além disso, pressupõe aquilo que deveria ser constituído: a subjetividade alheia. * Sob o nome do outro, está em jogo o ser da objetividade e, portanto, o ser da intencionalidade. * A questão é suficientemente essencial para levar Husserl a considerar uma possível retratação do idealismo transcendental. ===== 2. Tentação do realismo transcendental e seu impasse ====== * Husserl reconhece a tentação de admitir um mundo em si por trás das ideias constituídas no ego. * Tal posição buscaria uma via da imanência do ego à transcendência do outro. * Contudo, essa via não pode ser percorrida fenomenologicamente. * A própria redução delimita o campo do conhecimento transcendental à esfera da experiência transcendental própria. * Tudo o que é conhecido pertence sem resto ao ego transcendental. * O problema dos outros egos surge então como aporia interna. * Eles não podem ser meras unidades sintéticas de verificação em mim. * Seu sentido exige que sejam efetivamente outros. ===== 3. Pressupostos problemáticos da objeção ====== * A objeção do solipsismo envolve uma compreensão específica da constituição. * Constituir é sempre referido ao ego. * A partir disso, pareceria impossível pensar a transcendência. * O outro é compreendido como objeto excepcional. * Seu sentido pareceria contradizer o próprio sentido de constituição. * O outro passaria a carregar todo o peso da exterioridade. * Dessa forma, a análise do outro seria a análise da origem da transcendência e do mundo. * A objeção assume implicitamente leis da gramática lógica do sentido. * Ela mesma recorre à subjetividade transcendental para formular o paradoxo. ===== 4. Decisão metodológica: o outro como sentido ====== * Para romper o círculo, impõe-se a tarefa de uma explicitação fenomenológica concreta do alter ego. * Isso implica uma decisão fundamental. * O outro só pode ser um sentido. * Como todo sentido, ele só pode ter origem na subjetividade transcendental. * Essa decisão repete o gesto fundador da fenomenologia. * Todo objeto concebível é formação de sentido. * Surge, contudo, a suspeita de uma redução violenta do fenômeno do outro. * Denunciar essa violência pressuporia já um acesso ao outro. * Tal denúncia incorre no mesmo erro das teorias que substituem a doação encarnada por signos ou imagens. * Apenas uma análise intencional rigorosa pode legitimar a estranheza do outro. * A fenomenologia é a única instância capaz de dizer que o outro escapa ao seu alcance e fazer disso uma estrutura positiva. ===== 5. Princípio da investigação: modos de doação ====== * O único ponto de partida possível é o modo de doação do outro. * O outro é um noema constituído por noeses específicas. * Uma análise estática deve preceder a análise genética. * O outro só pode ser percebido. * Apesar da singularidade dessa percepção, ela não exige, inicialmente, novos princípios. * Tratar o outro como noema preserva a clausura egológica. * O outro não participa da constituição do ego. * Essa pureza monádica será posteriormente abalada, mas é mantida nesse estágio inicial. ===== 6. Primeira descrição fenomenológica do outro ====== * O outro é experimentado como existente em multiplicidades harmônicas de experiência. * Ele é dado como objeto no mundo. * Mas não apenas como coisa física. * O outro é experimentado como governando psiquicamente seu organismo. * Ele é dado como unidade psicofísica. * Simultaneamente, o outro é dado como sujeito do mundo. * Ele experiencia o mesmo mundo que eu. * Ele me experiencia assim como eu o experiencio. * Essa descrição introduz uma ambiguidade estrutural fundamental. ===== 7. Ambiguidades constitutivas da percepção do outro ====== * Primeira ambiguidade: objeto mundano e sujeito transcendente. * Como corpo no mundo, o outro é dado por adumbramentos. * Como sujeito do mundo, ele é dado de modo análogo ao modo como eu me dou a mim mesmo. * Segunda ambiguidade: corpo físico e dimensão psíquica. * O outro é corpo no espaço-tempo homogêneo. * Mas sua vida psíquica não pode ser diretamente acessada sem deixar de ser outra. * Terceira ambiguidade: corpo e carne. * Embora ainda não tematizada explicitamente, a distinção já está implicada. * A carne não se individua como o corpo físico. * Essas ambiguidades não se deixam unificar sob uma lei simples. * Elas configuram o núcleo da dificuldade fenomenológica. ===== 8. Sentido objetivo do mundo e excedência do sentido ====== * A descrição visa mostrar que o mundo é experimentado como intersubjetivo. * O sentido do mundo é objetivo. * Contudo, esse sentido objetivo pertence ao fenômeno do mundo para mim. * Cada outro possui seu próprio fenômeno do mundo. * Coloca-se então o problema decisivo. * Como pode haver em mim um sentido que me excede? * Como compreender essa excedência se todo sentido é produto da minha vida intencional? ===== 9. O eu, a linguagem e a implicação do outro ====== * A epoché produz um eu em solidão radical. * Essa solidão não é mensurável filosoficamente. * Contudo, ao dizer eu, todos os pronomes pessoais já estão implicados. * Husserl sugere que o sentido de eu varia de pessoa para pessoa. * Tal afirmação entra em tensão com a idealidade do sentido. * Se o sentido é ideal, ele é intersubjetivo e omni-temporal. * Compreender o eu exige o horizonte de um nós. * A possibilidade de dizer eu remete à morte própria e aos outros. * O eu aparece como estruturalmente expropriado de si. * Surge a questão da compatibilidade entre essa expropriação e a clausura egológica. ===== 10. Retorno à tarefa fenomenológica ====== * Husserl reafirma a necessidade de uma explicitação sistemática da intencionalidade relativa ao outro. * Somente assim as questões poderão ser formuladas e resolvidas com sentido. * A análise deve visar as intenções explícitas e implícitas. * Nelas, o outro se manifesta, é verificado e se confirma como existente. * Essa tarefa constitui o verdadeiro núcleo da Quinta Meditação. * Ela não é apenas uma teoria do alter ego. * Ela testa a possibilidade, o sentido e a coerência interna da fenomenologia.