====== A alteração do próprio (2014) ====== Franck2014 ===== 1. Necessidade de um conceito positivo de próprio ====== * O conceito de próprio inicialmente empregado é definido negativamente como não-estranho. * Essa negatividade pressupõe implicitamente o outro e a alteridade em geral. * Torna-se necessário elaborar um conceito positivo e autônomo de próprio. * Somente tal conceito permite levar a cabo de modo rigoroso a redução à esfera do próprio. * A fenomenologia da percepção é retomada como via privilegiada para essa elaboração. * Busca-se determinar o que, na própria percepção, pode fundar positivamente o sentido de próprio. ===== 2. Pré-doação passiva e estrutura da explicitação perceptiva ====== * Todo objeto é inicialmente pré-dado de maneira passiva. * Ele é dado como objeto indeterminado da intuição empírica. * A percepção ativa funda-se nessa pré-doação. * Ela entra nos horizontes do objeto e conduz à sua explicitação progressiva. * Fenomenologicamente, todo objeto concebível funciona como regra estrutural de seus modos de doação. * As apreensões singulares são ordenadas como apreensões do mesmo objeto. * A percepção não se limita a explicitar o que já está dado. * Ela articula determinações atuais com antecipações horizontais. ===== 3. Síntese de coincidência e constituição do substrato ====== * A apreensão de uma nova propriedade não equivale à apreensão de um novo objeto. * Ela é apreensão de uma determinação pertencente ao mesmo substrato. * A explicitação possui uma estrutura dupla. * Ela constitui simultaneamente o sentido do substrato e o sentido das qualidades. * As categorias lógicas de sujeito e predicado têm sua origem nessa estrutura de explicitação. * O olhar percorre o objeto mantendo-o como totalidade visada. * Cada orientação parcial coincide com a intenção global. * A presença da coisa não se confunde com o presente das percepções singulares. * O ter-em-mãos durável constitui o substrato como algo que excede cada apreensão atual. ===== 4. Transposição da análise para o ego ====== * A análise da explicitação pode ser transposta do objeto ao ego. * Essa transposição fornece o conceito de próprio necessário à constituição do outro. * Pela redução, o ego é dado a si mesmo de modo perceptivo. * Ele aparece como dado antes mesmo da apreensão atual, intuitiva e apodítica. * A redução abre o ego ao horizonte infinito de suas propriedades. * A análise intencional explora incessantemente esse horizonte. * O próprio é aquilo que se descobre por explicitação. * Ele consiste no desdobramento do ser idêntico do ego enquanto idêntico. ===== 5. Apoditicidade e diferença entre objeto e ego ====== * No caso do objeto, cada nova explicitação corresponde a uma nova percepção. * No caso do ego, a explicitação não se realiza majoritariamente por percepções. * Muitos momentos essenciais do ego não são dados perceptivamente. * O traço essencial do próprio é definido pela apoditicidade. * Próprio é aquilo que é dado a si mesmo em percepção apodítica. * Essa definição parece introduzir uma determinação temporal do próprio. * A apoditicidade remete ao presente vivo encarnado. * Surge a dificuldade de excluir passado e futuro da esfera do próprio. * A temporalidade imanente do ego parece contradizer o projeto da redução ao próprio. ===== 6. Resposta husserliana: prioridade da doação originária ====== * Husserl privilegia a doação originária em detrimento da apoditicidade estrita. * Mantém-se uma ingenuidade apodítica deliberada. * O passado é dado originariamente pela memória. * A memória é possibilidade essencial do ego. * A evidência do eu foi e do eu serei participa da evidência do eu sou. * Retenção e protensão estão enraizadas no presente vivo. * Toda explicitação participa da apoditicidade sob uma lei formal. * Tanto aparecer, tanto ser, ainda que encoberto ou falsificado. * A exigência decisiva é a originalidade do modo de doação. * Cada vivência deve ser esclarecida no tipo de autodoação que lhe é próprio. ===== 7. Ampliação da esfera do próprio e problema da alteridade ====== * A esfera do próprio inclui o fluxo das vivências atuais e potenciais. * Ela inclui também vivências intencionais com estrutura noético-noemática. * O noema é inseparável da noese. * O objeto intencional pertence à esfera do próprio. * Tanto o ato constituinte quanto o objeto constituído pertencem à própria concreção do ego. * Isso vale para dados sensíveis imanentes, habitus e objetos transcendentes. * Os objetos da sensibilidade externa são dados por mediação da carne. * Surge a dificuldade decisiva. * Estender o próprio a objetos transcendentes parece abrir a esfera do próprio à alteridade. ===== 8. O não-eu originário e a hylé estrangeira ====== * O ego intencional não é pensável sem o não-eu. * Husserl distingue no ego uma dimensão especificamente egoica e uma hylé estrangeira ao ego. * O ego pressupõe um domínio de pré-doação não egoico. * Todo ego possui um núcleo de hylé que lhe é estranho e, contudo, essencial. * O primeiro não-eu é o outro ego. * Esta afirmação é central para as Meditações Cartesianas. * A relação ao outro parece fundar o próprio sentido do ego e da intencionalidade. * A temporalidade, sendo hylética, parece pertencer ao mesmo horizonte. ===== 9. Transcendência na imanência e ampliação do campo fenomenológico ====== * A ampliação da esfera do próprio prepara a análise da intersubjetividade. * Introduz-se o conceito de transcendência na imanência. * Esse conceito já havia sido elaborado em análises anteriores da temporalidade. * A retenção inclui um não-agora no agora ampliado. * O passado transcende o presente, mas é dado absolutamente. * Essa transcendência é irredutível. * Tentativas de reduzi-la a pressupõem. * A transcendência na imanência fornece à fenomenologia um campo de objetos. * Sem ela, a fenomenologia perderia seu tema. ===== 10. Plurivocidade de imanência e transcendência ====== * Husserl distingue vários sentidos de imanência e transcendência. * Um primeiro sentido refere-se à diferença entre ato e objeto conhecido. * Esse contraste não é ainda o contraste fenomenológico decisivo. * Um segundo sentido baseia-se na diferença entre presença encarnada e mera intenção. * O critério decisivo é a presença na carne. * Um terceiro sentido distingue objetos absolutamente presentes e objetos dados por adumbramentos. * Os objetos transcendentes são dados como unidades de aparições harmonizadas. * Essa transcendência dos objetos intuitivos é redefinida como forma legítima de imanência. * Trata-se de uma imanência em bom sentido. ===== 11. Prioridade da transcendência temporal originária ====== * As distinções entre objetos pressupõem a transcendência temporal originária. * Sem a transcendência na imanência da retenção, nenhum objeto poderia ser dado. * A identificação entre inclusão intencional e inclusão real pressupõe: * unidade prévia entre hylé e morphé. * Essa unidade remete à função originária da temporalidade constitutiva. * A relação entre imanência e transcendência é, assim, radicalmente reconfigurada. ===== 12. Consequência transcendental e tarefa final ====== * O mundo primordial da esfera do próprio não é objetivo nem intersubjetivo. * A tarefa consiste em compreender como surge a transcendência objetiva secundária. * Trata-se da constituição do mundo como mundo para todos. * Essa constituição não é genética no tempo empírico. * Ela é objeto de uma análise puramente estática. * A experiência do mundo objetivo é sempre experiência do absolutamente outro. * A análise da constituição do outro torna-se, assim, condição da compreensão da experiência em geral. * Ela assume o estatuto de problema transcendental fundamental.