====== Mão e Mundo (1986) ====== DFHPE * A hermenêutica do espaço se insere na hermenêutica da mundanidade, exigindo para sua compreensão um estudo prévio do ser-no-mundo, estrutura fundamental do Dasein. * O ser-no-mundo é um fenômeno unitário que articula uma pluralidade de momentos, cuja elucidação segue a ordem de três perguntas: o que é o mundo, quem está no mundo, o que significa ser-em. * Como o ser-no-mundo é o próprio Dasein, é necessário deixá-lo se apresentar tal como se dá na cotidianidade, sem impor ideias externas sobre a existência. * O Dasein deve ser tematizado em sua indiferença quotidiana, em seu ser-médio, onde aparece inicialmente ao olhar fenomenológico. * A primeira tarefa é descrever fenomenologicamente o mundo cotidiano, o mundo ambiente com o qual o Dasein é tão familiar que o silencia. * É preciso delimitar previamente o que se busca, distinguindo quatro sentidos do conceito de mundo. * Sentido ôntico-categorial: a totalidade dos entes presentes no mundo. * Sentido ontológico-categorial: o ser dessa totalidade. * Sentido ôntico-existencial: aquilo no que o Dasein fático vive. * Sentido ontológico-existencial: o a priori da mundanidade em geral, pelo qual todo mundo é mundo. * A investigação deve estabelecer o caráter existencial do mundo usual e da mundanidade como tal, reatando com certa significação do κόσμος grego. * O método para atingir o fenômeno do mundo consiste em destacar a mundanidade do ente que o Dasein encontra no mundo ambiente mais próximo. * A preposição "Um-" em Umwelt não significa exclusivamente "ao redor", mas também "para". * O espaço só é compreensível a partir da mundanidade, pois o espaço está no mundo, e não o mundo no espaço. * Essa hierarquia já engaja a redução da espacialidade à temporalidade extática. * Como o Dasein encontra o ente no mundo cotidiano? Não primariamente como objeto de conhecimento. * O conhecimento pressupõe o ser-no-mundo e é uma modificação da preocupação cotidiana. * Formalmente, o conhecimento implica uma relação sujeito-objeto que só é possível na abertura prévia do ser-no-mundo. * A contemplação teórica surge de uma deficiência da preocupação prática, abstendo-se da produção e manipulação para um puro permanecer junto ao ente. * A ontologia tradicional, ao tomar o conhecimento como fio condutor, falha em apreender o fenômeno do ser-no-mundo. * O mundo ambiente, cujo paradigma é o mundo de trabalho do trabalhador manual, é onde o Dasein se preocupa com as coisas no uso que faz delas. * O Dasein está sempre disperso em modos determinados de ser-em, lançado entre entes intramundanos com os quais tem sempre múltiplas ocupações. * Os gregos tinham um termo adequado para as coisas: πράγματα, aquilo com que se lida na πρᾶξις preocupada, mas ontologicamente as determinavam como "coisas puras". * Heidegger nomeia esse ente como Zeug, utensílio, sendo necessário exibir sua utensilidade para atingir a mundanidade. * Um utensílio nunca está sozinho, mas pertence a um complexo organizado por uma estrutura de remissão. * O utensílio é essencialmente "algo para...", com modos de "ser-para" como serviço, contribuição, utilização. * Em sua estrutura de ser-para há uma remissão de algo a algo. * O complexo organizado deve estar previamente descoberto para que cada utensílio apareça individualmente. * Isso implica uma crítica das descrições cartesiana e husserliana da percepção, que se apoiam no exemplo de um objeto isolado. * O ser-à-mão é a determinação ontológico-categorial do ente encontrado próximo no mundo ambiente. * O utensílio se mostra no manejo, não em um olhar desinteressado. * A preocupação está voltada para a obra em curso, que é o para-que há utensílios. * A cadeia de remissões revela a totalidade do ente intramundano, incluindo o pão quotidiano, tudo no modo de ser-à-mão. * A exibição fenomenológica do mundo depende da possibilidade de fazer aparecer a mundanidade a partir dos utensílios. * Enquanto a atenção está voltada para as tarefas, a utensilidade como tal e a própria mão permanecem em retirada. * É necessário que haja modos de encontro do utensílio que indiquem seu ser. * As deficiências na preocupação revelam a utensilidade. * A inutilização do utensílio o torna conspícuo, fazendo-o passar do ser-à-mão ao ser-simplesmente-presente. * A falta do utensílio o torna importuno, revelando o conjunto do complexo. * A obstrução pelo utensílio o denuncia como simplesmente presente, como algo que estorva. * Essas deficiências exercem um papel redutivo, notificando o ser do ente intramundano. * O extremo é que o ser-à-mão específico se constitui no estar-fora-de-alcance. * Quando um utensílio falha, a circunspecção se depara com um vazio, a remissão constitutiva é interrompida e se mostra como remissão. * Com ela, a totalidade das remissões nas quais a preocupação já estava instalada se torna visível. * A perturbação da remissão torna explícita a estrutura de remissão, ainda que ôntica e não ontologicamente. * O todo do trabalho, a "oficina", se anuncia como um todo que a circunspecção já havia sempre visto de antemão. * Com esse todo, anuncia-se o mundo. * Para que o mundo se assinale através de uma ataxia referencial, ele deve ter sido revelado a priori. * A elucidação da mundanidade consiste em tornar patente o invisível distante de onde o visível próximo tira sua visibilidade. * A interpretação ontológica da remissão deve permitir alcançar o fenômeno deste mundo no qual o Dasein sempre já se encontra. * Para apreender o ser da remissão, Heidegger analisa um utensílio que condensa remissões múltiplas: o signo. * Tradicionalmente, o signo é algo que está no lugar de outra coisa, um tipo de remissão. * Mas pensar o signo sob o conceito formal de relação não é suficiente. * A experiência grega do signo o experimenta a partir do mostrar, sendo marcado por e para ele. * No mundo ambiente, o signo é primeiramente um utensílio que mostra. * É preciso diferenciar o signo da remissão comum. * O signo, como uma seta de direção, é um ente-à-mão que se insere no dispositivo da circulação. * Enquanto utensílio, ele é constituído pela remissão, mas sua função específica é sinalizar, mostrar, o que é uma nova forma de remissão. * Distingue-se assim a remissão como ser-útil-para... e a remissão como sinalização, que se funda na primeira. * O privilégio do signo reside em seu uso. * Ver um signo implica orientar-se no mundo ambiente, pertencendo ao ser-no-mundo espacialmente orientado e em caminho do Dasein. * O signo remete a todo o complexo de utensílios, mostra sua conexão referencial, fornecendo uma visão global do entorno. * O signo não é um substituto representativo, mas um utensílio que traz expressamente à circunspecção um conjunto de utensílios, anunciando assim o caráter mundano do ente-à-mão. * O signo indica a morada do Dasein, designa o lugar de ser do ser-no-mundo: o mundo. * O signo é um ente ôntico-à-mão que funciona simultaneamente como algo que mostra a estrutura ontológica do ser-à-mão, da totalidade das remissões e da mundanidade. * O signo, porém, é ainda um utensílio cujo ser deriva da remissão. É preciso compreender a própria remissão. * A remissão é o caráter de ser-remetido do ente-à-mão. * O caráter de ser do que é à-mão é a finalidade. * Na finalidade há: com algo, deixar finalizar a algo. * O termo remissão indica a relação do "com... a...". * A finalidade de um utensílio se inscreve em outra, até remeter a um para-que que não é mais um ente-à-mão, mas o Dasein. * O para-que primeiro é um em-vista-de-quê. * O em-vista-de... concerne sempre ao ser do Dasein, para quem, em seu ser, trata-se essencialmente deste ser mesmo. * A elucidação da finalidade deve proporcionar acesso ao fenômeno do mundo. * Deixar finalizar é deixar um ente-à-mão ser o que é. * Ontologicamente, "deixar-ser" significa descobrir sempre já o "ente" em seu ser-à-mão e deixá-lo vir ao encontro como ente deste ser. * Este deixar-finalizar "a priori" é a condição de possibilidade do encontro do ente-à-mão. * Nenhum ente intramundano possui uma finalidade própria. * A finalidade de um utensílio isolado só pode ressaltar uma vez manifesto o conjunto das finalidades do complexo do qual foi subtraído. * Isso pressupõe a compreensão da ordem das remissões, ou seja, da mundanidade do utensílio em geral. * Como essa mundanidade não é intramundana, é necessário que o Dasein tenha previamente revelado a mundanidade para apreender qualquer ente-à-mão. * A revelação prévia é a compreensão do mundo. * Sendo-no-mundo compreensivo de seu ser, o Dasein compreende de uma só vez o mundo mesmo. * O Dasein só pode encontrar um ente intramundano após ter compreendido, isto é, projetado, o conjunto do complexo referencial. * O onde o Daseis se compreende previamente no modo do referir-se é o aquilo-a-partir-do-qual do deixar-encontrar prévio do ente. * Esse onde da compreensão que se refere como aquilo-a-partir-do-qual do deixar-encontrar do ente com modo de ser da finalidade é o fenômeno do mundo. * A estrutura do aquilo-a-partir-do-qual o Dasein se refere é o que constitui a mundanidade do mundo. * O caráter de relação das relações de remissão é concebido como referir-significante. * Na familiaridade com essas relações, o Dasein se "significa" a si mesmo, se dá originariamente a compreender seu ser e poder-ser quanto ao seu ser-no-mundo. * A totalidade dessas relações, entrelaçadas em uma totalidade originária, é o que são enquanto este referir-significante pelo qual o Dasein se dá de antemão a compreender seu ser-no-mundo. * Essa totalidade é nomeada referência-significativa. * Ela constitui a estrutura do mundo, daquilo onde o Dasein como tal está sempre já. * A familiaridade do Dasein com a referência-significativa é a condição ôntica de possibilidade da descobertabilidade do ente encontrado em um mundo. * A referência-significativa é a mundanidade mesma, o modo de presença do mundo. * A referência-significativa mantém uma relação essencial com a ordem das significações e com o discurso, fundamento ontológico-existencial da língua. * Heidegger estabelece uma hierarquia: a referência-significativa contém a condição ontológica de possibilidade para que o Dasein possa revelar algo como "significações", que fundam o ser possível da palavra e da língua. * Contudo, uma anotação marginal de Heidegger contesta isso: "Falso. A língua não é estratificada, mas é a essência originária da verdade como 'aí'". * Além disso, se a língua é determinada por significações espaciais, a mundanidade como modo de presença não pode mais fundamentá-la quando a espacialidade excede todo sentido temporal. * Textos posteriores, como a conferência sobre Hölderlin, pensam a língua não como utensílio, mas como abertura do mundo e como acontecimento apropriador. * Se o Ereignis dá ser e tempo, a língua apropriadora não pertence nem ao ser nem ao tempo. * Portanto, o parágrafo que tenta estabelecer o sentido temporal do discurso deve ser tão insustentável quanto o que trata da temporalização do espaço. * A palavra e a língua não são as únicas a se excepcionarem do mundo. A determinação do ser do ente intramundano como finalidade é o pivô da hermenêutica existencial do mundo. * Nenhum utensílio pode ter uma finalidade própria. * Um ente com finalidade própria, diferente do Dasein, não teria caráter mundano. * Não há nada no mundo de que se possa dizer: "tem uma finalidade própria". Exceto a mão. * Em resposta à pergunta "Que significa pensar?", Heidegger afirma: "Com a mão tem-se uma finalidade própria". * A mão não pode ser determinada como um órgão carnal de preensão. * A mão está separada de todos os órgãos de preensão por um abismo de essência. * Somente um ser que fala, isto é, que pensa, pode ter mãos e realizar o trabalho da mão. * A mão possui uma "finalidade própria", invalidando a distinção entre um com-o-quê e um a-quê, pois manipular é a própria mão. * À parte, e talvez em lugar nenhum, a mão não tem finalidade. * A mão não é um utensílio, não está à mão nem simplesmente presente, não é intramundana, pois se exclui da rede das finalidades e da referência-significativa. * Para preservar a tematização do caráter de utensílio do ente próximo, poder-se-ia reconduzir a mão à utensilidade concebendo-a, à maneira aristotélica, como um utensílio de utensílios. * Aristóteles afirma que a mão é um utensílio para utensílios. * Essa determinação reaparece em um contexto importante: na discussão da proposição de que a alma é, de certo modo, todas as coisas. * Aristóteles acrescenta que a alma é como a mão, pois a mão é um utensílio de utensílios, o intelecto é forma das formas e a sensibilidade, forma dos sensíveis. * Essa comparação não é sem peso filosófico, pois iguala a ψυχή, que é revelação do mundo, à mão, o que só é possível se a mão for de mesmo estatuto. * Isso eleva a mão ao nível da mundanidade, confirmando o problema que deveria resolver. * A mão e a carne se desprendem do mundo, embora sejam requeridas para conferir sentido pleno aos conceitos de ser-à-mão e ser-simplesmente-presente. * A razão fenomenal para essa exceção reside na estrutura do aparecer intramundano. * A analítica do mundo ambiente descreve as condições de possibilidade do encontro do ente intramundano. * O aparecer é sempre um aparecer em cena, visto e apreendido de frente. * A mão e a carne em geral não podem vir ao encontro, não se oferecem em um face a face, não são apresentáveis, pois o deixar-encontrar está fundado temporalmente em um apresentar. * A mão e a carne não podem se manifestar no mundo porque a estrutura do aparecer intramundano lho proíbe. * O mesmo ocorre com o espaço, uma vez que ele não mais tira sua origem existencial da temporalidade, da qual o mundo é um modo de temporalização. * Subtrair o espaço à temporalidade é dizer que ele não está "no" mundo, contradizendo uma asserção mantida ao longo de Ser e Tempo. * Coloca-se então a questão se o espaço não está ligado à carne, e se essa ligação é o motivo de sua irredutibilidade.