====== Ciência como egologia (2014) ====== Franck2014 ===== 1. Telos da ciência e definição eidética da filosofia ====== * O propósito das Meditações Cartesianas consiste em elevar a filosofia ao estatuto de ciência rigorosa, isto é, à ideia de ciência verdadeira. * Ciência verdadeira é determinada teleologicamente pela evidência e pela verdade como seus correlatos, entendidos como ideais omni-temporais e intersubjetivos. * Ainda que tal ideal não seja efetivamente alcançável, ele orienta normativamente toda atividade científica enquanto fenômeno noemático. * O eidos da ciência é definido como um telos normativo e horizonal que prescreve uma ordem de conhecimento fundada na própria natureza das coisas. * Essa ordem implica um começo necessário e uma progressão não arbitrária, fundada em evidências que possuem prioridade intrínseca. * A questão fundamental torna-se, assim, a da evidência originária que pode fundar a ciência de maneira absoluta e apodítica. ===== 2. Evidência, redução e diferença em relação a Descartes ====== * A redução fenomenológica distingue-se radicalmente do método cartesiano da dúvida. * Ela não opera por negação, mas por suspensão, e possui caráter universal e definitivo, incluindo também a psique. * Verdade e realidade são compreendidas como correlatos noemáticos da evidência. * A evidência exige um trabalho sistemático de clarificação intencional, ausente em Descartes devido à sua pressuposição ingênua do sentido do ser e da realidade. * A perfeição da evidência comporta dois sentidos distintos. * Perfeição como adequação, quando a intuição preenche plenamente a intenção. * Perfeição como apoditicidade, quando o objeto resiste à aniquilação imaginária. * Esses dois sentidos não coincidem necessariamente, pois pode haver evidência inadequada que seja apodítica. * A questão do começo da ciência é reformulada como busca de uma evidência absolutamente prioritária, dotada ao menos de um conteúdo apodítico reconhecível. ===== 3. Rejeição da apoditicidade do mundo e viragem ao ego ====== * A evidência do mundo não satisfaz às exigências da apoditicidade. * O mundo, enquanto dado constante da experiência, permanece um simples factum e pode dissolver-se em ilusão. * A possibilidade de que não haja mundo conduz à reversão decisiva em direção ao ego cogito. * O ego cogito é afirmado como base última e apoditicamente certa para todo juízo filosófico radical. * A epoché suspende a crença ontológica natural no mundo, transformando-o em fenômeno que apenas reivindica ser. * Com isso, é colocada fora de jogo a tese naturalista que considera o mundo como realidade em si. ===== 4. Mundo natural, ontologia moderna e sentido histórico da redução ====== * O mundo da atitude natural não é o mundo-da-vida originário, mas o mundo copernicano-galileano da ciência moderna. * Trata-se de um conjunto de coisas materiais situadas num espaço-tempo homogêneo e infinito. * A atitude natural é acompanhada por uma ontologia que remete as aparências sensíveis a uma verdade física subjacente. * A redução possui, assim, o sentido histórico de suspender essa ontologia moderna tradicional. ===== 5. Proibição do plural e emergência do solipsismo transcendental ====== * A epoché implica a proibição metodológica de falar no plural. * Outros egos, animais, cultura e socialidade são reduzidos a meros fenômenos de ser para mim. * Essa proibição parece paradoxal, pois a linguagem e a significação pressupõem intersubjetividade. * O próprio termo solipsismo convoca implicitamente o outro que pretende excluir. * Husserl mantém, contudo, essa posição, pois a análise fenomenológica da linguagem é ela mesma solipsista. * A expressão é apreendida em sua pureza após a redução da indicação, isto é, da referência ao outro. * O mundo fenomenal é irredutivelmente meu, e somente a partir disso pode-se decidir sobre seu ser. * A ameaça do solipsismo é compreendida como ilusão transcendental, cuja única contramedida possível é a intersubjetividade. ===== 6. Campo transcendental, apoditicidade e problema da memória ====== * O ego não é uma premissa dedutiva, mas uma esfera ontológica aberta à intuição. * Surge, então, a questão de saber o que, nessa esfera, é apodítico e o que não é. * O passado não é imediatamente apoditicamente assegurado. * Apenas o núcleo da presença viva a si é dado adequadamente. * O ego apodítico implica, por lei essencial, a abertura de horizontes temporais. * A totalidade do domínio transcendental é absolutamente assegurada quanto à sua atualidade, embora permaneçam questões críticas abertas. * A fenomenologia transcendental desenvolve-se em dois momentos. * Um momento descritivo eidético, ainda não plenamente filosófico. * Um momento crítico, que não é efetivamente realizado nas Meditações Cartesianas. ===== 7. Distinção entre ego psicológico e ego transcendental ====== * Descartes falhou ao interpretar rapidamente o ego como psique. * Sem a distinção entre ego psicológico e ego transcendental, cai-se no realismo transcendental. * A alma permanece ligada ao mundo por sua referência à corporalidade. * Todo objeto do mundo é essencialmente encarnado. * A alma resulta da abstração da componente corporal, mas conserva referência a ela. * A consciência transcendental carrega o mundo e a psique como unidades intencionais de sentido. * O problema do modo de ser do ego transcendental permanece enigmático. * Questiona-se em que sentido ele é o mesmo e em que sentido não é o mesmo que o ego fático. ===== 8. Redução eidética e risco do empirismo transcendental ====== * A abertura do campo transcendental poderia conduzir a um empirismo transcendental se fosse caracterizada apenas por seu tema. * A redução eidética visa evitar esse risco. * A cada experiência factual corresponde uma ficção pura, e a ficção é elemento vital da fenomenologia. * A conversão plena em análise eidético-transcendental ocorre apenas com a tematização da autoconstituição do ego. * Permanecem dificuldades ligadas aos limites da apoditicidade e ao solipsismo. ===== 9. Intencionalidade como estrutura fundamental ====== * O deslocamento do centro do ego cogito para as cogitationes revela a intencionalidade como estrutura fundamental. * Toda vivência consciente é consciência de algo, independentemente da existência efetiva do objeto. * O cogitatum é incluído de modo irreal na cogitatio. * A reflexão introduz uma dificuldade aparente. * Ela altera a vivência originária, mas a dá como correlato intencional. * A reflexão não repete, mas descreve, e assim não mina o projeto fenomenológico. * A reflexão possui sentido temporal. * Ela pressupõe retenção e implica uma cisão do ego. * O ego mundano, o ego transcendental e o espectador transcendental articulam-se numa estrutura complexa. ===== 10. Presente vivo, retenção e analogia com o outro ====== * A unidade dos egos é assegurada pelo presente vivo. * No presente vivo, o eu coexiste como eu duplicado. * Husserl oscila quanto ao estatuto da retenção. * Em certos textos, a retenção é caracterizada como percepção. * Em outros, é oposta à percepção enquanto não-percepção. * Essa oscilação é decisiva, pois a retenção é condição da redução. * Se a retenção já implica alteridade, então o alter ego estaria desde o início implicado. * Surge, assim, a questão de saber se é possível uma egologia absolutamente pura. * Interroga-se se a fenomenologia não estaria condenada a contradizer suas próprias premissas.