====== Análise constitutiva (2014) ====== Franck2014 ===== 1. Extensão e profundidade do problema da constituição ====== * A problemática da constituição é abordada em toda a sua extensão e profundidade como operação fundamental da fenomenologia transcendental. * Quanto à extensão, a constituição manifesta a unidade sintética dos diversos atos da consciência e entrega o objeto a um olhar puro. * Essa operação concerne a todos os tipos possíveis de objetos e, de maneira prioritária, à possibilidade dos objetos em geral. * A constituição do objeto, enquanto ontologia formal, funda a hierarquia dos níveis do a priori e serve de base às ontologias materiais e regionais. * A análise constitutiva não se limita a objetos reais ou ideais, mas inclui também os objetos puramente subjetivos, isto é, as vivências imanentes. * Essas vivências são consideradas como objetos da consciência interna do tempo, na qual objetos transcendentes são constituídos. * A constituição estende-se, assim, até a autoconstituição do ego, e as sínteses constitutivas delimitam o campo integral da fenomenologia transcendental. * Quanto à profundidade, o conceito de constituição permite converter a ontologia tradicional em egologia fenomenológica. * Essa conversão torna manifesto o risco do solipsismo. * A questão da realidade não é abandonada com a redução, mas reencontrada nela como momento do sentido objetivo. * Se o ser não fosse inteiramente redutível a sentido, o idealismo fenomenológico seria insustentável. * Torna-se necessário mostrar que ser e não-ser, realidade e irrealidade, são constituídos na e pela vida intencional. ===== 2. Realidade, razão e redução fenomenológica ====== * No interior da redução, a questão da realidade é inicialmente colocada no plano noemático. * O problema surge do fato de que, no uso ordinário, objeto significa objeto realmente existente pertencente a uma categoria de ser. * O noema é definido como componente intencional da vivência, por exemplo, o percebido enquanto percebido na percepção. * O sentido noemático é indiferente à existência ou inexistência do objeto. * Isso não implica que o noema seja uma cópia mental da realidade nem um componente real da percepção. * A substituição da percepção por uma consciência de imagens é rejeitada, pois a consciência de imagem pressupõe a percepção. * A redução não elimina a relação com a realidade. * A consciência permanece consciência da realidade descrita em seu puro aparecer. * O noema conserva, portanto, um caráter de realidade que deve ser elucidado fenomenologicamente. ===== 3. Estrutura interna do noema e modalidades de ser ====== * Um mesmo objeto pode ser dado em diferentes estados noemáticos, conforme os modos de doação. * A árvore percebida, imaginada ou lembrada é sempre o mesmo objeto, mas com diferentes características de ser. * O objeto enquanto visado não deve ser confundido com o objeto enquanto tal. * As características de realidade, ficção e re-presentação pertencem ao objeto enquanto intencionado. * Essas características variam segundo os modos de doação e correspondem às modalidades dóxicas. * A realidade é o correlato noemático da certeza. * Essa análise permanece incompleta enquanto não se esclarece como o sentido se relaciona com o objeto. * Surge a questão da validade da relação objetiva e, com ela, os grandes problemas da razão. ===== 4. Núcleo noemático, sentido objetivo e identidade do objeto ====== * O noema comporta um núcleo ou sentido objetivo puro que estabelece a relação com o objeto. * Esse núcleo corresponde ao quid do objeto, abstraído de todos os modos de doação. * O núcleo noemático pode ser descrito mediante predicados formais ou materiais. * Todo predicado remete a um algo que funciona como portador das determinações. * Esse algo deve ser distinguido dos predicados, embora não possa ser separado deles. * É necessário distinguir o objeto enquanto ponto de identidade do objeto enquanto determinado. * O sentido, em sentido estrito, designa o objeto no como de suas determinações. * Esse sentido remete a um X idêntico que permanece o mesmo através da multiplicidade dos noemas. * O sentido obtido por abstração não constitui ainda uma essência concreta. * A completude do núcleo exige um modo de preenchimento adequado. ===== 5. Reabertura da questão da realidade ====== * Toda vivência intencional possui um noema que a coloca em relação com um objeto. * Nenhum objeto ou mundo pode ser independente da consciência na qual ele se anuncia necessariamente. * Coloca-se a questão de saber quando a identidade noematicamente visada é efetivamente a identidade real do objeto. * A distinção entre identidade meramente visada e identidade efetiva torna-se central. * Um objeto real é aquele cujas determinações podem ser fundadas e justificadas racionalmente. * No domínio lógico, ser verdadeiro e ser racionalmente demonstrável são correlativos. * O real e o racional mantêm, assim, uma correlação essencial. * A forma originária da consciência racional e constitutiva deve ser determinada. ===== 6. Doação originária, evidência e encarnação ====== * Distinguem-se duas classes de vivências posicionais. * As que dão o objeto originariamente, como a percepção. * As que o dão de modo re-presentativo, como a memória e a imaginação. * A memória é caracterizada como modificação da percepção. * O passado é dado como ter-sido-presente, isto é, como modificação do presente originário. * A diferença entre original e não-original não afeta o sentido, mas o modo de preenchimento. * O preenchimento originário corresponde à autodoação encarnada. * Quando a doação é originária e intuitiva, o noema integra a característica de presença encarnada. * Essa característica funda a posição do ser enquanto tal. * Apenas a evidência, entendida como doação encarnada, pode fundar a certeza. * Apenas a evidência assegura que o objeto intencionado é efetivamente real. * A evidência é o fenômeno originário da vida intencional e a forma estrutural a priori da consciência. * Constituir um objeto é reconduzi-lo à síntese dos atos evidentes que o dão na carne. ===== 7. Dificuldades da constituição da carne e da temporalidade ====== * A constituição da carne levanta dificuldades paralelas às da constituição do tempo. * Em ambos os casos, o que constitui deve também ser constituído. * A análise constitutiva exige a diferenciação contínua dos tipos de evidência. * Diferentes modos de ser implicam diferentes regimes de evidência. * A evidência correlaciona-se não apenas com ser e não-ser, mas também com modalidades como possibilidade, probabilidade, valor e bem. * Surgem dois problemas fundamentais. * Primeiro, o risco de reduzir a realidade a uma validade apenas para o ego solipsista. * A redução eidética seria a única via de superação, mas ela exige previamente o eidos do ego. * Segundo, a explicação do caráter em-si da realidade. * A realidade não pode ser independente da consciência possível, embora possa ser independente da consciência atual. * A referência a uma infinidade de evidências possíveis implica a referência a uma subjetividade infinita. ===== 8. Mundo, ideia kantiana e horizonte infinito ====== * O objeto transcendente é dado por adumbramentos em uma multiplicidade de aparições encarnadas. * O que aparece é sempre mais do que o que é dado estritamente. * Cada apresentação refere-se a uma infinidade harmônica de outras apresentações possíveis. * A doação adequada da coisa é uma ideia no sentido kantiano. * O mundo inteiro é uma ideia correlata de uma evidência empírica completa, ela mesma ideal. * A ideia de uma infinidade necessária não é ela própria infinita, mas é dada intelectualmente como ideia. ===== 9. Tarefas finais da análise constitutiva ====== * A análise constitutiva torna possível a autocompreensão transcendental do ego, de sua vida consciente e dos objetos por ela constituídos. * A questão da origem do mundo pode ser retomada a partir dessa base. * As regiões ontológicas formais e materiais funcionam como índices para um sistema de evidência. * Torna-se necessária uma teoria constitutiva da natureza física, do ser humano, da comunidade, da cultura e do mundo histórico. * A intersubjetividade é implicitamente pressuposta sempre que se fala de mundo real e objetividade real. * Permanece em aberto a questão de saber se a subjetividade concreta é originariamente intersubjetiva ou se o ego monádico é uma abstração. * O fundamento último da constituição é remetido à temporalidade imanente. * A vida fluente que se constitui a si mesma é apresentada como a base mais baixa de toda objetividade.