====== NOVA COMPREENSÃO DO SER (2010:101-105) ====== //Data: 2021-10-11 00:30// ==== TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO ==== === Introdução à Filosofia da Mitologia === //[FERREIRA DA SILVA, Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 101-105] “Introdução à Filosofia da Mitologia”, Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, v. 5, fase. 20, out./dez. 1955, p. 554-566. A pedido do filósofo Ernesto Grassi, este trabalho foi publicado na revista italiana Aut-Aut, em 1956, sob o título: “La Mitologia e l’Esperienza Tropica dell’Essere”.// Como encontramos diversas vezes afirmado nos trabalhos de Heidegger, é necessário renunciar às incitações do ente, inclusive do ente que somos, para receber a graça do Ser. De fato, o ente nada mais é do que o sugerido pela magia projetiva do Ser. O sugerido, entretanto, se manifesta como uma sugestão, como algo em relação ao qual nós subjazemos ou estamos entregues. Entregues ao sugerido do ente, só podemos interpretar o que nos é consignado e oferecido, fato que não só se realiza na figura presente do ente, como também e primordialmente no que há de ser do próprio oferecido. O Ser é o Sugestor da sugestão do sugerido. O ente viría a nós a partir da essência ek-stática da sugestão. O sugerido é o que é proposto, isto é, posto como imagem a cumprir, ou como imagem antecipadamente esboçada. Essas imagens não seriam as nossas imagens das coisas, imagens de imagens, mas sim as próprias coisas como imagens prototípicas. O sugerido originário das imagens seriam as coisas fluindo da imaginação prototípica do Sugestor. Eis por que a sugestão não poderia provir do ente ou das coisas, desde que esse ente já seria o sugerido pela instauração originária. O sugerido tem, entretanto, a sua fonte no Sugestor, sendo esse termo apto para designar o domínio projetante do Ser, isto é, o Aberto da liberdade instauradora. Frobenius afirmara ser o homem um “receptor de realidade”, ou ainda, um receptor de desempenhos possíveis. No fundo, o receptor e o recepcionado seriam uma só coisa, desde o momento em que compreendêssemos universalmente o ente como algo consignado por um poder transcendente e esse poder, por sua vez, como uma Lichtung des Seins. Não existiría, portanto, em primeiro lugar o homem como receptor e depois as diversas incitações aos “jogos” histórico-culturais. Pelo contrário, os desempenhos sugeridos, o ente revelado, constituem o próprio ser do protagonista, de forma que o jogar do jogo seria o próprio jogador. O jogo, porém, é o que sugestiona e fascina. Eis por que poderemos compreender a vigência do ente como Fascinação. Essa conexão de ideias deve levantar-nos a uma nova experiência do Ser, infensa a qualquer transcrição intelectualista, ou [101] que diga respeito ao conhecimento enquanto tal. Se uma aproximação do Ser só nos é facultada por um ultrapassar o oferecido do ente, e, portanto, por uma experiência do aberto do Ser, não devemos pensar esse domínio do aberto como uma simples vacuidade inerte ou como um não ser desválido e anódino. O Ser não é unicamente o prodigalizador de essências, mas sim e inicialmente o suscitador de paixões, a Fonte trópica de todos os comportamentos. Heidegger já ensinara que a ex-posição ao ente é sempre acompanhada de uma sintonização emocional com a totalidade do ente descoberto. O traçar do ente se manifestaria como a irrupção de um campo emocional e não como um simples desenhar de essências visualizáveis ou como um mundo de representações. Existiría mesmo uma precedência da Befindlichkeit, do encontrar-se afetivo no interior do ente, em relação ao prospecionar-se projetivo do ente. O desvelamento iluminante do ente se daria, portanto, como um stimmend Seinlassen von Seienden (((Um) Afinado permitir do ente. (N. O.))), como franquia emocional do ente descoberto. Entretanto, falar do Ser como força iluminante nos remete a um setor de metáforas de ordem visual e intelectualística, propenso a transviar-nos na compreensão da originalidade da experiência do Ser. Devemos ter em mente, na nossa meditação, a relação da dimensão da liberdade fundante com o sentido pulsional da realidade. O ente determinado como o sugerido em possibilidades manifesta-se, outrossim, como Fascinação, isto é, como o ser-tomado (Ergriffensein) pelo revelado enquanto revelado. A fascinação é o próprio rigor de uma projeção do mundo. A Fascinação é a essência última do ente, compreendido como realidade des-coberta pela Fascinação. A experiência do Ser dar-se-ia no adentrar-se, no intimizar-se com a força trópica da fascinatio. Poderíamos esclarecer esses mesmos fenômenos abordando-os por um ângulo mais ilustrativo. Para nós, o documento originário do Ser manifesta-se na vida prototípico-divina, isto é, na Mitologia. Se para Heidegger o “pôr-se em obra” da verdade do Ser dá-se na Poesia, para nós, essa deve ser, antes de tudo, compreendida como Poesia [102] transumana, como Poesia em si, como vida transcendente das potências divinas. Os Deuses encarnaram de maneira insuperável a fulguração imediata do Fascinator, os Deuses são essa fulguração imediata do Fascinator, os Deuses são essa fulguração mesma, enquanto vida produtiva em si e por si. Se meditarmos, por outro lado, na atuação dos Deuses no cenário da História, no contragolpe do seu debruçar-se sobre as coisas, verificaremos que a presença de um Deus manifesta-se sempre e essencialmente como Fascinação e através de um despertar de um mundo de paixões. A Teologia cristã acostumou-nos a considerar unicamente Satanás como o Tentador, não tendo em vista que o seu polo oposto divino também se manifestava à sensibilidade cristã como tentação e atração amorosa, como Fascinação. A diacosmese de um Deus é a área revelada pelos eros divino, é o que se prospeciona e delineia por força dessa teofania. É a partir de uma experiência do divino que devemos alçar-nos a uma experiência idônea do Ser. Seguindo as insinuações dessa experiência veremos, em primeira linha, que o fundo oculto da realidade não é uma substância inerte ou indiferente, ou uma Ideia, mas sim uma inexaurível Fonte de Atrações, uma instância mágico-transcendente que suscita o soerguer-se do ente enquanto configuração fascinada. O Ser é o Sugestor, o Fascinator, aquilo cuja manifestação ou fulguração se dá como polo pulsional erótico e que traça ou des-vela as coisas ao fasciná-las. Eis por que Heidegger relaciona a proximidade do Ser com a experiência do estranho, do espantoso (Ungeheure), desde que essa experiência nos remete ao Poder selvagem e incalculável que comanda a instrução dos mundos. A compreensão do Ser, como essência fundante, acompanha a experiência desse mesmo Ser, como propensão abismal além do já fundado, como luta de princípios na sequência do divino. O apelo do sagrado faz-nos romper com as possibilidades dadas, com o ente assegurado, através do vir a nós de novas possibilidades e do sortilégio de uma singular epifania. Inicialmente, entretanto, esse chamado se manifesta unicamente como inquietação do espírito, como vertigem do [103] abismo que ainda não irrompeu num novo meio-dia do sagrado. O “ser fascinado” além do já dado é a experiência da experiência da essência trópico-fascinante do Ser. O domínio do Ser é um Poder Passional, um foco de propensões e de parcialidades, e não um domínio isento e equilibrado. Eis por que a experiência do Ser é uma experiência de arrebatamento e de sugestão. Se para caracterizarmos a atuação essencial do Ser falávamos de uma destinação do Ser (Schickung des Seins) de uma consignação de possibilidades, devemos ter em mente que isso implica um ater-se ao consignado, um ser tomado pelo ente oferecido. Entretanto, esse abandonar-se e subsumir-se ao oferecido, a ponto de que o receptor é o próprio oferecido, constitui a essência da Fascinação. Se a consistência última do Ser se esgota no iluminar projetivo, de forma a se resolver, em última instância, num poder consignante inexaurível, então podemos identificar a área do Ser com um puro foco fascinante. A realidade do Ser traduz-se nesse poder mágico-poético, nessa fascinação omnimoda. Além do já conseguido, manifesta-se o Poder consignante transcendente, além do oferecido manifesta-se o Oferecer do ainda não oferecido, além do fascinado se insinua o Poder mágico-encantatório do Ser. O Ser é um baixar da balança, um princípio faccioso, tendencioso, um contínuo “escolher” instaurador. Assim como se manifesta na figura singular dos deuses essa ameaça arrebatadora, esse rapto instituidor do ente, assim também, e por antonomásia, a dimensão do Ser se manifesta como a dimensão trópica por excelência. É ela o reino do tendencioso, não pelo fato de preferir isso àquilo, desde que não existe ainda o isso ou o aquilo no reino ek-stático do Ser, mas por projetar facciosamente as tendências e as formas pulsionais do cenário do mundo. E como no sugerir do Sugestor se esgota a alma do Ser, é-nos lícito caracterizá-lo como domínio tendencioso e ameaçador. O que é ameaçado do Ser é o ente em sua totalidade, é o direito adquirido do já consignado do ente. O permanecer no já instituído e fundado constitui o puro errar no não fundamento. É o errar que in-siste em si mesmo e que se quer proteger contra o abismar-se [104] no Abismo fundante. De nada vale ao esquecimento, entretanto, empunhar o esquecimento contra a memorização do memorável do Ser, desde que a essência nadificante do Ser rói, em suas bases, o edifício do esquecimento. Essa atuação nadificante do Ser ou Fascinator é, em sua essência, o próprio pensamento do Ser, como ir além de todo o ente. Esse novo pensar pensa o Fascinator e é o próprio Fascinator, como ruptura mágica do esquecimento. {{tag>"Ferreira da Silva"}}