====== Humor ====== LDMH * A manifestação do humor heideggeriano como disposição afetiva fundamental * O humor na obra de Heidegger não deve ser apreendido como mera comicidade ou diversão, mas sim como uma tonalidade afetiva específica que perpassa os cursos do autor sob um tom imperturbável (pince-sans-rire), o qual convida o leitor atento a uma alegria ontológica decorrente da compreensão de que os enigmas do ser não são indutores de um fechamento indestrutível, mas de uma abertura inteligível. * A tradução do termo dialetal (das Kuinzig) como nosso humor (notre humour) proposta por Jean Beaufret revela que essa disposição não é um conceito universal abstrato, mas uma transmutação subjetiva e cultural pela qual o ente humano suporta o insuportável, opondo o espírito de sutileza (esprit de finesse) ao peso da existência ou ao tédio vital (taedium vitae). * A hermenêutica do termo Kuinzig e a visão por trás da luz * A exegese de Fritz Heidegger sobre o termo regional de Meßkirch propõe uma subversão da locução comum levar alguém atrás da luz (einen hinters Licht führen), transformando o que seria uma mistificação ou trapaça em uma manobra epistemológica onde, ao retirar-se do ofuscamento do centro da luz, o sujeito alcança a clareza total sobre o real. * O uso lúdico e terapêutico da linguagem praticado por Fritz Heidegger funcionava como um contraponto ao entorpecimento da rotina, pois ao devolver a palavra à própria língua e ao seu poder de dizer, estabelecia-se um justo equilíbrio no uso da linguagem que permitia o retorno a uma relação autêntica com o mundo, alterada pelos hábitos cotidianos. * A aplicação prática do (kuinzig) manifestou-se na interpretação política e filosófica quando, ao ser questionado sobre o conceito de Armação (Das Ge-stell), Fritz Heidegger utilizou a ironia para conectar a técnica moderna à figura de Mao-Tsé como o (Ge-stell) de Lao-Tsé, demonstrando a capacidade de síntese e desmitificação inerente ao termo. * A intersecção entre a Ironia Socrática e o Saber Alegre * Martin Heidegger aproxima o (kuinzig) da ironia socrática no sentido de que ambos resistem à redução conceitual, constituindo-se como uma disposição de ânimo que amalgama a alegria à profunda melancolia, permitindo uma soberania existencial diante das seriedades mundanas sem incorrer em arrogância ou escárnio malevolente. * Esta disposição implica uma inclinação nativa e uma solicitude (sollicitude) pelos entes que permanecem imperscrutáveis, conferindo à alta reflexão uma afinidade com o essencial através da penetração no imperceptível, o que possibilita a unificação das dissonâncias do real em uma unidade superior e dinâmica. * O saber alegre (gai savoir) cultivado na atmosfera do caminho é identificado como a essência do humor heideggeriano, caracterizando-se como uma qualidade inata que, embora aparente ter o coração pesado, floresce na mutação das estações como uma forma de conhecimento afetivo que não se adquire, mas que se cultiva a partir de uma predisposição já presente.