====== Factividade (Die Faktizität) ====== LDMH * No vocabulário de Heidegger, pelo menos até //Ser e Tempo// (1927), a palavra //Faktizität// desempenha um papel determinante. * Antes da tradução de François Vezin (1986), o termo fora infelizmente traduzido para o francês por //facticité// (facticidade). * Este era um erro; não se deve perpetuar um erro, pois transmitir erros gera o oposto da verdadeira tradição: o obscurantismo. * O termo //Faktizität// é uma espécie de corpo estranho no alemão. * Nem sequer aparece no imponente //Deutsches Wörterbuch// dos irmãos Grimm. * No entanto, Heidegger não hesita em recorrer a ele para nomear um fenômeno que habita o coração de toda existência. * Fenômeno: viver – como modalidade própria de ser para o //ente que somos a cada vez cada um de nós// – exige que o //façamos//. * Viver, para nós humanos, significa: //factividade//. * Como um alemão ouve //Faktizität//? * Ouve-o como uma palavra vinda do latim //facere// (fazer). * A palavra soa a latim, como //Popularität// ou //das Nationelle// em Hölderlin, que esperava que fossem mais audíveis para alemães no que dizem do que seus homólogos germânicos. * Em Hölderlin encontra-se também o adjetivo-advérbio //faktisch//, para dizer, com todo o relevo da fala ouvida a partir de outra língua, que se trata precisamente de: //fazer o que é preciso fazer para que seja feito o que há a fazer//. * Não que viver seja um //fato//; fazer a experiência de viver em sua factividade implica interrogar-nos sem tréguas para além dos fatos para saber o que temos a fazer. * Em francês, entre gramáticos, existe efetivamente a palavra //factitif// e a noção de verbo //à être fait, factif//. * Definição: //que indica que o sujeito do verbo faz fazer a ação.// * Por que razões obscuras seria inoportuno fazer ouvir, graças ao termo //factivo// (não registrado em dicionários, mas conforme ao espírito da língua), a acepção precisa: //que indica que o sujeito do verbo tem a fazer a ação?// * Tudo o que é factivo //tem de ser feito// – e é feito, mesmo que num contraste muitas vezes mal suportável entre, por exemplo, o que é feito e o que deveria ser feito. * A factividade não é outro senão o rosto da própria condição humana, quando aparece em seu duplo dilaceramento. * Entre, por um lado, o que há a fazer e o que não deve ser feito. * Entre, por outro lado, o que deveria ser feito e o que é efetivamente feito. * Factividade, não facticidade. * Se o que é feito pode frequentemente apresentar um caráter factício (artificial e, no fim, falso), o sentido no qual se desenrola a condição humana não é o de ser factícia. * A factividade, pelo contrário, designa uma das possibilidades mais altas da existência humana: a de //entender-se a fazer ser//. * //Facio// é em latim o correspondente do grego //tithêmi// (pôr, estabelecer). * Factivamente, estamos sem cessar a fazer algo, mesmo que seja, na maioria das vezes, //nem feito nem por fazer//. * A verdadeira relação entre factividade e facticidade é que a factividade é propriamente aquilo que a facticidade nunca consegue ser senão de modo impróprio. * Na realidade, portanto, a factividade compreende a facticidade, e não o inverso.