====== Destino ====== LDMH * Dois termos alemães, //das Geschick// e //das Schicksal//, correspondem ao que designa o vocábulo //destino// em português. * Em ambos se ouve o radical do verbo //schicken// (enviar, endereçar), significação que carrega a palavra //destinação//. * Aparição dos termos em //Ser e Tempo//, nos parágrafos 74-75, no contexto da historicidade (//Geschichtlichkeit//) do Dasein. * Do passado nos chega tudo aquilo a que devemos nos expor para que se abra uma possibilidade de futuro verdadeiro. * //Schicksal// (destino) é definido como //aquela aventura originária do Dasein, una com a resolução autêntica, na qual, sendo livre para a morte, o Dasein se entrega a si mesmo ao abraçar uma possibilidade da qual é herdeiro, mas que no entanto escolhe//. * //Geschick// (destino comum) assinala o impacto, sobre este fenômeno, do fato de os humanos serem-com (//Mitsein//). * Destino perde assim qualquer traço de fatalismo na analítica existencial. * A história a que a noção de destino dá acesso não pode ser alcançada por nenhum conhecimento historiográfico objetivo. * À história verdadeira cada um pode e deve tomar parte; cada um, de fato, toma sua parte. * O indivíduo é convidado a reconhecer, em meio a uma imensa herança, o que lhe pede para ser continuado e que, consequentemente, deve escolher. * Referência à //Ifigênia em Táuride// de Goethe (Ato III, Cena 2) no §74: //o fato de o Dasein escolher seu herói//. * Isso sublinha o impacto, sobre a existência singular e seu presente, de um passado não revogado e de um futuro que já chega. * Termo //historial// (de Henry Corbin) põe em evidência que a existência humana é ela mesma historial: a história é a dimensão mesma em que o humano desdobra sua existência, saiba-o explicitamente ou não. * Aprofundamento do pensamento heideggeriano sobre a relação entre existência e história após 1927 constitui um belo efeito da historicidade. * A palavra //Schicksal//, primeiro requisitada para esclarecer a noção de história, será ela mesma escrutinada sob outra luz. * Sob esta nova luz, seu conteúdo se matiza com traços propriamente inauditos que fazem bascular a compreensão da história. * Esta outra luz é a do pensamento poético de Hölderlin. * É aí que Heidegger aprende a escutar de outro modo o que diz o termo //Geschick//, que acaba por preferir a //Schicksal// para dizer o que lhe importa primordialmente. * Há todo um registro de acepção de //Geschick// onde a ideia corrente de destino não tem mais o menor curso. * Quando a palavra é empregada para sublinhar uma feliz aptidão para agir e reagir às situações com pertinência, senão mesmo com elegância. * Em português, a palavra //chic// é um eco remoto dessa acepção. * O que assim se diz é, sem dúvida, a capacidade que permite enfrentar o que vem ao seu encontro. * Esta atitude resume-se a poder tomar a postura conveniente para receber como convém o que chega. * A partir desta compreensão é necessário ouvir duas locuções recorrentes nos últimos escritos de Heidegger: //Geschichte des Seins// e //Seins-Geschick//. * Trata-se da história do ser, mas tal que esta história se //destina// à humanidade. * Sugestão de Alexandre Schild: traduzir ambas as locuções por uma única expressão: //história-destinada do ser//. * Em //destinada//, deve-se ouvir alternadamente o substantivo e o particípio passado. * Que esta história nos seja //destinada// implica que estejamos em condições de lhe fazer acolhimento, e não que ela venha sobre nós como uma sorte ante a qual nada podemos.