====== 23 Energetismo ====== //NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.// **CAPÍTULO 23 — O Bem (Energetismo)** 1. Discutiram-se várias visões do bem e apontaram-se suas insuficiências, de modo que se crê ter ficado mais claro o que está implicado na verdadeira compreensão do bem, passando-se agora a considerar o bem que deve ser a meta de nossa vontade, isto é, o padrão que deve determinar o valor de nossa conduta. 2. Como se disse antes, devemos buscar a base dos juízos de valor na experiência direta encontrada em nossa consciência, e o bem deve ser articulado a partir das exigências internas da consciência, não de fora. 3. Não podemos explicar como uma coisa deve ser simplesmente a partir de como é ou de como ocorreu, e o padrão último da verdade se encontra na necessidade interna da consciência. 4. Pensadores fundacionais como Agostinho e Descartes partiram desse ponto, e nós também devemos buscar nele o padrão fundamental do bem. 5. A ética heterônoma localiza o padrão do bem e do mal fora de nós; adotando essa perspectiva, tal ética não pode explicar por que devemos fazer o bem. 6. Em comparação, a abordagem adotada pela teoria racional, na qual o valor do bem e do mal é determinado a partir da razão como uma das atividades internas da consciência, é um passo adiante — mas mesmo assim, a razão não pode determinar o valor da vontade. 7. Como Hoffding indicou em sua afirmação de que a consciência começa e termina com a ação da vontade, a vontade é um fato mais fundamental que a atividade do entendimento abstrato — não é que a atividade do entendimento abstrato dê origem à vontade, mas que a vontade controla essa atividade. 8. Poderia ser aceitável para as teorias hedônicas afirmar que sentimento e vontade são provavelmente manifestações do mesmo fenômeno com forças diferentes, mas como se viu antes, o prazer surge da satisfação das exigências inatas da consciência, e tais exigências inatas como impulsos e instintos são mais fundamentais que sentimentos de prazer e desconforto. 9. Para explicar o bem é claro que devemos investigar o caráter da vontade. 10. A vontade é a atividade unificadora fundamental da consciência e uma manifestação direta do poder unificador fundamental da realidade. 11. A vontade implica ação para si, não por causa de outro. 12. A base para a determinação do valor da vontade só pode ser buscada na própria vontade. 13. Como se afirmou na discussão da natureza da conduta, a ação da vontade tem o seguinte caráter: na base da vontade estão exigências inatas (as causas da consciência) que aparecem na consciência como conceitos-meta que unificam a consciência; quando tal unificação atinge a completude — quando os ideais são realizados — sentimos satisfação. 14. Quando vamos contra esses ideais, sentimos insatisfação. 15. Porque aquilo que determina o valor da conduta jaz inteiramente nessas exigências fundamentais e inatas da vontade, quando realizamos completamente essas exigências (nossos ideais), nossa conduta é louvada como boa, e quando agimos contrariamente a elas, nossa conduta é censurada como má. 16. Consequentemente, o bem é a realização de nossas exigências internas, nossos ideais; é o desenvolvimento e a completude da vontade. 17. A teoria ética que se baseia em tais ideais fundamentais é chamada energetismo, e sua origem se encontra em Platão e Aristóteles. 18. Aristóteles escreveu que a meta da vida humana é a felicidade (eudaimonia), e que alcançamos essa felicidade através da ação perfeita, não através da busca do prazer. 19. Muitos assim chamados moralistas negligenciam esse aspecto da ação. 20. Focando no dever e nas leis, creem que a natureza fundamental do bem é suprimir os desejos do si e restringir a ação. 21. Carecendo de uma compreensão do verdadeiro significado de nossas ações, nós, seres imperfeitos, é claro frequentemente caímos em apuros — de modo que é apenas natural que as pessoas falem de suprimir desejos e restringir a ação. 22. Mas é apenas porque há uma exigência maior a ser cultivada que precisamos suprimir exigências menores; portanto suprimir todas as exigências indiscriminadamente de fato contraria a natureza fundamental do bem. 23. O bem deve incluir uma qualidade de autoridade imperativa, mas o gozo natural é uma qualidade mais necessária. 24. Não há valor inerente no dever moral e na lei moral em si, pois surgem com base nas grandes exigências discutidas antes. 25. Dessa perspectiva, o bem e a felicidade não conflitam, e como Aristóteles podemos dizer que o bem é a felicidade. 26. A satisfação das exigências do si ou a realização dos ideais sempre constitui felicidade. 27. Embora esse sentimento de felicidade necessariamente acompanhe o bem, não podemos sustentar — como fazem as teorias hedônicas — que o sentimento de prazer é a meta da vontade e que o prazer é o bem. 28. Embora se assemelhem, prazer e felicidade são diferentes. 29. Podemos alcançar a felicidade através da satisfação, e a satisfação surge na realização de exigências de ideais. 30. «Comer alimento grosseiro, beber água e dobrar o cotovelo para fazer um travesseiro — o prazer também reside nisso», disse Confúcio. 31. Dependendo das circunstâncias, somos capazes de manter a felicidade mesmo em meio à dor. 32. A verdadeira felicidade é na verdade algo adquirido através da realização de ideais. 33. As pessoas é claro frequentemente veem a realização dos ideais do si ou a satisfação das exigências como idênticas ao egoísmo e ao egoísmo; mas para nós a voz das exigências internas mais profundas do si tem grande poder, e não há nada na natureza humana mais inspirador de temor reverente que isso. 34. Assumindo que o bem é a realização de ideais e a satisfação de exigências, de onde surgem essas exigências ou ideais e que tipo de caráter tem o bem? 35. Porque a vontade é a atividade unificadora mais profunda na consciência — isto é, a ação do si —, as exigências ou ideais fundamentais que se tornam a causa da vontade surgem do caráter do si e são o poder do si. 36. Em nossa consciência, uma unidade interna sempre funciona na base do pensamento, imaginação, vontade, percepção, sentimento e impulso; e todos os fenômenos de consciência são o desenvolvimento e a completude dessa unidade. 37. O poder mais profundo que unifica esse todo é o nosso assim chamado si, e a vontade é aquilo que mais completamente expressa esse poder. 38. Assim, o desenvolvimento e a completude da vontade não são outra coisa que o desenvolvimento e a completude do si, e o bem é o desenvolvimento e a completude — a autorrealização — do si. 39. O sumo bem, em outras palavras, é que nosso espírito desenvolva suas várias habilidades e alcance um desenvolvimento perfeito. 40. Desse modo, a entelecheia de Aristóteles é o bem. 41. Para um humano exibir sua natureza inata — assim como um bambu ou um pinheiro exibe plenamente sua natureza — é o nosso bem. 42. Espinosa disse que a virtude é funcionar de acordo com a própria natureza do si. 43. Dessa perspectiva, o conceito de bem se aproxima do de beleza. 44. A beleza é sentida quando as coisas são realizadas como os ideais são realizados, o que significa que as coisas exibem sua natureza original. 45. Assim como as flores são mais belas quando manifestam sua natureza original, os humanos atingem o pináculo da beleza quando expressam sua natureza original. 46. A esse respeito o bem é beleza. 47. Não importa quão sem valor a conduta possa parecer quando vista à luz das grandes exigências da natureza humana, quando é conduta verdadeiramente natural emergindo dos talentos inatos da pessoa, evoca um sentido de beleza. 48. No reino moral essa conduta igualmente dá origem a um tipo de sentimento magnânimo. 49. Os gregos consideravam o bem e a beleza idênticos, ideia mais evidente em Platão. 50. Além disso, de certo ângulo, o conceito de bem coincide com o conceito de realidade. 51. Como se discutiu antes, o desenvolvimento e a completude de uma coisa é o modo fundamental de estabelecimento de toda realidade, e espírito, natureza e universo vêm a existir por esse modo. 52. O bem, concebido como o desenvolvimento e a completude do si, equivale a obedecermos às leis da realidade chamada si. 53. Isto é, unir-se à verdadeira realidade do si é o sumo bem. 54. As leis da moralidade assim passam a ser incluídas nas leis da realidade, e somos capazes de explicar o bem em termos da verdadeira natureza da realidade chamada si. 55. Exigências internas, que são a base dos juízos de valor, e o poder unificador da realidade são um, não dois. 56. A visão de existência e valor como separados vem de um ato de abstração que distingue objetos de conhecimento de objetos de sentimento e vontade; mas na realidade concreta existência e valor são fundamentalmente um. 57. Assim, buscar o bem e a ele retornar é conhecer a verdadeira realidade do si. 58. A noção de verdade e bem como idênticos na teoria racional é parcialmente verdadeira, mas conhecimento abstrato e o bem não coincidem necessariamente. 59. Conhecer a verdadeira realidade do si significa ter uma realização existencial. 60. As ideias acima são fundamentais para a posição de Platão (de que a ideia do bem é o fundamento da realidade) na Grécia e para os Upanishads na Índia. 61. E na filosofia medieval encontramos a expressão «Toda realidade é boa» (omne ens est bonum). 62. Penso que tais ideias constituem a noção mais profunda do bem. {{tag>"Escola de Kyoto" Nishida bem energia}}