====== "Não cedas de teu desejo" ====== //STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.// “Não cedas de teu desejo” nos introduz no estatuto clínico da psicanálise. Somos, portanto, introduzidos num universo em que se move o sujeito do desejo. Para ele, no entanto, é aberto um espaço produzido por uma outra ética, diferente daquela que seria um juízo negativo sobre a ação. Trata-se de uma outra ética, aquela que consiste num modo de ser por meio de um modo de proceder. “Ne cède pas sur ton desire” deve, portanto, trazer indicações para uma outra ética. A tendência que temos de traduzir o comando que vem do enunciado e não o enunciado que vem de um comando, nos permite proceder com o enunciado, duvidando, primeiro, que se trata de um enunciado. Um dos modos de não entendê-lo como enunciado, e de ceder ao comando, é presumir que nele se abra um abismo. Podemos configurar este abismo traçando as margens do abismo. Ao fazê-lo, podemos tentar, primeiro, simbolizar o abismo com um sinal que aponta para algo que falta no enunciado, que estaria representado por... Estes três pontos — ou o silêncio que nos leva a fazer — são o próprio abismo. Temos, portanto, em “não cedas ... de teu desejo,” o aceno para o fato que separa “não ceder” e “teu desejo”. Ao ter traçado as margens, elas foram suspensas naquilo que é o abismo entre elas. Este abismo chegará o momento, será preenchido por um outro enunciado. Temos, portanto, um enunciado que separa um comando e um comando que separa um enunciado. Desse modo, o que parecia ser um imperativo, permanece na primeira margem. E aquilo que representaria o objeto do imperativo estaria na outra margem. As margens, portanto, são sustentadas por aquilo que não está e que, quando aparece, modifica o enunciado que sustenta o comando. Assim, comando do enunciado e enunciado do comando. Se considerarmos “não cedas ao teu desejo” como comando de um enunciado, pensamos algo diferente do que quando na frase percebemos o enunciado de um comando. Se a frase que aparece na pergunta se referir a esse campo do Outro, então, ceder de seu desejo seria abandonar esse campo e perder o que é próprio. O difícil é definir o que significa que o desejo seja próprio, pois, na medida em que o sujeito em Lacan é sempre um sujeito cindido, não sabemos a que lado da “divisão do sujeito” se refere esta espécie de comando. Essa é justamente a questão na qual se funda a própria ideia da psicanálise. “Digo que o sujeito, ao mesmo tempo em que é o sujeito, funciona como dividido. Aí reside, inclusive, todo o alcance do que instauro. Devo dizer-lhe que esta divisão do sujeito eu a consagro, denuncio, demonstro por outras vias que não esta, reduzida, de que me sirvo aqui, e que, aliás, não dá conta absolutamente da divisão em si. Eu precisaria ter feito algo cuja referência me proíbe taxativamente de trazer esta noite, porque não se deve pensar que falei daquilo que, se me permitem, eu chamaria, para ir mais rápido, não apenas meu ensino, mas minha doutrina, e do que daí resultasse” (p. 63). Depois dessa afirmação, Lacan acrescenta: “Nessa divisão há um elemento causal que é o que chamo de objeto pequeno a.(...) Isso tem uma relação mais estreita com a estrutura do desejo” (p. 63). E o autor continua mais adiante: “Então, para dizer que esse sujeito era dividido, simplesmente indiquei suas duas posições em relação à função da linguagem. Nosso sujeito como tal é, o sujeito que fala, se quiser, pode muito bem reivindicar a primazia, mas nunca será possível considerá-lo pura e simplesmente livre iniciador de seu discurso, na medida em que, sendo dividido, está ligado a esse outro sujeito, que é o do inconsciente, e que se verifica ser dependente de uma outra estrutura linguageira. A descoberta do inconsciente é isso.” (p. 64). Nisso que escutamos está resumida a questão implícita no comando “não cedas do teu desejo”. Poderia muito bem falar o primeiro sujeito e reivindicar a primazia, entretanto, como ele está ligado a outro sujeito, o do inconsciente, ele está dependente da estrutura desse sujeito que se estrutura como linguagem. E a esse sujeito que se dirige o comando da frase anterior. É ele quem não deve ceder de seu desejo. A frase, portanto, quer dizer que o outro sujeito não deve ceder daquilo que aparece na estrutura da sua linguagem, que se constitui do desejo. {{tag>"Ernildo Stein" Lacan desejo}}