===== ERNILDO STEIN (2015:106-108) – Verstehen ===== Poderíamos nos referir a dois tipos de guarda-chuva: o primeiro seria a ontologia fundamental, proposto por Heidegger, que estaria ligado intensamente à compreensão do ser. A unidade seria dada, assim, a partir da analítica existencial, a partir da análise do ser humano. Já o segundo elemento abrangente consistiria na proposta de partir de uma antropologia, da qual viria a unidade. Todos os campos da Filosofia seriam pensados a partir da antropologia filosófica. Teríamos duas propostas ligadas à condição humana. Mesmo que não referida explicitamente, em ambas estaria escondida a metafísica. Na antropologia teríamos oculta a metafísica ingênua, sem a ação da diferença ontológica, que confunde o ser com o ente. Já a ontologia fundamental trabalha com a metafísica desconstruída, livre da entificação e do objetivismo. Cremos que é possível deixar o problema mais claro partindo da tradução do verbo Verstehen. Teríamos, então, motivos para falar das suas orientações. A primeira dirigir-se-ia para a “metafísica dos enunciados”; a segunda conduzir-se-ia para a “metafísica da compreensão”. Nossa tarefa seria encontrar uma possível ligação entre ambas e mostrar a diferença dos dois modos de buscar a “unidade”. Temos, portanto, um verbo: Verstehen, que pode ser traduzido tanto por entender como por compreender. Com a primeira tradução tomaríamos o termo Verstehen como entender palavras, frases, comportamentos. Efetivamente, se tivermos isso, teríamos como fundamento o ser humano como um ser que tem o logos, aquele que tem a capacidade da palavra. E aquele que a tem é capaz de se entender e entender os outros (as razões dos outros) por meio da palavra. Assim, um enunciado é possível por intermédio do entender. O ser humano pode entender o que é verdadeiro e falso e decidir o que é bom e mau. Então, a partir do verbo entender, poderíamos desenvolver um conjunto de elementos ou conceitos fundamentais que constituem uma espécie de antropologia. O ser humano é um animal que se comunica com outros pelo entender; ele se comunica, entende os outros, portanto o entender seria uma espécie de essência do modo de ser do ser humano. O que diríamos ao final? Onde nós encontramos seres humanos? Ali onde nós ouvimos frases que fazem sentido. (107) O ser humano, portanto, é todo aquele ser capaz de construir e entender enunciados assertóricos predicativos. Esse é o ser humano. A partir daí poderíamos desenvolver longamente a questão da lógica, da ética, da Filosofia da linguagem, das teorias da [[termos:v:verdade:start|verdade]]. Temos, portanto, um guarda-chuva indo em direção a um tipo de ser humano enquanto ele tem essa qualidade fundamental, que é a qualidade de poder entender e se comunicar com os outros, entender a si mesmo e o seu mundo e entender a si mesmo como a fonte de todos os campos. Tugendhat escreveu um livro sobre isso — Antropologia em lugar de metafísica — em que ele propõe a antropologia como o guarda-chuva. Em todo caso, não podemos recusar essa direção acerca do entender palavras, comportamentos, entender enunciados sobre coisas, sobre o mundo, entender enunciados sobre como agir, sobre ética. Podemos aceitar isso. A pergunta é: essa antropologia filosófica do entender tem suficiente radicalidade, isto é, abrange efetivamente todo modo de ser do ser humano? Se, entretanto, traduzirmos a palavra Verstehen por compreender, vamos ter, em primeiro lugar, uma questão essencial: compreender o quê? Eu compreendo a cadeira, compreendo os objetos? Esse uso não funciona mais. Compreender abre um espaço diferente daquele do entender. Ele sempre está operando quando entendemos. O compreender tem uma função antecipadora, quer dizer, ele sempre é pressuposto onde se entende. Então, poderíamos pensar isso da seguinte maneira: há uma dupla estrutura que está implícita na relação entre significado e objeto. Esta estrutura se dá no conceito de mundo, no compreender e no nível do dizer que aponta para o horizonte de sentido. É uma estrutura que se expressa por meio do enquanto (ais). Quando dizemos “eu compreendo o que é o celular”, compreendemos aquele objeto enquanto celular, pois já faz parte do mundo de objetos, em que há uma dimensão de uso que posso fazer do objeto. Há uma dupla dimensão: os entes simplesmente existentes e os entes disponíveis, os quais podem ser usados como instrumentos, artefatos. Diz-se também: eu compreendo aquele problema, aquela pessoa, mas enquanto tal, porém, o que significa enquanto? Se não acharmos nada para colocar no lugar do enquanto, não vamos adiante. Dizemos algo e entendemos algo enquanto (108) tal, contudo não podemos, ao mesmo [[termos:t:tempo:start|tempo]], dizer que compreendemos e entendemos algo do mesmo modo. Temos de dizer que um modo está implicado no outro modo. Então, entra em cena a questão do compreender e do ser. Compreendemos o ser apenas ligado ao ente, assim como compreendemos o ente apenas ligado ao ser. Com isso, entramos em um campo em que também compreendemos nosso modo de ser porque somos ente e como tal nos compreendemos enquanto somos. Assim, temos uma dupla estrutura que vai manifestar-se nos enunciados, nos quais ou ela ocorre de uma maneira afirmativa ou negativa ou ela se dá na medida em que o afirmativo e o negativo manifestam-se em um nível prévio, que, no entanto, está implicado quando analisamos o enunciado. Podemos fazer a análise de enunciados, podemos nos comunicar com enunciados, mas nisso está insinuado algo estranho. Surge uma [[termos:a:aporia-hlex:start|aporia]] que não se resolve num movimento puramente linear (poderíamos falar em uma semântica linear). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}