====== Sobre a Fenomenologia ====== === Método === * O processo fenomenológico distingue-se da dedução no sentido tradicional, consistindo antes num "desvelamento" (//Aufweis//) reflexivo que opera inicialmente através de uma análise regressiva, partindo do mundo tal como é dado na disposição natural (//in der natürlichen Einstellung//); descrevem-se seguidamente os atos e complexos de atos nos quais o mundo das coisas se constitui para a consciência, alcançando finalmente o fluxo temporal (//Zeitfluss//) onde os próprios atos se constituem como unidades de duração. * Iniciada a descrição da constituição, segue-se o processo inverso a partir do último elemento detectável — a vida atual do Eu transcendental — representando progressivamente como, através desta vida atual, constituem-se os atos e seus correlatos objetivos de diversas ordens, estendendo-se até o mundo material das coisas e eventualmente a realidades de grau superior. === História === * Originalmente, a intenção husserliana não visava uma metafísica, mas uma teoria da ciência (//Wissenschaftslehre//), iniciando-se pelos fundamentos da Matemática (//Philosophie der Arithmetik//) e, ao colidir com as relações íntimas entre matemática e lógica, sendo conduzida ao exame do princípio e papel da Lógica formal. * O primeiro volume das //Logische Untersuchungen// marcou época ao romper com formas de relativismo cético e orientar-se para a verdade objetiva, conduzindo à convicção de que a Lógica, longe de ser ciência acabada, apresenta múltiplos problemas a serem resolvidos por estudos detalhados, os quais compõem o segundo volume e utilizam um método de pesquisa próprio: a análise objetiva das essências. * Tal orientação para entidades objetivas, interpretada por contemporâneos como renovação escolástica e adotada pelos primeiros discípulos, revelou-se fecunda para a solução de problemas lógicos, para a explicação (clareamento, //Klärung//) de conceitos fundamentais das ciências e para o fundamento eidético da psicologia, ciências naturais e do espírito, traduzindo-se numa revolução (//wesentliche Umbildung//) nos processos das ciências positivas. * Durante a elaboração das //Logische Untersuchungen//, firmou-se a convicção de haver encontrado o método universal para a constituição da filosofia como ciência rigorosa, cujo objetivo seria expor tal método e fundar sua abrangência universal nas //Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie//. * A busca por um ponto de partida absolutamente seguro (//sicher//) para o filosofar (//des Philosophierens//) conduz à dúvida cartesiana modificada, à redução transcendental e à descoberta da consciência transcendental como campo de vasta investigação. * Nas //Ideen// surge pela primeira vez o "tournant" idealista, surpreendendo os alunos e provocando discussões duradouras, sendo possível que tal resistência discipular tenha impelido a concentração de esforços na fundamentação cogente de um idealismo, tornando central uma questão que não o era na origem. === Ponto de partida === * Estabelece-se uma distinção onde a fenomenologia de Husserl configura-se como filosofia essencial e a de Heidegger como existencial; o eu filosofante que serve de ponto de partida para descobrir o sentido do ser (//den Sinn des Seins//) é, no primeiro, o "eu puro" (//das reine Ich//) e, no segundo, a pessoa humana concreta, podendo-se interpretar a busca existencial como reação à tendência husserliana de abstrair a existência e os aspectos concretos e pessoais. * A busca por um ponto de partida absolutamente certo (//gewiss//) para o pensamento filosófico (//das Philosophieren//) encontra motivação psicológica e fundação objetiva no fato do erro e da ilusão. * O reconhecimento de uma maior imediatidade na esfera imanente em comparação com o mundo exterior afigura-se possível mesmo sob a ótica de São Tomás (//De Ver.//, Q. X). * Embora a atitude natural (//natürliche Einstellung//) esteja originalmente orientada para o mundo exterior tanto em Husserl quanto em São Tomás, sendo apenas a reflexão o caminho para o conhecimento dos atos, neste conhecimento reflexivo o conhecer e o objeto formam, de certo modo, uma unidade, aproximando-se mais do conhecimento divino do que o conhecimento de objetos externos. === Comparação Husserl e Tomás de Aquino === * A comunhão mais forte entre Fenomenologia e Tomismo parece situar-se no terreno da análise objetiva da essência, parecendo o processo da redução eidética — que abstrai do ser de fato e do acidental para tornar visível a essência — justificado, de um ponto de vista tomista, pela distinção entre essência e existência em todo ser criado. * A identidade do processo de análise essencial em ambos exigiria prévia análise da abstração e intuição; a intuição fenomenológica não é simples contemplação da essência //uno intuitu//, mas comporta um trabalho de deslindamento das quididades (//Wesenheiten//) pela operação cognitiva do //intellectus agens//: abstração como omissão do fortuito e valorização positiva do essencial. * O objetivo deste trabalho é a visão pacificadora (//ruhendes Schauen//), leitura interior conhecida também por São Tomás, que afirma confinar o intelecto humano, no ápice de sua performance, ao modo de conhecimento dos espíritos puros, embora pareça restringir tal performance ao olhar sobre os princípios; o problema reside, portanto, no entendimento do termo "princípios" e na medida da diferença entre Husserl e São Tomás quanto à extensão do acessível ao conhecimento intuitivo. ---- //PS: Entrée en Métaphysique. Bruxelas: Casterman, 1962 On trouvera particulièrement éclairantes — et émouvantes à relire aujourd’hui, — ces interventions d’une disciple de Husserl, morte depuis martyre du nazisme (Journées d’études de la Société Thomiste, à Juvisy, sous la présidence de J. Maritain, le 12 septembre 1932) — publiées dans le volume intitulé « Phénoménologie », Le Saulchoir, Kain, Belgique, (éd. du Cerf). (Je reprends d’autant plus volontiers la traduction qu’elle y laisse beaucoup à désirer).//