====== Análise Fenomenológica da Causalidade Senciente ====== ESPPH * §1. Corrente Originária e Corrente Constituída da Consciência: A corrente originária da consciência é um puro devir, um fluxo contínuo e indiviso no qual cada nova fase brota da anterior sem que se possa perguntar "por meio de quê" este devir é produzido. Não há aqui um "ser-efetuado" ou uma conexão causal entre fases; trata-se de um continuum uno e expansivo. Contudo, deste fluxo originário emergem unidades discretas e duráveis, as vivências (//Erlebnisse//), que se constituem através de um processo de persistência modificada do vivido: o que "concluiu" seu devir vivo não submerge no nada, mas persiste em uma modificação (como "passado ainda vivo" e, posteriormente, como consciência oca ou "cadáver" da vivência). Esta persistência permite a formação de uma corrente constituída, que preenche o tempo fenomenológico com uma sucessão de vivências, cada uma com sua duração, e onde coexistem, em cada fase momentânea, o que está entrando na vida, o que ainda vive e o que já se extinguiu. A unidade da corrente é garantida pelo Eu (//Ich//) que vive este fluxo e carrega consigo todo o rastro do passado. * Formação da unidade experiencial e do tempo fenomenológico: O morrer do vivido não é um submergir total; o que escoou em sua vivacidade permanece como passado, mas uma consciência mais ou menos oca dele fica para trás. Porque o experienciar que escoou se preserva em tal modificação e o novo experienciar se lhe segue, desenvolve-se a unidade de uma corrente de experiência: uma corrente constituída, congruente com a corrente que originalmente gerava e agora constitui. Esta corrente constituída preenche o tempo fenomenológico, no qual a experiência se justapõe à experiência em uma sucessão. A complexidade do preenchimento momentâneo inclui, além do que está entrando na vida e do que ainda vive, também o que está extinto, o que morreu. * §2. Classificações das Experiências e Unidade da Corrente: As vivências que emergem no fluxo classificam-se em tipos radicalmente distintos (ex: sensação de cor, sensação de tom, estado sensível como contentamento), entre os quais não há transição possível (um tom não pode tornar-se uma cor). Cada classificação forma um campo contínuo (ex: campo visual, campo auditivo) que está constantemente preenchido, ainda que seja por um "vazio" determinado (o silêncio é um preenchimento do campo auditivo). Apesar da descontinuidade entre os campos, a corrente é una porque cada fase momentânea é um único impulso gerador que nutre simultaneamente todas as vivências de todas as classificações que ocorrem nela, e porque este fluxo é vivido por um Eu único. Esta co-ocorrência de vivências diversas na mesma fase é a conexão mais originária, fenômeno que subjaz à chamada "associação por contato". * A coexistência e a unidade do Eu como fundamento: A coexistência de diferentes tipos de experiências em uma única fase momentânea é o tipo mais originário e primeiro de conexão de experiências. Esta coexistência é o que fenomenalmente sustenta o termo "associação por contato". O corrente é uno porque flui para um Eu. Pois o que vive para o futuro a partir do passado, o que sente nova vida irrompendo de si a cada momento, o que carrega consigo todo o rastro do que passou—isso é o Eu. * §3. Associação por Contato: Esta junção em um só por experiências que ocorrem juntas, a formação de um complexo, é o fenômeno básico da associação. É compreensível, sem mais delongas, que o que surgiu junto ou esteve junto em qualquer momento também se transfira junto para o passado e forme um "complexo" em todas as mudanças de seu ser discutidas (o perecer, o desaparecer e o ressurgir). Assim, é também compreensível que todas as experiências deste complexo sejam "acionadas" de uma vez se uma delas for "evocada". Este tipo de "associação", no entanto, não é um ocorrer causal. O surgimento de um complexo é um puro devir—como o vir a ser de uma experiência. Não é produzido como um efeito. O despertar do complexo global com o reacionamento de uma parte também não é uma produção causal. * Distinção entre associação e causalidade: A formação de complexos por contato (simultâneo ou sucessivo) não é ainda um ocorrer causal, mas um puro devir. A associação estabelece uma co-pertença e uma possibilidade de evocação mútua, mas não uma relação de determinação necessária em que um elemento produza ou altere o outro em sua natureza intrínseca. A causalidade exige um tipo de influência mais substantiva. * §4. Condicionalidade Causal das Vivências: Além da mera co-ocorrência associativa, há uma espécie de "influência" de vivências simultâneas, um envolvimento dentro de sua provisão de ser; e certamente é uma camada inteiramente determinada de experiência que aparece aqui como "operativa": a esfera dos sentimentos de vida (//Lebensgefühle//). Cada mudança nessa esfera (ex: da fadiga para o vigor) exige uma mudança no curso total da experiência simultânea. Se me sinto fatigado, a corrente da vida parece estagnar; tudo que ocorre nos diferentes campos sensoriais é envolvido: as cores tornam-se desbotadas, os sons ocos, cada impressão é penosa. No vigor, a corrente flui com ímpeto e tudo carrega um matiz de alegria. Reivindicamos legitimamente este fenômeno como uma causalidade da esfera experiencial, um análogo da causalidade mecânica básica na natureza física. * Estrutura comparativa da causalidade experiencial: Na causalidade mecânica, distinguimos evento originante, evento originado e incidente mediador (o originar, ex: o choque). Na causalidade experiencial, o "originar" é a própria mudança que entra na esfera vital, que é simultaneamente o evento originante (o sentimento de vida do momento) e o fator determinante. Não há um incidente mediador separado; a mudança no sentimento já é o originar que determina, por necessidade intrínseca, a modificação do resto do curso experiencial. Em ambos os casos, porém, o efeito é necessário uma vez dados o originar e o evento originante. O substrato desta causalidade não são "coisas", mas as próprias vivências, cuja estrutura interna (conteúdo, experienciar, consciência) deve ser analisada para se encontrar o ponto de aplicação—sendo o //experienciar// o componente que se engaja diretamente com as variações da esfera vital. * Complexificação e o problema das condições "verdadeiras" e "aparentes": A esfera vital não é um simples contínuo entre fadiga e vigor. Estados como a "superalerta" ou "febrilidade" apresentam uma estrutura distinta (tensão extrema, oscilação rápida, hiperlucidez) e são seguidos por uma exaustão convulsiva, não por um relaxamento saudável. Esta diversidade revela uma distinção entre condições "verdadeiras" e "aparentes" da vida, obrigando a ultrapassar a pura imanência da corrente de vivências e a considerar o estrato do ser pessoal e de suas disposições duradouras, onde se decide o que conta como estado vital genuíno e que tipo de causalidade está, em última instância, em jogo.