===== DREYFUS (1991:7-8) – LINGUAGEM DE HEIDEGGER ===== Nesse ponto, alguém certamente objetará que, apesar de seu interesse em nossas práticas cotidianas e compartilhadas, Heidegger, ao contrário de Wittgenstein, usa uma linguagem muito incomum. Por que Heidegger precisa de uma linguagem especial e [[termos:t:tecnica:start|técnica]] para falar sobre o senso comum? A resposta é esclarecedora. Para começar, Heidegger e Wittgenstein têm uma compreensão muito diferente do contexto da atividade cotidiana. Wittgenstein está convencido de que as práticas que compõem a forma de [[termos:v:vida-dh:start|vida]] humana são um emaranhado indissolúvel. Como o comportamento humano poderia ser descrito? Certamente apenas mostrando as ações de uma variedade de seres humanos, já que estão todos misturados. Não o que um homem está fazendo agora, mas toda a mixórdia, é o pano de fundo contra o qual vemos uma ação, e isso determina nosso julgamento, nossos conceitos e nossas reações. Wittgenstein adverte contra qualquer tentativa de sistematizar essa mixórdia. “Não explicar, mas aceitar o fenômeno psicológico — isso é o que é difícil.” Heidegger, ao contrário, acha que o pano de fundo do senso comum tem uma estrutura elaborada que é tarefa de um analista existencial expor. No entanto, não é com esse pano de fundo que costumamos lidar e para o qual temos palavras, portanto, para falar dele é necessário um vocabulário especial. Searle enfrenta o mesmo problema quando tenta falar sobre o pano de fundo. Há uma dificuldade real em encontrar termos da linguagem comum para descrever o pano de fundo: fala-se vagamente de “práticas”, “capacidades” e “posturas” ou fala-se sugestivamente, mas de forma enganosa, de “suposições” e “pressupostos”. Esses últimos termos devem estar literalmente errados, pois implicam o aparato de representação.... O fato de não termos um vocabulário natural para discutir os fenômenos em questão e o fato de tendermos a cair em um vocabulário intencionalista deve despertar nosso interesse.... Simplesmente não há vocabulário de primeira ordem para o plano de fundo, porque o plano de fundo é tão invisível para a intencionalidade quanto o olho que vê é invisível para si mesmo”. Quando, por exemplo, Heidegger substitui termos técnicos como “mundanidade”, o “em direção ao qual” e o “para o motivo do qual” por termos cotidianos como “contexto”, “meta” e “propósito”, ele está lutando com esse mesmo problema. Heidegger luta para se libertar das suposições tradicionais e do nosso vocabulário cotidiano em sua tentativa de retornar aos fenômenos. Entre os filósofos tradicionais, ele mais admirava [[termos:a:aristoteles-2:start|Aristóteles]], que foi, segundo ele, “o último dos grandes filósofos que tinha olhos para ver e, o que é ainda mais decisivo, a energia e a tenacidade para continuar a forçar a investigação de volta aos fenômenos... e desconfiar de todas as especulações selvagens e tempestuosas, por mais próximas que estivessem do coração do senso comum” (GA24:BP, 232). Mas mesmo Aristóteles estava sob a influência de Platão e, portanto, não era suficientemente radical. Heidegger, portanto, propõe recomeçar com a compreensão das atividades cotidianas compartilhadas em que vivemos, uma compreensão que, segundo ele, está mais próxima de nós, porém mais distante. Ser e [[termos:t:tempo:start|tempo]] deve tornar manifesto aquilo com o que já estamos familiarizados (embora não o torne tão explícito que um marciano ou um computador possa vir a conhecê-lo) e, ao fazê-lo, modificar nossa compreensão de nós mesmos e, assim, transformar nosso próprio modo de ser. [DREYFUS, Hubert L. Being-in-the-World: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, Division I. Massachusetts: The MIT Press, 1991] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}