====== História do Ser ====== //Peter Warnek. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.// **Da história ao [[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]** 1. O desdobramento da plenitude do ser em suas transformações assemelha-se, à primeira vista, a uma história do ser, mas o ser não tem história do modo como uma cidade ou um povo têm história, devendo o caráter histórico dessa história ser determinado unicamente a partir do modo como o ser acontece, isto é, a partir do "há/dá-se ser" ([[lx>termos:e:es-gibt|Es gibt]] [[lx>termos:s:sein|Sein]]). 2. A conferência "Tempo e ser" contém a tentativa final de Heidegger de tratar de modo sustentado e explícito um tema central de seu pensamento, questionando precisamente o caráter histórico dessa história do ser, que permanece singular e diferente de toda outra história, rompendo de algum modo com toda a classe das histórias. 3. Para alcançar uma determinação do caráter historicamente singular da história do ser é preciso atentar ao modo como o ser acontece em sua absoluta singularidade, isto é, como um dar ([[lx>termos:g:geben|Geben]]) ou um enviar ([[lx>termos:s:schicken|Schicken]]), ou mesmo como um destino ([[lx>termos:g:geschick|Geschick]]), não podendo se dizer estritamente que o ser é, pois tal formulação apenas reverte à linguagem do próprio ser, sendo preciso pensar o modo como "se dá" (es gibt) ser, explorando-se o sentido literal desse idioma alemão. 4. Ao considerar o ser desse modo tornam-se distinguíveis três momentos: o ser como dádiva, isto é, como dado; aquilo que dá o que é dado; e o próprio dar, sendo que ao perguntar o que dá o ser corre-se o risco de transformar aquilo que dá em algo presente, tornando-se necessário um passo atrás ([[lx>termos:s:schritt-zuruck|Schritt zurück]]) em relação à tradição metafísica voltada apenas ao ser como algo dado, virando-se então para a questão do evento do próprio dar. 5. Ao final da conferência Heidegger oferece uma palavra para esse dar, Ereignis, traduzida provisoriamente como evento de apropriação ou enowning, sendo a tarefa singular da conferência alcançar um vislumbre do próprio ser como Ereignis, não sendo este oferecido como outro nome para o ser, mas como aquilo em cujo encontro emerge o pertencimento mútuo ([[lx>termos:z:zusammengehorigkeit|Zusammengehörigkeit]]) entre ser e tempo. **Preparando a transformação histórica: recepção e destruição** 1. A tarefa de determinar o caráter histórico do ser exige uma transformação e um estranhamento de nosso senso ordinário de história e tempo, advertindo Heidegger, já no prefácio da conferência, sobre as grandes dificuldades de compreensão, dificuldade ligada não tanto às complexidades conceituais quanto à tarefa de determinar a história do ser unicamente a partir do modo como o ser acontece como dar ou destino. 2. Nossa capacidade de receptividade ao pensamento de Heidegger já está enquadrada por uma linhagem metafísica herdada e não escolhida, de modo que, antes que história e ser possam ser tomados explicitamente como questões, o próprio colocar dessas questões já se encontra reivindicado pela história. 3. A conferência busca realizar aquilo que Heidegger designa como destruição, ou melhor, uma desestruturação ([[lx>termos:a:ab-bau|Ab-bau]]) da tradição metafísica, visando dirigir-nos a algo inteiramente inaudito, exigindo a transformação para o sentido estranho da história do ser uma destruição que revele como a história tomada ordinariamente encobre e obscurece o ser como dar, enviar ou destino. 4. Esse estranho sentido de destino ou história não emerge de um lugar simplesmente externo à nossa situação, podendo os limites operativos de nossa compreensão ser superados apenas ao serem primeiro aceitos tal como se impõem inevitavelmente à situação hermenêutica, sendo tais limites apreendidos como positivos e habilitantes por já estarem relacionados ao possível aparecimento de algo outro. 5. A história do ser jaz oculta dentro de uma história que já nos reivindica, sendo a metafísica assim uma história presa no esquecimento ([[lx>termos:v:vergessenheit|Vergessenheit]]) do ser; no protocolo do seminário subsequente à conferência esclarece-se que esse esquecimento não deve ser superado nem negado, devendo antes ser pensado como algo que decorre do autovelamento ([[lx>termos:s:sichverbergen|Sichverbergen]]) do ser, emergindo a história do ser apenas quando nos tornamos atentos a esse esquecimento como tal. 6. Tal pensar, ao expor o esquecimento por meio da desestruturação que abriria a doação do próprio ser, ou o ser como Ereignis, também se prepara para uma efetiva transformação histórica, transformação que implica nada menos que o fim da filosofia no esgotamento do projeto metafísico, permanecendo nossa relação a essa possível transformação meramente preparatória, e não uma nova fundação, não podendo se "produzir" tal transformação, pois toda tentativa de encená-la já recorreria a uma interpretação do ser que reverte à herança metafísica. 7. Ainda que a tarefa do pensar permaneça provisória e preliminar, ela não pode ser contornada, pedindo Heidegger que se siga o que diz não como uma série de proposições que contêm um conteúdo, mas como uma série de indicações ([[lx>termos:w:weisung|Weisungen]]), algo que se mostra por meio de um apontar, não podendo ser pressuposto que Heidegger tenha uma filosofia. **Outra história: do ser dos seres ao ser em si** 1. Se o ser dos entes sempre foi entendido como a essência sempre presente dos entes, precedendo e transcendendo o vir a ser e o perecer dos entes, questiona-se com que direito se fala de sua história, sendo a única resposta que a filosofia, sempre entendida por Heidegger como metafísica, pôde oferecer que o ser se dá na medida em que os entes são, pensado desde o início grego como o ser dos entes ou o fundamento dos entes. 2. Essa diferença entre ser e entes, como implicação mútua entre transitoriedade e presença, é sempre pressuposta quando o ser é tomado como presença, permanecendo, contudo, a própria presença uma questão desde o início grego, não podendo a filosofia jamais eliminar essa questão da diferença ontológica, o que já significa que o ser não é simplesmente dado, mas continua a subtrair-se, a retrair-se no próprio modo de se impor. 3. Essa experiência do retraimento do ser, como algo que reivindica inelutavelmente o pensar humano, oferece um ponto de partida decisivo para a determinação do que se diz com Ereignis: à apropriação do ser pertence sempre uma inevitável expropriação, um apagamento na doação do ser, sendo que toda metafísica da presença opera dentro de uma compreensão dada do tempo que privilegia a presença, exigindo o pensar da presença do ser em seu retraimento uma reconfiguração do próprio tempo, chamada por Heidegger tempo verdadeiro (eigentliche [[lx>termos:z:zeit|Zeit]]). 4. É preciso extrema cautela ao afirmar que se pode encontrar uma história na experiência desse retraimento, não estando Heidegger interessado na história de um conceito, devendo o pensar da história do ser não ser confundido com uma doxografia que catalogaria as diversas afirmações dos filósofos sobre o ser, nem com uma mera história da filosofia determinada pela linhagem da questão do ser desde os gregos. 5. O pensamento historiológico investiga os fundamentos históricos dos entes e assim expõe sua contingência, pressupondo ao levantar a questão da história de algo um tempo em que esse algo ainda não existia e a possibilidade de seu deixar de ser, assumindo o pensamento histórico que os eventos têm contexto e devem ser tomados como situações enquadradas por condições que os ultrapassam, vigorando o princípio de razão no pensar histórico tanto quanto na lógica. 6. Mesmo quando a história irrompe com revoluções inesperadas isso não descarrila as convicções da pesquisa historiológica, que apenas se vê compelida a reconfigurar suas narrativas, não podendo a historiologia suportar a incoerência de uma pura interrupção, persistindo as pretensões preditivas do pensar histórico porque permitem reinterpretações infinitas, e a familiaridade com o mundo em que vivemos hoje pressupõe e depende dessa compreensão do possível. 7. O pensar histórico tem consequência inegavelmente subversiva ao expor como toda instituição humana só reivindica autoridade absoluta por meio de uma pretensão que nega seu caráter histórico, sendo a contingência inevitável de tudo que é histórico frequentemente contraposta ao apelo a uma ordem natural ou divina, podendo-se conceder que os valores humanos têm gênese no tempo ao mesmo tempo em que se insiste que seu fundamento verdadeiro transcende esses começos meramente históricos. 8. A historiologia ([[lx>termos:h:historie|Historie]]) opera dentro de um sentido pré-dado de ser, estando o ser como fundamento dos entes sempre já operante em toda determinação histórica, mesmo que o estudo da história não investigue o ser das coisas nesse sentido, distinguindo Heidegger crucialmente entre Historie, a objetivação dos eventos ônticos da história, e [[lx>termos:g:geschichte|Geschichte]], a história como o "enviar" ([[lx>termos:g:geschick|Geschick]]) que primeiro determina o sentido ontológico desses eventos, sendo a primeira ainda implicitamente dependente de um fundamento trans-histórico e a segunda o desvelamento do próprio ser. **Epochal sendings as destiny** 1. Pensar a história e o acontecer do ser como um dar, ou como Ereignis, é uma questão de pensar uma origem ou um evento de tal modo que a reiteração do próprio ser, como ser dos entes ou fundamento dos entes, não seja já tomada como certa, referindo-se Heidegger, ao falar de um desdobramento que se assemelha a uma história, à história do pensamento ocidental como uma linhagem de tentativas de nomear o ser como presença. * Entre os nomes oferecidos estão o hen grego de Parmênides, o logos platônico-aristotélico, a energeia de Aristóteles e a actualitas medieval, a mônada de Leibniz, o tornar-possível transcendental da objetividade em Kant, a mediação dialética do espírito absoluto em Hegel, o processo histórico de produção em Marx e a vontade de poder em Nietzsche. * Não é possível superestimar a simplificação realizada pela mera enumeração desses nomes, dado que tais listas se referem, de modo comprimido, a todo o âmbito do pensamento ocidental. 2. A história do ser não se mostra imediatamente nessa história da nomeação do ser, mostrando-se as transformações apenas à primeira vista como história do ser, só se tornando evidente, mediante uma desestruturação, um esquecimento do ser não dito nos próprios nomes, apontando assim para o caráter de Ereignis do ser como um enviar que se retrai, não ocorrendo o enviar e o retraimento como dois momentos distintos. 3. É nesse sentido preciso que Heidegger fala das épocas (Epochen) da história do ser: cada época se estabelece por meio de um nome totalizante para o fundamento do que é, sendo decisivo que todo tal nome também obliterе um resto ou abismo, resto que, precisamente enquanto nome totalizante e fundante, deve permanecer impensado, sendo essa necessidade precisamente o que se entende por destino (Geschick) do ser, referindo-se o termo época, no sentido grego original de epoché, também a uma retenção que impera ao longo da história da metafísica. 4. As transformações epocais da história do ser mostram que em cada tentativa de nomear o ser, de dizer o que ele é como fundamento dos entes, o próprio ser sofre um apagamento ou cai no esquecimento, permanecendo o ser como tal impensado dentro das épocas, na medida em que o que define uma época é seu modo singular de tomar o ser como certo, como presença, como já dado, como ser dos entes. 5. Diz Heidegger que as épocas se sobrepõem, tendo afinidade e conexão entre si, mas também se encobrem mutuamente numa diferença que as determina precisamente como um enviar retraente, prevalecendo entre os fundamentos epocais uma intraduzibilidade que escapa à pretensão totalizante de cada um, ainda que revele que pertencem juntos nessa estranheza excessiva, não sendo o destino em questão, portanto, primordialmente uma linhagem determinável segundo uma lógica. 6. Ao falar do destino do ser, Heidegger encontra no retraimento que prevalece ao longo dos envios epocais uma espécie de trajetória rumo a um esquecimento cada vez maior, estando nossa época, determinada pelo esquecimento último do ser como época da técnica, na qual todos os entes estão à disposição do sujeito volitivo, unicamente posicionada para experimentar o enviar como retraimento, como um fundar sem fundamento. 7. O fim da metafísica e da filosofia, desde seu início com os gregos, culminando na lógica sistemática de Hegel e alcançando esgotamento mais completo na inversão nietzschiana do platonismo, aparece precisamente na época última da metafísica, anunciando-se o retraimento sem fundamento do ser de modo mais explícito no projeto mais totalizante, terminando a conferência com a notável afirmação de que a própria superação da metafísica deve ser abandonada e deixada a si mesma. 8. A tentativa de pensar o ser sem consideração de seu fundamento nos entes torna-se necessária, pois de outro modo não prevaleceria possibilidade alguma de trazer à vista o que hoje abarca a terra, nem de determinar satisfatoriamente a relação humana com o que por muito tempo se chamou ser, devendo-se, porém, manter separada essa afirmação, de que pensar a história do ser tem relevância privilegiada para nosso momento histórico, das dificuldades singulares ligadas a pensar o acontecer do próprio ser. 9. Há duas distintas acepções de história que se afirmam no pensamento de Heidegger: por um lado, parece que Heidegger faz afirmações não apenas descritivas sobre nossa situação histórica delimitada pelo esquecimento do ser na época da técnica, mas também prescritivas e preditivas quanto à nossa resposta a essa situação; por outro lado, o retraimento do ser não pode ser posto a funcionar desse modo, não devendo ser confundido com uma lógica preditiva, só podendo a história do ser ser pensada por meio da recordação meditativa ([[lx>termos:b:besinnliches-andenken|besinnliches Andenken]]), distorcendo-se inevitavelmente quando submetida a qualquer planejamento pragmático ou controle calculador. {{tag>Davis Sein Geschichte}}