====== Geviert ====== //Andrew J. Mitchell. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.// 1. A quadratura (das [[lx>termos:g:geviert|Geviert]]) é um pensar das coisas, nomeando o "reunir" ([[lx>termos:v:versammlung|Versammlung]]) de terra, céu, mortais e divindades que constitui a coisa, aventurando Heidegger, no final dos anos 1940, sob proibição de lecionar imposta pelas autoridades francesas, sua afirmação mais ousada ao anunciar a quadratura, primeiramente nomeada no ciclo de conferências de 1949 "Insight Into That Which Is", no Club zu Bremen, reunindo essa quadratura a sensibilidade poética das interpretações de Hölderlin com as preocupações quase-estruturais e esotéricas de seus cadernos dos anos 1930 numa nova figura de pensamento, a coisa. 2. As coisas simples ao nosso redor tornam-se o foco de sua atenção e o conduzem a um sentido fenomenologicamente mais robusto de mundo do que anteriormente encontrado em sua obra, um mundo de coisas, cada qual um agrupamento de relações fluentes reciprocamente determinantes do mundo, sendo a quadratura a chave para compreender a total relacionalidade da existência mundana, pois as coisas são agora entendidas como pontos de reunião da quadratura. 3. A noção de coisa encontrada em Ser e Tempo é bastante escassa, existindo aí uma abordagem científica da coisa que a apresenta como objetiva e a considera algo simplesmente dado ([[lx>termos:v:vorhanden|vorhanden]]), tendo essa presumida objetividade dos entes se revelado fundada numa relação vivida mais primordial com essas coisas, ditas "à mão" ([[lx>termos:z:zuh|zuh]]anden), aparecendo as coisas em Ser e Tempo apenas em termos de presença ou utilidade. 4. Até a época da quadratura Heidegger já não vê distinção real entre essas alternativas, na medida em que a atribuição de um valor de uso requer um objeto inteiramente presente disponível para avaliação, não havendo, em suma, coisas em Ser e Tempo, permanecendo essa obra vinculada a uma concepção inadequada de objetividade ou coisidade, sendo o pensar da quadratura o que fornece esse repensar de coisa e mundo, podendo ser lido como a consumação do esforço de Ser e Tempo em pensar o mundo. 5. A quadratura não é fase passageira no pensamento de Heidegger, encontrando-se referências a ela em conferências e ensaios das décadas de 1940 a 1970, sendo frequentemente descartada como obscura, mística ou excessivamente poética, embora nela Heidegger alcance seu pensamento mais fenomenológico, incorrendo os comentadores em erro ao tentar entendê-la como símbolo de outra coisa ou reinscrição de visões anteriores, devendo-se antes tomar Heidegger em sua palavra e deixar seu pensamento ser tão estranho e provocativo quanto possível em sua evocação de coisa e mundo. **A questão da Geviert e do relacionamento** 1. Como reunião (Versammlung), a coisa é dessubstancializada, não mais construída como entidade presente e autoencerrada, mas como interseção de terra, céu, mortais e divindades, não havendo nada de perene ou monumental em tais coisas, que perduram efemeramente ([[lx>termos:w:weilen|weilen]]), sendo a mesma reunião que une os quatro na coisa igualmente uma desagregação dessa coisa, liberando-a dos limites de uma autoidentidade encapsulada, nome que Heidegger dá a isso é "coisar" (Das [[lx>termos:d:ding|Ding]] dingt). 2. A coisa em seu coisar é telescopada para além de si mesma, sendo não apenas reunida mas ao mesmo tempo desmontada, e por meio dessa desmontagem entra no mundo, delimitando e assim situando a quadratura a coisa num contexto de mundo, nomeando cada elemento da quadratura um limite ou interface da coisa pelo qual ela passa ao mundo. 3. A coisa extrapolada estende-se para além de si mesma ao longo das vias de relação apresentadas pelos quatro membros da quadratura, contextualizando as quatro vias de relação tomadas em conjunto a coisa particular, sendo a natureza da finitude estar relacionada a um mundo que se estende para além de si, ser propriamente "in-finito", nomeando a quadratura a extensão reverberante e a franja radiante da coisa, o modo como ela se lança para além de si em um pertencimento infinito ao mundo. **1. Mortais** 1. Os mortais são os humanos, assim nomeados por serem capazes de morrer, sendo a morte constitutiva para os mortais, mostrando a análise da morte em Ser e Tempo que, embora a morte seja a cada vez o que nos é mais próprio, ela não é, contudo, nada que qualquer um de nós possa possuir, definindo-se os mortais por essa desapropriação. 2. Ao morrer minha morte no ser-para-a-morte esse "fora" não é nada além de mim que me faltaria, mas um modo de nomear a inclinação de meu ser no mundo, nomeando assim "mortais" os entes definidos pela exposição e abertura ao mundo, não havendo nada do mortal que não esteja aberto desse modo, minando a "ausência" da morte que determina a existência mortal qualquer oposição estrita entre presença e ausência. 3. A mortalidade não é senão o compartilhamento inelutável de tais relações, um ser-em-comunidade, tornado explícito em "Construir, habitar, pensar": os mortais habitam na medida em que, por sua própria essência, são capazes da morte como morte e acompanham outros no uso dessa capacidade para que haja uma boa morte, sendo o termo de Heidegger para esse modo de existir relacionalmente por meio do retraimento e não-aparecimento "essenciar" ([[lx>termos:w:wesen|Wesen]]), sendo o essenciar a entrada na comunidade mortal. **2. Terra** 1. A análise heideggeriana da terra do início a meados dos anos 1930 informa a concepção de terra na época da quadratura, recaindo com esta a ênfase na terra como "portadora", sendo esse portar (tragen), em "A origem da obra de arte", associado ao fundamento, mas um fundamento que não é uma terra firme estável e presente, mas sempre um fundamento sem fundo, sustentando e portando a terra precisamente ao se retrair, sendo o fundamento da terra um libertar. 2. Um fundamento sem fundo só pode sustentar o mais superficial, a mera fenomenalidade, sendo por isso a terra aqui nomeada uma "fructificação", um "nutrir" ou "florescer" trazer-à-luz, portando a terra ao vir à fruição no aparecer fenomênico, retraindo a terra o fundamento a fim de liberar o jogo superficial da aparência, cujo nome é brilho ([[lx>termos:s:scheinen|Scheinen]]), nomeando a terra o aparecer incontido e qualitativo, base material de nossa existência sobre a terra. 3. Como ausência de fundamento que libera a aparência, a terra nomeia igualmente o registro do mundo natural e da vida próspera, passando pedras e animais, não mais considerados sem mundo ou pobres de mundo, a participar da abertura terrena do mundo. **3. Céu** 1. O céu é o espaço da emergência da terra, o espaço em que as coisas aparecem e por meio do qual brilham, sendo o retraimento da terra o que solta as coisas para irradiarem pelo ar do céu, não sendo, ao aparecer assim, a coisa lançada num vácuo vazio, não sendo o céu um vazio abstrato, mas um campo de movimento e alteração, de tempos e luzes cambiantes, um meio, um "éter", requerido para que o que aparece fenomenicamente nos alcance e nos apele. 2. O que aparece sob o céu é afetado por esse aparecer, não deixando o meio a coisa intocada, envolvendo-se, na medida em que a coisa está exposta sob o céu, numa troca transpirativa com o que está além dela, sendo a coisa, exposta ao céu, intemperizada por ele. 3. Embora o céu nomeie uma região de familiaridade, ele também aponta para o desconhecido, seguindo-se dia após noite e mudando-se as estações de modo ordenado, sendo essa ordem sempre também um contexto experiencial para o inesperado, permitindo o céu erguer o olhar para além das circunstâncias imediatas, aberto à possibilidade de mudança, não estando, porém, a graça do céu à nossa disposição. 4. O azul do céu nomeia esse caráter mediador e crepuscular do céu, não sendo o azul nem a luz clara do dia nem o negro da noite, não havendo dia ou noite absolutos, mas apenas esse tempo de transição, nomeando o céu um espaço convidativo nem de presença nem de ausência, sendo as nuvens da essência disso, mantendo o céu longe do aparecer puro e preservando sua distância, sendo, na medida em que permitem que algo não apareça, como poetas fiéis a um não-dito: "as nuvens poetizam". **4. Divindades** 1. As divindades são os mensageiros hesitantes da divindade ([[lx>termos:g:gottheit|Gottheit]]), nomeando o fato de que a divindade nos foi enviada, não sendo as divindades Deus ou os deuses, mas o divinal, aqueles que partilham do divino e o partilham adiante como mensageiros, não tendo deuses particulares papel algum aqui, deixando Heidegger explícito que os mortais não os fazem seus deuses nem lhes prestam culto como ídolos. 2. O aceno (der [[lx>termos:w:wink|Wink]]) aparece ao longo da obra de Heidegger como um modo de o que está ausente ainda assim se anunciar, sendo o aceno a mensagem de um velar que clareia, sendo tal existência um mostrar do ocultamento, uma interrupção da rígida oposição entre presença e ausência, passando a maioria despercebida pelos acenos, mas intimando, para quem tem sensibilidade a eles, cumplicidade e comunicação clandestina, sendo a divindade enviada por mensageiros que acenam desse modo. 3. A divindade é, todavia, uma mensagem estranha, exigindo que se considere o pensamento heideggeriano do sagrado (das [[lx>termos:h:heilige|Heilige]]), que ele chama de "esfera essencial da divindade" e entende como o contexto em que aquilo que é "são" ou "íntegro" (das [[lx>termos:h:heile|Heile]]) pode aparecer, sendo esse modo de presenciar aquele que resiste à disponibilidade total do fundo-de-reserva e inclui o ocultamento em sua essência, só podendo hoje tal modo de ser ser o do rastro. 4. Ser mensageiro é ser definido por algo estrangeiro, uma mensagem que se abriga sem ser sua fonte, não sendo, porém, a mensagem das divindades um conteúdo transmissível, sendo elas mesmas essa mensagem, abrindo seu pertencimento na quadratura, sua reunião junto à coisa, a dimensão de um além no qual qualquer decisão a respeito do sobrenatural ou divino pode primeiro ocorrer, anunciando as divindades a comunicatividade da existência, que ela não está inteiramente disponível, mas que ainda há espaço para decisão. **Coisa e mundo** 1. Não há quadratura sem as coisas que a reúnem em seu lugar, articulando cada elemento da quadratura um limite da coisa que a abre para relações, tecendo os limites da quadratura a coisa em seu lugar e abrindo o registro de relações pelo qual a coisa é contextualizada dentro do mundo, sendo a existência êxtase quando fora de si, existindo também as coisas ecstaticamente. 2. Esse limite relacional é o que a quadratura compartilha e o que a reúne, referindo-se Heidegger a isso como um "jogo-espelho" ([[lx>termos:s:spiegel|Spiegel]]-[[lx>termos:s:spiel|Spiel]]), essência de cada um dos quatro e também aquilo que permite que se reúnam como quadratura, lançando-se cada um dos quatro para os outros e sendo igualmente refletido de volta por eles, pensando o espelhamento a expropriação no cerne da apropriação e do pertencimento. 3. Este mundo é um mundo de coisas que, segundo a conferência "Linguagem", são gestos de mundo: as coisas gesticulam mundo, o mundo concede às coisas, não havendo "mundo" em abstrato, mas sempre apenas um mundo povoado e articulado de situações particulares em tempos particulares, e igualmente nenhuma coisa encapsulada, mas sempre esses gestos derramantes de relacionalidade, tantas pontes lançadas entre mundo e coisa. 4. Nesse pensar de coisa e mundo, o que fenomenicamente aparece (a terra) o faz num meio (o céu) que fomenta comunidade (os mortais) e comunicação com um além (as divindades), sendo digno de nota, como pensar da contextualidade, os diversos contextos em que a quadratura é primeiramente mencionada: em Bremen, cidade portuária, sob o desafio colocado pelo impulso ordenador e entregador da técnica; em "Construir, habitar, pensar", conferência realizada em Darmstadt, cidade bombardeada pela guerra, num pensar de lugar e habitação; no sanatório de Bühlerhöhe, na conferência "Linguagem", em conjunto com a linguagem poética e a dor; e, por fim, na carta a Ernst Jünger, "Sobre a questão do ser", nomeando o essenciar não-presente do próprio ser como resposta ao niilismo. {{tag>Davis Geviert}}