===== O Secreto ===== JLCLS Existe um círculo do segredo, assim como existe um círculo da compreensão. A hermenêutica alemã mostrou, com profundidade crescente, como a compreensão sempre se precede a si mesma. Para compreender, é preciso já ter compreendido: não posso compreender um elemento de uma obra sem antes compreender a totalidade. E essa compreensão também tem um caráter circular, pois envolve uma compreensão de si mesmo. Não explico sem me explicar com o que interpreto. A inclusão do intérprete também é essencial aqui. É por isso que Heidegger podia dizer que a dificuldade, em relação ao círculo hermenêutico, não era sair dele, mas entrar nele. De forma análoga, a meditação do segredo pressupõe uma relação do nosso ser com o segredo e nos faz descobrir que já lhe pertencíamos antes de meditar sobre ele. Essa pertença implica que o movimento pelo qual descubro o segredo me revela a mim mesmo como segredo e desconhecido para mim mesmo. A sombra projetada sobre mim pela luz do segredo é a garantia de sua verdadeira compreensão. A prova do segredo nos testa a nós mesmos. Um segredo teria algum peso se sua descoberta não abalasse minha própria base? O que seria uma revelação de Deus que não abalasse minha compreensão prévia do homem e, em primeiro lugar, de mim mesmo? As discussões dos teólogos cristãos sobre um hipotético estado de “natureza pura”, ou seja, em que o homem seria considerado independentemente de um fim sobrenatural e dos dons divinos que o ordenam e conduzem a ele, mostram que não poderia existir um prólogo humano silencioso ao diálogo entre Deus e o homem, nem um terreno neutro que o amor não tivesse já devastado. O excesso é primordial. Estamos desde sempre à mercê de uma história de amor que não é apenas nossa e que ultrapassa as nossas próprias possibilidades. Quando a revelação nos chega, ela obscurece a prestigiosa transparência em que acreditávamos estar para nós mesmos. O segredo nos revela que estávamos nos escondendo. A ilustração decisiva disso é a tese cristã de que a revelação divina é necessária para que possamos conhecer nosso pecado. Para saber que transgredi a lei, basta-me a mim mesmo, mas é preciso que o amado me perdoe para que eu aprenda o quanto falhei no amor. Quando o mistério de Deus brilha na palavra que ele me concede e, nesse brilho, me abre, me entrega e me revela seu segredo como tal, ele também me revela minha cegueira para mim mesmo e faz de mim, para mim, um segredo que somente o seu pode dissipar. Pois — e esta é uma diferença insuperável em relação ao círculo hermenêutico — a inclusão no segredo divino só pode ser graciosa. Estamos no círculo da compreensão pela nossa mera existência, mas é preciso que o segredo se dê gratuitamente e, ao se dar, nos acolha para que sejamos incluídos nele. O brilho do segredo sobrenatural é infinitamente mais luminoso e infinitamente mais secreto do que o do segredo natural inicialmente evocado. Que não há segredo sem brilho, e que esse brilho quer se alimentar de nós, a mais simples meditação do Deus oculto confirma. O Deus absconditus da fé cristã é sempre o Deus que se revela. Sua ocultação não recusa a manifestação, ela aflora na própria revelação. De fato, Deus considerado independentemente da criação e, por assim dizer, antes dela, não é, ao contrário do que se afirma comumente, um Deus oculto. A glória de Deus pertence ao seu próprio ser e não lhe vem das criaturas que o cantam. Deus não se torna louvável porque o louvamos. Deus sem o mundo é soberana e perfeitamente manifesto. Ele é luz, e o mistério da vida trinitária é um mistério de manifestação. Totalmente e sem reservas, o Pai se revela em seu Verbo, e o Espírito é a própria transparência do amor do Pai e do Filho. A incompreensibilidade de Deus para nós deve-se à própria infinitude de sua luz. Essa luz não é menos luminosa quando nenhum olhar de criatura é ofuscado por ela. Essa glória não é então brilho, mas esplendor, nem segredo, mas transparência. É quando Deus cria, quando faz surgir diante de si presenças finitas para as quais a sua é insuportável e que, no entanto, têm de suportá-la, quando se dá testemunhas incapazes dele por natureza e capazes dele por graça, é então que se torna um Deus oculto. Ele só está oculto onde se manifesta a outro que não ele mesmo. Ele só está oculto onde, de múltiplas maneiras, se revela.