====== Caron (2005:1278) – noein e essência do pensamento ====== PEOS * A constituição fundamental do ser humano reside na correspondência prévia com o ser, que é sempre já efetiva, ainda que raramente tematizada. * O acesso à vida própria do si implica assumir conscientemente essa correspondência na qual já se está inserido. * A manifestação desse vínculo entre pensamento e ser (noeîn e lógos) ocorre através do pensamento. * Esta relação sucede, na obra de Heidegger posterior a //Ser e Tempo//, à dupla abertura-resoluta (Erschlossenheit/Entschlossenheit). * O lógos é uma estrutura perene e ativa do nosso ser e a palavra essencial do próprio ser. * Ele instaura a estrutura da ipseidade como instância na liberdade e como //Seinlassen// (deixar-ser) dentro do //Seinlassen// primordial. * O lógos pertence ao Lógos originário, que é o //Seinlassen// primário, o fazer-e-deixar-ser do ser. * Nosso deixar-ser é uma ramificação e recondução essenciais desse deixar-ser originário. * Pensar e dizer, dentro das possibilidades abertas pelo légein, constituem nossa essência. * A essência do si é ser "o Mostrador" (//der Weiser//), segundo a estrutura apofântica do //als//. * Esta estrutura é correlato da compreensão do ser, que sempre já perfurou integralmente nossa representação. * A articulação fundamental entre légein e noeîn, expressa por Parmênides (//to légein te noeîn te//), exige uma meditação. * Légein significa dizer (//sagen//), mas desdobra um ato de pôr (//legen//) que estende e preserva. * O //legen// deixa ser posto estendido diante, e abriga a eclosão mesma do ser. * O //Da-sein//, como légein, revela pela presença espacializante do //Da// a do //Sein//; ele deixa ser, põe, e garante a eclosão dos entes. * A dimensão do dizer como mostrar ou designar confirma essa função de trazer à luz e partilhar. * O noeîn, comumente traduzido por "pensar" ou "apreender", requer uma análise mais rigorosa de seu sentido. * Traduzi-lo por "apreender" é mais prudente, mas não basta sem entrar na coisa mesma que designa. * Não se trata de uma apreensão passiva ou receptiva (no sentido kantiano), nem de uma mera recepção sensorial. * Noeîn implica uma dimensão de atividade: um //vor-nehmen// (apreender de antemão, empreender). * É uma tomada em guarda (//in die Wach nehmen//), um tomar a seu cuidado. * O substantivo //noûs// significa originalmente quase o mesmo que //Gedanc//: recolhimento, memória fiel. * O noeîn como apreensão ativa possui um traço duplo e resistente. * Significa deixar chegar a si o que se mostra, mas também fazer comparecer, constituir um estado de coisas. * É um deixar-chegar-a-si que ocupa uma linha de resistência frente ao que aparece. * Analogia com tropas que recebem o adversário para detê-lo: receber resistindo, levar o aparecente à estabilidade (//Ständigkeit//). * Esta atividade resiste ao movimento de ocultação inerente a toda doação do lógos. * O lógos apresenta os entes independentes e estendidos, um presente doado para apreensão. * Toda doação essencial tende a ocultar sua própria abertura, abrindo espaço para uma redução do ente. * O ente posto (//keísthai//) pode deslizar para o //hypokeímenon// (subjacente, sujeito) e depois para a //ousía// como presença subsistente. * Este deslize é uma redução do ente a objeto disponível para um sujeito que o racionaliza (//arraisonnement//). * O noeîn visa contrariar esse deslize (//Abgleiten//) na subjetividade. * Seu gesto inicial é receber e conservar ativamente o que o lógos fornece, tal como é fornecido. * É a preservação ativa do que se oferece no deixar-ser-estendido-diante do lógos. * Esta atitude é o motor de toda "pensamento objetivo", da abnegação inerente à atitude verdadeiramente científica. * O pensamento renuncia a si para deixar o objeto se desdobrar, atitude que já depende, sem o saber, do deixar-ser (lógos) e do deixar-deixar-ser (noeîn). * A metafísica negligencia a atividade própria do noeîn, que é prévia à sua abertura para as ideias ou os entes. * O noeîn está em íntima relação com o que o lógos deixa ser; é um //vor-nehmen//. * Esta "tomada" não é uma posse ou domínio sobre o aparecente, mas um deixar-ser o deixar-ser. * Apropriar-se do que o lógos põe é o próprio ato do deslize para a objetificação. * Este ato é natural ao lógos, cuja essência doadora faz aparecer um visível que obstrui o campo da visão. * O lógos, contudo, associa-se estruturalmente a um noeîn. * Através do noeîn, o lógos aparece a si mesmo como tal e abre a possibilidade de contrariar o deslize da fenomenalização. * O noeîn resiste à subjetivização, não anulando o processo de presentificação (ato do ser), mas tomando-o em guarda. * Visa não perder nada de seu agir, não se prender ao estado imediato da aparência, não deixar o ente recalcar sua origem. * Acompanha o movimento de aparição que confere profundidade enigmática ao ente. * A resistência do noeîn consiste em pensar e compreender a economia doadora do deslize. * Mantém cada ente em sua plenitude de presença, fora de considerações consumistas. * Deixa ao ente o espaço que o lógos sempre lhe concedeu. * O noeîn apreende de antemão (//vor-nimmt//), pois está sempre já junto ao ente que apreende. * Sua tomada é apenas para guardar intacto. O pensamento como noeîn não é representação, mas guarda da representação. * No noeîn, o si se realiza como //Rückstrahlung// (reflexo de retorno). * Permanece junto ao espaço doador, fora de si, deixando de lado estruturas reflexivas no sentido centrífugo tradicional. * A reflexão do sujeito metafísico é um movimento expansionista centrado em si, já fechado à gratuidade do ente. * A subjetividade moderna é estruturada por essa reflexão fechada sobre si. * Como um turbilhão, absorve tudo o que toca sua periferia. * O espanto (//admiration//) diante do ente desaparece, sendo reduzido a uma "paixão da alma" a ser dominada pelo conhecimento. * Para Descartes, a admiração deve ser suprimida pelo conhecimento do objeto, que elimina a surpresa. * A primazia da admiração, levada às últimas consequências, revelaria a alma como tomada por essa estrutura e destino. * A estrutura do si como lógos é que torna possível o espanto admirativo e angustiado do homem. * Cada ente aparece acompanhado do espaço noturno e imenso que o cerca. * Na admiração, opera-se o destino da dobra (//Moîra//) do ser e do ente, à qual o si, como lógos, já emprestou ouvidos. * Se o noeîn não toma em guarda o que o lógos desvela, a ipseidade se reduz a uma //Reflexão//. * Tornaria-se um apoderamento progressivo do ente pelas exigências de visibilidade do sujeito. * Não alcançaria a consciência de sua essência própria, que é //Rückstrahlung//. * A //Rückstrahlung// é um retorno a si a partir da exposição ao enigma do ser, sem ocultar essa exposição condicionante. * A //Reflexão// é o evento fundamental da filosofia moderna, que vive na matemática. * Recomenda não ceder ao espanto (visto como primeiro, não primordial), que serve apenas para iniciar a dinâmica da interrogação. * Esforça-se por reduzir todo ente desconhecido a objeto conhecido. * A admiração, longe de ser assumida em seu destino, serve apenas para despertar o si para sua própria abolição sistemática pelo conhecimento. * A não-assunção da imensidão noturna conduz ao mau infinito da técnica. * Progresso sem projeto, produção auto-telética, negação fundamental do mistério. * A medida cega cessaria ao se ver reinserida na generosidade ontológica que a concedeu. * Não se trata de recusar o avanço técnico, mas de não perder de vista a doação originária. * A atitude correta perante a técnica depende de como o si produtor a encara. * No sentido grego originário, a produção (//poíesis//) é uma espera do que a //phýsis// revela, um deixar-ser desse desvelamento. * A técnica moderna, porém, é uma provocação (//Herausfordern//) que exige da natureza uma energia extraível e acumulável. * Exemplos técnicos podem, contudo, encarnar uma produção no estado de espírito do reconhecimento. * Exemplo: o moinho de vento entrega-se ao sopro do vento sem acumular energia; sua relação é de espera por uma dispensação. * Heidegger não propõe um retorno reacionário às técnicas antigas. * Sua crítica é ao estado de espírito que comanda a acumulação inútil: a centralização do si no sujeito ou no eu. * A intenção é habitar a técnica em verdade, vendo nela o Acontecimento (//Ereignis//) que nela age. * Distingue-se aproveitar a terra de receber sua bênção e habitar na lei dessa recepção para velar pelo segredo do ser. * A técnica é uma graça da doação. * O si deve situar-se na origem graciosa da possibilidade técnica, não se confundir com ela. * A morada do homem não é o ente nem seu arranjo; o si deve se considerar no dom, não no que dele deriva. * Deve-se entrar no mistério de que haja técnica, não na técnica mesma. * Uma mesma atividade técnica pode conferir dois rostos diferentes ao ente, conforme a atitude. * A terra provocada para extrair carvão versus o campo cultivado com cuidado (//bestellen// no sentido de cercar e cuidar). * Não se recusa o progresso, mas cuida-se daquilo que nos concede a possibilidade de fazer prosperar. * A possibilidade de desvelamento precede nossa capacidade de desvelar. * O homem técnico contemporâneo age referido à vontade do eu-sujeito. * Exemplo: a central hidroelétrica que mura o rio, transformando-o em fornecedor de pressão. * O sujeito configura o mundo em referência a si, desconhecendo sua origem, o que torna a técnica um perigo constante. * A ecologia, ao se opor à técnica mas dentro do pensamento tecnológico, também é prisioneira desse estado de espírito. * É necessária uma atitude de reconhecimento (//Dank//) pela doação do ser. * O //Gestell// (dispositivo) é sinal da generosidade do ser, que dá tudo para se fazer pensar. * É o "negativo fotográfico" do //Ereignis//; pode se reverter em Acontecimento por uma conversão do olhar. * A pensamento que se assume como noeîn agradece a este dom que chega a dar a liberdade do errar. * O noeîn manifesta-se em completa unidade com o légein. * Mesmo quando se deixa derivar no processo de fenomenalização, inicialmente, no espanto, está entregue ao que o lógos lhe entrega. * O conhecimento interrogante só é possível no //noûs// pela co-nascença (//co-naissance//) do noeîn a partir do lógos. * A tomada em guarde pelo noeîn gera um espírito de rigor fenomenológico. * Seu aspecto derivado é a busca de objetividade: deixar ser cada coisa como se dá. * O perigo é o esquecimento da fonte desse desejo de objetividade. * O noeîn pode visar a máxima objetividade, mas, ao agir, deixa de pensar seu próprio agir e esquece o vínculo ao lógos. * Torna-se //noûs// (cortado da consciência de seu agir), conhecendo o ente em seu ser, mas não na eclosão do ser. * Há diferença entre o pastor (que deixa eclodir e vela pela doação) e o domador (que dobra às suas exigências). * O noeîn só é ele mesmo enquanto permanece junto à fonte do lógos. * Sua essência é resistir ao esquecimento, tomar em guarde o velamento e guardar a nudez da presença. * Sua tarefa é deixar cada ente se expressar em seu ser, vir à palavra; é um //sagan// (mostração). * O si, como //Dasein//, é depositário da diferença ontológica. * Como lugar-tenente do ser, seu dever é não deixar desaparecer o ser, que é em si mesmo não-ente ou velamento. * Deve resistir ao fluxo do velamento inerente à doação para manter presente à pensamento esse velamento originário. * Tomar em guarde a significação de generosidade luminosa da noite. * Compreendido o ser como retrato e fonte do esquecimento, a tomada em guarde torna-se dever. * Não há mais desculpas para a negligência. * A descoberta da prepotência do ser não leva a um determinismo, mas devolve o homem à sua liberdade. * O homem é "o pastor do ser", sua liberdade é confirmada pela sua instancialidade no //transcendens//. * O único destino é o da liberdade mesma. * O noeîn, ao tomar em guarde e responder, revela uma estrutura de apelo dentro do próprio lógos. * O noeîn é o prolongamento do légein no interior do próprio légein. * Não por submissão, mas por permitir ao légein aparecer como légein, permanecendo perto de sua fonte. * Légein e noeîn não são elementos sucessivos, mas o Mesmo: o légein que vem à luz como légein. * A articulação //te... te// em Parmênides indica reciprocidade e inserção mútua. * São "da mesma família"; o noeîn é o deixar-ser do deixar-ser que é o légein. * O noeîn constitui rigorosamente a estrutura do si. * O si é o //Dasein// que deixa os entes virem à estabilidade pela pré-compreensão ontológica. * A estrutura dessa pré-compreensão é o noeîn. * A articulação de légein e noeîn anuncia o que pensar quer dizer e realiza o //aletheúein// (desvelar e manter desvelado). * A pensamento (//Denken//) é o dom do ser; nela, o ser se dá a pensar, constituindo o campo do advento. * A essência da compenetração de légein e noeîn reside na doação do ser mesmo. * O ser é o elemento da pensamento; estar no ser é ter relação com o ser, que é aparecer. * O si exprime o ser enquanto está nele, lançado. * O ser é //alḗtheia// (desvelamento) e precisa de um //Lá// (//Da//), de um //Dasein// espacializante, para desvelar. * A escuta de si mesmo pelo ser está inscrita na necessidade de sua estrutura. * O desdobramento (//Wesen//) do ser só se cumpre se algo se desdobra, o que requer um ente que compreenda o ser. * A essência do homem é o //Lá// (//Da//) que o ser exige para sua patência; "ser-o-Lá" (//Da-sein//). * A ipseidade, como lógos, está em ligação permanente com a //phýsis//, da qual é uma modalidade que se prolonga num si descobridor.