====== três níveis da vida da Lichtung (2005:1149) ====== PEOS * A Lichtung não deve ser compreendida como pura abertura luminosa, mas como desvelamento do velamento, pois o “de” em “dévoilement de l’occultation” indica simultaneamente proveniência e essência, mostrando que o desvelamento surge da ocultação e que esta constitui o ato mesmo do desvelar. * O sentido derivado do desvelamento corresponde ao arrancamento da ocultação, no qual algo emerge e se separa do fundo obscuro para aparecer como ente. * O sentido originário, porém, consiste na ocultação como fonte e ato do desvelamento, de tal modo que o velamento não é um obstáculo acidental, mas o princípio regente de toda manifestação. * A clareza aparente é sempre penetrada e regida pela obscuridade, pois o ser, ao deixar aparecer o ente, retira-se simultaneamente, instaurando a diferença ontológica não como separação operada pelo si, mas como fenda originária na qual o si está implicado. * A diferença ontológica não é efeito de uma distinção reflexiva, mas o próprio dobramento do ser que produz o ente e dele se afasta no mesmo ato. * O si encarna esse dobramento, pois nele o ser aparece como noite do não-ente, diferença viva em relação a todo ente. * O ente deve ser pensado como traço do retiro do ser, pois aquilo que aparece o faz apenas porque o ser se retrai, deixando-o emergir no espaço aberto pela ocultação. * Todo ente presente se mantém no mistério de sua própria presença. * A ocultação rege o ente em totalidade, e o desvelamento provém sempre do velamento. * A clareza, por proceder da obscuridade, é um modo pelo qual a obscuridade mesma vem à manifestação sem deixar de permanecer obscura. * A luz não anula a noite, mas a exprime de modo derivado. * O aparecer do ente é, assim, a forma segundo a qual a obscuridade se dispensa sem se mostrar como tal. * Para o si, todo ente aparece como banhado na lethe, pois o ente só é ente porque o si se mantém para além dele, abrindo o espaço no qual seus contornos, limites e singularidade podem manifestar-se. * No mesmo ato se dão a limitação do ente e o ilimitado que torna essa limitação possível. * A noite do ser constitui o espaço do dia, sendo a condição de possibilidade de toda claridade ôntica. * A clareza é regida pela obscuridade não apenas porque dela provém, mas porque é um modo de aparição da obscuridade mesma, que se dispensa como obscura ao se retirar em favor da luz. * O velamento pertence ao coração da aletheia. * A lethe não é adição à verdade, mas seu núcleo. * O pensamento deve percorrer três momentos para reencontrar a origem: o ente desvelado, o desvelamento enquanto tal, e a ocultação como condição inaparente de toda aparição. * A interpretação metafísica privilegia o primeiro momento e absolutiza o ente. * A meditação heideggeriana opera o passo atrás que reconduz à ocultação originária. * A passagem do niilismo à pensamento do ser ocorre quando o nada de todo ente é reconhecido como paisagem invisível que condiciona a vinda ao aparecer de tudo o que é. * A noite absoluta deixa de ser interpretada negativamente. * Ela aparece como fonte positiva e velada da riqueza infinita do ente. * A noite é abertura inaparente e luminosa, não como luz visível, mas como espaço que possibilita toda manifestação. * A doação se retira em favor do dado. * Não é o dado que eclipsa a doação, mas a doação que se eclipsa a si mesma no dado. * A Lichtung nomeia esse ato inaparante de iluminar, distinto da luz enquanto fenômeno visível. * Ela não é Licht, mas Lichtung, ato de esclarecer que não se mostra como luz. * Sua luminosidade é noturna, pois consiste em dar espaço. * A noite, enquanto tal, é manifestabilidade, pois dar vazio é dar espaço, e somente onde há espaço algo pode surgir. * A noite é produtiva, abridora, centrífuga. * Ela é o fundo a partir do qual todo ente entra em presença. * A luz visível é sempre resultado de um ato de esclarecimento que permanece velado em si mesmo. * A Lichtung não vem ao dia senão em seus efeitos. * O ser não se abre como o ente se descobre. * O si tem acesso simultâneo aos entes iluminados, à luz e à noite, pois sua estrutura lhe permite ver tanto o dia quanto a noite. * Essa capacidade indica que o si não se reduz a nenhum desses fenômenos. * Ele se mantém no espaço que os torna possíveis. * A noite não pode ser tornada visível pela luz que dela provém, pois isso reconduziria a origem ao derivado. * A noite só aparece porque ela mesma se dirige ao si. * Nela há uma forma inédita de luz que interpela o si. * A relação do si com a noite funda-se em uma comunhão de consistência, pois o semelhante conhece o semelhante. * O si guarda algo da noite. * A angústia figura essa comunhão impensada. * A noite não é a treva, mas o lugar secreto do claro, guardando-o junto de si. * O obscuro não é negação da luz. * Ele possui sua própria limpidez. * A noite é nutridora, rica de possibilidades, portadora de uma luz que não é diurna. * Ela não é negatividade, mas reserva. * É fonte da qual emanam as claridades ônticas. * A Lichtung deve ser compreendida segundo três níveis: a noite originária, o campo de luz e as claridades do ente. * A filosofia tradicional detém-se no nível intermediário. * A meditação deve reconduzir ao ato originário de abertura. * A Lichtung não é a clareira enquanto estado, mas o ato de esclarecer que libera um campo livre. * Ela pertence ao vocabulário do liberar e do deixar-ser. * A luz pressupõe a Lichtung e não o inverso. * A clareira é um dado no interior da floresta, e não a origem. * A floresta simboliza a presença originária do ser. * A clareira é um ente-presente no interior dessa presença. * No Dasein, a Lichtung vem à aparição, pois o Dasein é ele mesmo a Lichtung, embora não seja sua fonte. * O si transmite a abertura. * Ele não a produz. * A presença torna-se enigmática quando aparece como presença, isto é, quando o “há” se manifesta como tal. * A presença revelada é mistério. * Ela não é nem presente nem presença no sentido ôntico. * A Lichtung não é um ente nem algo pertencente à presença, mas concerne essencialmente ao pensamento. * Ela liberta o campo no qual presença e ente podem surgir. * Pensar o ser exige pensar essa abertura originária.