====== Caron (2005:1030) – ipseidade aberta pela elasticidade do abismo ====== PEOS * A transcendência não designa um além enquanto região ou domínio separado, mas o próprio movimento de ultrapassagem enquanto tal, pois transcendere significa passar além, de modo que o transcendens não é aquilo em direção a que se passa, mas o próprio ato de passar, o exceder enquanto exceder, o epekeina entendido como função e não como lugar. * O mundo é transcendente não porque esteja situado fora do si, mas porque pertence estruturalmente ao ser-no-mundo e constitui o próprio passar-além em direção a, sendo o Dasein ele mesmo, em seu ser, esse passar-além, razão pela qual não pode ser compreendido como imanente nem como sujeito encerrado em si. * Apenas o ente cujo modo de ser é o do Dasein transcende, pois somente ele é constituído por esse movimento de ultrapassagem, de tal modo que a transcendência não é um predicado ocasional do Dasein, mas aquilo que o caracteriza em sua essência ontológica. * O ser é o transcendens por excelência não porque se encontre acima ou fora dos entes, mas porque é o ato mesmo de diferenciar-se de todo ente, de retirar-se do ente ao mesmo tempo em que o deixa aparecer, sendo transcendência pura enquanto movimento incessante de diferenciação. * Pensar o ser como transcendente não significa atribuir-lhe um estatuto de ente supremo, pois isso o reconduziria ao interior da ordem dos entes, mas compreendê-lo como não-lugar, como o lugar em que nada tem lugar senão a abertura mesma, o il y a, no qual o aparecer se torna possível. * A transcendência do ser não é um atributo adicional, mas sua essência mesma enquanto ato de ultrapassar o ente, ato que não se fixa nem se estabiliza, mas permanece como excedência permanente, e é precisamente nessa excedência que o Dasein é lançado. * A transcendência do Dasein é fundada pela transcendência do ser, de tal modo que o Dasein não transcende por iniciativa própria, mas porque habita desde sempre na transcendência do ser, sendo esta a condição de possibilidade de qualquer relação com o ente, consigo mesmo ou com outrem. * O próprio do Dasein não é algo do mesmo gênero que ele, pois o próprio, no sentido ontológico, não coincide com uma propriedade interna, mas designa aquilo que, excedendo o ente, o constitui como tal, razão pela qual o próprio do Dasein consiste em sua abertura para além de si. * A transcendência, assim compreendida, é anterior a todo comportamento, a toda atitude e a toda relação determinada, não sendo uma modalidade possível entre outras, mas a constituição fundamental que torna possíveis todas as relações. * O Dasein, enquanto ser-no-mundo, é estruturalmente além de si mesmo, e esse estar-além não deve ser interpretado como saída posterior de um interior previamente constituído, mas como condição originária de sua existência, pois existir já significa ter ultrapassado. * A ipseidade não precede a transcendência, mas é fundada por ela, pois somente um ente que se encontra estruturalmente além de si pode retornar a si, colocar-se diante de si e relacionar-se consigo mesmo como consigo. * O movimento do “para-si” e do “a-partir-de-si” que caracteriza a ipseidade só é possível porque o Dasein não coincide consigo, porque se encontra desde sempre exposto a um horizonte que o excede e o constitui. * A abertura do Dasein não se reduz à relação com objetos ou com outros entes, mas é a condição de possibilidade tanto da relação com o ente subsistente quanto do ser-com-outros e da relação consigo mesmo enquanto ente, pois é a transcendência que ilumina o campo no qual algo pode aparecer como algo. * A transcendência se dá a ver ao próprio Dasein, ainda que nem sempre de modo explícito, pois ela se manifesta na possibilidade mesma de retorno ao ente, retorno que só é possível porque o Dasein já se encontra além dele. * A compreensão prévia de ser funda-se nessa transcendência, que não é produto da compreensão, mas sua condição, sendo a abertura o solo no qual toda fenomenalização se enraíza. * A transcendência, enquanto fonte de luz, não apenas permite distinguir os diferentes modos de ser do ente, mas também torna visível a diferença entre o ente e aquilo que não é ente, a saber, o próprio Dasein e a transcendência mesma, que não se deixam objetivar. * A transcendência pode aparecer a si mesma na luz que ela própria dispensa, não como objeto de intuição imediata, mas como estrutura que se revela no próprio exercício do ultrapassamento, permitindo ao Dasein arrancar-se do modo impessoal e colocar-se diante de si como abertura. * Essa auto-aparição da transcendência não conduz a uma coincidência consigo nem a uma certeza imediata do si, pois a abertura, enquanto abertura, permanece expulsa de toda clausura e de toda identidade plena. * A elasticidade do abismo designa o caráter não rígido, não fixável e não determinável do fundo no qual o Dasein se mantém, fundo que não se apresenta como vazio inerte, mas como negatividade operante, como Nichtung, isto é, como nadificação que possibilita o aparecer do ente. * A Nichtung não é um nada exterior ao ser, mas o modo como o ser se retira ao deixar o ente aparecer, fazendo com que a diferença ontológica se inscreva no próprio movimento de fenomenalização. * A ipseidade é aberta por essa elasticidade do abismo, pois é somente em um fundo que não se fecha, que não se esgota em presença, que o Dasein pode manter-se como si, isto é, como abertura persistente e não como substância. * A instantialidade do Dasein deve ser compreendida a partir dessa estrutura, pois o instante não é um ponto temporal isolado, mas a articulação viva da transcendência na qual o Dasein se mantém na abertura do ser. * O instante não fixa o Dasein em um agora, mas o expõe à tensão entre presença e ausência, fazendo com que o si se mantenha em relação com o ser enquanto retraimento. * A ipseidade, assim, não é uma identidade contínua, mas uma permanência na abertura do instante, abertura que só é possível porque o fundo que a sustenta é abissal e elástico. * A diferença ontológica habita o coração da ipseidade, pois do mesmo modo que o ser se vela ao desvelar o ente, o si se vela como relação ao ser ao interpretar-se inicialmente como relação ao ente, recaindo na figura do sujeito substancial. * Enquanto o ser não aparece como outro de todo ente, o si não pode distinguir-se verdadeiramente do eu metafísico, permanecendo preso a diferenciações insuficientes e onticamente orientadas. * A ipseidade só se funda ontologicamente quando a diferença ontológica é assumida como estrutura originária do próprio si, fazendo aparecer sua dependência essencial do ser e sua habitação constitutiva do abismo.