====== Caron (2005:1333) – espacialidade do pensamento ====== PEOS * O sentido último da espacialidade do pensamento reside em sua abertura ao que o envia a si mesmo, apontando para a Palavra. * No cerne de todo ente há um elemento não-ente que lhe dá ser. * Este elemento é um vazio infinito que penetra e circunda cada ente, abrindo-o ao espaço e ao aparecer. * O fundo de nosso pensamento é idêntico a esse mesmo elemento espacializante. * Um ente só pode aparecer ao pensamento porque este já está, de algum modo, junto a ele. * O pensamento, sendo ele mesmo tecido de espaço, já percorreu o espaço e é composto do mesmo vazio espacializante, do mesmo não-ser (Nichtung). * O pensamento não é uma matéria que recebe impressões, mas um espaço de acolhimento, um vazio deixado aberto, de consistência idêntica à do ser. * A capacidade de nos relacionarmos com um ente em seu ser funda-se nessa identidade elementar. * A projeção que se projeta a si mesma e se vê diante de si, tratada no Kantbuch, encontra aqui sua explicação. * O mesmo elemento (o ser como vazio espacializante) explica a possibilidade da transcendência. * A percepção humana é sempre uma resposta a um chamado proveniente do ente. * Ouvimos permanentemente uma voz que, a partir de cada ente, nos interpela com a pergunta "o que é?". * Ouvir uma voz é já se colocar no lugar onde ela se profere, ser composto da mesma sonoridade. * O ser dá espaço para que se possa pensar, e o pensamento é ele mesmo ser. * Isso explica a transversalidade inata e a virtuosidade espacial do pensamento. * Pensamento e ser são um elemento semelhante, confirmando o princípio de que "o semelhante conhece o semelhante". * Não nos voltamos para um ente senão porque somos feitos da mesma consistência que ele e nosso pensamento pertence ao mesmo claro (aletheia). * O si-mesmo é essencialmente resposta, situado em um diálogo originário regido pelo ser. * A percepção é uma resposta porque pertencemos a um elemento ao qual somos semelhantes. * Este elemento nos precede, envolve e condiciona; por isso somos "apenas" uma resposta. * O si-mesmo é aquele que a Voz convocou para a tarefa de mostrar. * Ele se inscreve no desdobramento de um diálogo inicial que lhe é atribuído. * Esse diálogo desenha a função de suas faculdades segundo a ordem da resposta. * Dizer e ouvir têm uma origem essencial comum no diálogo originário. * A separação entre as duas faculdades decorre da morfologia corporal (boca e ouvido em lugares distintos). * Sua unidade originária, porém, sustenta a possibilidade mesma de sua relação recíproca. * A morfologia do corpo é assim reinserida no diálogo estruturante entre o si-mesmo e o ser. * A superioridade da ordem ontológica da ipseidade não implica um poder constitutivo sobre o ente. * A alma não é constitutiva; o si-mesmo é compreensão de ser, mas é lançado nesse ser. * Onde o ser deixa ser ao fazer ser, o si-mesmo apenas deixa ser o próprio ser em seu fazer-ser. * O si-mesmo não possui poder constituinte nem domínio ontológico autêntico sobre o ente. * Sua abertura ilimitada a todo ente não confere posse ou maestria. * A maestria técnica não é maestria verdadeira, colocando o homem em perigo ôntico e ontológico. * O si-mesmo sofre, padece, é exposto e lançado. * Estar junto ao ente é estar aberto a ele e, ao mesmo tempo, padecer dele. * A simultaneidade de proximidade e estranhamento em relação ao ente é explicada pela estrutura do Da. * O si-mesmo já está sempre junto ao ente (proximidade), mas este persiste como enigma e inapreensibilidade (distância). * Como entender essa simultaneidade? * O conceito de "des-distância" (Ent-fernung) em //Ser e Tempo// ilumina essa aparente contradição. * "Des-distância" significa simultaneamente afastar (tornar distante) e des-afastar (aproximar). * É a essência do Dasein deixar o ente vir ao encontro na proximidade, descobrindo assim a distância. * A des-distância" é o próprio Da em seu ser, o Da como Durchstehen. * Permite a relação com o ente como tal, inscrevendo-o no cerne de nossa espacialidade, independente de sua distância ôntica. * Transcende a diferença entre distância e proximidade. * Para que haja diferença entre dois pontos, é necessário a identidade de um mesmo elemento que os relacione. * Afirmar uma diferença é afirmar uma proximidade de natureza. * A ubiquidade do homem é uma ubiquidade de abertura e disponibilidade, não de constituição. * O homem pode se transportar para toda parte com seu pensamento, mas o faz precisamente como não estando lá. * Ele está junto ao ente como não estando nele mesmo, não como possuidor de seu ser. * A mediação tecnológica comprova a relação perpétua de separação que se tenta reduzir. * A relação com o ente se dá através do nada, do não-ente, que é o ser como vazio espacializante. * Somos impregnados pelo ser, que é espaço, vazio, não-ser. * Dessa compenetração não possuímos nada, não extraímos poder algum. * Estamos no vazio, caindo, por assim dizer, em direção ao céu. * Não estamos ligados ao ente por qualquer fio ou onda ôntica, mas pelo nada, pelo não-ente. * Isso nos torna próximos do ente (abertos a ele) e, ao mesmo tempo, distantes (não possuímos nada nele). * Somos expostos, não dispomos; somos revelados pelo ser, que é o princípio insondável do ente. * No ente, é a estranheza que nos é próxima, é a proximidade que nos é estranha. * O Durchstehen é um estar (stehen) que se sustenta no não-ser mesmo. * Somos feitos de um elemento (o ser como doação pura, deixar-ser) que nos coloca junto ao ente, mas como algo igualmente misterioso no ente e em nós. * A ambiguidade da "des-distância" reflete a condição finita e patética do Dasein. * Somos lançados no elemento que nos torna presente o ente em seu ser. * Isso nos faz próximos do ente em seu distanciamento. * Nossa constituição é estar sempre já junto ao ente, mas essa constituição não é nossa. * Ser um Da significa ser, ao mesmo tempo, lá e aqui, uma espacialidade da qual padecemos. * Somos expostos à imensidão de um espaço patético, sofrendo tanto esse espaço quanto o que ele deixa ser. * A abertura nos coloca atrás e junto ao ente, mas não nos torna constituintes; somos constituídos pelo Da. * Estamos simultaneamente no próximo e no distante do ente porque somos próximos do distante que é o mistério de sua presença. * Somos afetados pelo deixar-ser e por aquilo que ele deixa ser. * No deixar-ser, afastamos o ente para que ele venha ao encontro, e nos relacionamos com ele em sua independência. * Essa é a essência do Da: uma dupla atividade simultânea, des-afastante e afastante. * Esta dupla atividade é a própria ipseidade, sempre situada além e, por isso, sempre em seu aqui e sua diferença. * O si-mesmo é definido como ser do distante, realizando-se na simultaneidade de proximidade e distância. * A verdadeira proximidade das coisas cresce no homem apenas através desses distantes originários. * O si-mesmo, como pensamento, vive nessa simultaneidade, que é sua própria espacialidade exposta à desmedida do distante do ser. * Próximo do ente porque pensa o ser no qual ele está; distante do ente porque o ser é um elemento de estranheza que afirma a individualidade ôntica do ente. * No si-mesmo produz-se um espaço de jogo onde o ente vem ao encontro do pensamento. * O si-mesmo é a própria "des-distância", o intervalo que supera para precisamente estar nele. * A percepção não é representação, mas apresentação, um estar-sempre-já-junto à coisa percebida. * Toda apreensão exige que já estejamos junto das coisas, de um modo que por elas sejamos concernidos, isto é, olhados e, portanto, postos à distância. * É a dimensão paradoxal do ser-relacional, ao mesmo tempo próximo e distante, mas antes de tudo tecido do mesmo elemento. * Não há mais abismo entre sujeito e objeto, nem entre apresentação e representação. * Não há propriamente representação, mas apenas apresentação. * Essa apresentação é o Durchstehen que torna possível todo Durchgehen. * O si-mesmo é o ser de um //através// (Durch), mantendo-se em uma travessia perpétua. * Assim, não lidamos com imagens das coisas, mas com as coisas mesmas. * O pensamento se mantém na distância que nos separa do lugar do ente; estamos junto dele lá, não junto de um conteúdo de representação. * A alma é em si mesma espaço livre para um acolhimento, uma //tabula rasa//. * Ela não constitui um domínio idiosincrático onde as coisas sofreriam um índice de refração subjetivo. * Não há na ipseidade matéria para uma impressão; ela é feita do nada, da pura disponibilidade do logos como Seinlassen. * Para que os entes se inscrevam nela como tais, ela deve ser totalmente despojada, capaz de um completo desapego. * A doutrina plotiniana da percepção confirma essa concepção não-representacional e espacial. * A alma vê o que está fora dela; não há impressão nela, ela não é modelada como cera. * Se a forma do objeto estivesse nela, ela não precisaria olhar para fora. * A alma atribui distância e dimensão ao objeto, o que seria impossível se a impressão interna tivesse seu tamanho. * A visão vê o que não está situado nela; essa é sua condição. * A essência do espírito é não ter limites fixos, permanecendo imóvel e, ao mesmo tempo, indo ao ser que está em toda parte. * A estrutura do espírito como pensamento-ser fundamenta a espacialidade ubíqua do si-mesmo. * O si-mesmo é Durchstehen, transcendência espacial, instantaneidade na verdade ek-stática do ser. * O pensamento pode pensar o espaço porque é ele mesmo espaçoso, impregnado do ser. * O ser dá, e o pensamento é seu dote. * O pensamento tem o poder de escutar (Hören) o ser, o que só é possível com base em uma pertença (Gehören), em um ter-sido-sempre-já-concordado. * A pertença (Gehören) se cumpre na obediência atenta (Gehorchen), realizando o pensamento como memória e reconhecimento. * A pertença é o logos; a obediência é o noein que acolhe e guarda. * Nela, o ser do homem permanece apropriado (ge-eignet) àquilo de onde é chamado. * Nesta obediência, o pensamento realiza sua essência como Gedanc, Memória. * Tornando-se reconhecimento: "pensar é agradecer" (denken ist danken). * O pensamento é renúncia e reconhecimento como uma mesma coisa. * Renunciando, o si-mesmo deixa ser o ente e o ser, e entra na ação de graças (Dank). * A alegria da renúncia é ver desabrochar o segredo que deixa ser todas as coisas. * O si-mesmo, como pensamento pela capacidade de escuta, deve obediência a sua estrutura, isto é, ao ser. * O noein assume realizar o pensamento como Memória do ser. * Esse reconhecimento da origem é o próprio si-mesmo atingindo seu ser-próprio, ao re-conhecer a si e a seu ser. * A transição da pertença (Gehören) à obediência (Gehorchen) é mediada pelo logos como endereçamento e pelo apelo da consciência. * O dizer (legein) como mostrar funda-se no legein como pôr. * O noein cumpre o legein ao manifestá-lo como deixar-ser e ao salvaguardá-lo. * Para isso, o noein deve obedecer ao ser, ao logos, que lhe difunde continuamente uma mensagem. * Em //Ser e Tempo//, a voz da consciência, no âmbito da Selbstheit, intimida o Dasein a abrir-se resolutamente à sua própria abertura. * Esta é a estrutura de seu ser-em-dívida. * O si-mesmo ouve uma voz silenciosa que o reclama para recordá-lo a si mesmo e referenciá-lo à sua origem. * Uma voz ao mesmo tempo suave (por já ouvida) e dolorosa em seu imperativo. * O noein só pode se desdobrar porque em seu ser já foi chamado. * O logos se realiza nele, mas para que o noein se decida a assumir sua guarda, deve ser estimulado a endossá-la. * O fundamento da "voz da consciência" é compreendido posteriormente nos termos do logos e do noein. * O logos, ou o ser como Palavra, é em si mesmo endereçamento de si a um "quem". * A transição para o pensamento do Ereignis ocorre naturalmente: Ereignis é o agir co-respondente e desvelador presente no coração do logos.