====== ego conduzido ao seu próprio estilhaçamento (2005:216) ====== PEOS * A análise da intuição categorial por Heidegger permite acessar uma concepção do si mesmo não mais como ego transcendental, mas como pré-compreensão do ser. * O exame da intuição das essências revela uma espacialidade interior ao ego, onde a presença do ser opera uma ruptura. * A presença do ser no interior do ego causa sua explosão e dispersão, tornando-o coabitante com cada ente. * A intuição categorial é doadora de objetos, dando a ver primeiro o universal (por exemplo, "casa" enquanto tal), antes da particularidade. * O "enquanto" (als) precede toda percepção objetiva; o olhar dirige-se ao ser e vê o ente. * Heidegger reinterpreta a intencionalidade husserliana como um //com-portamento// (Ver-halten), enfatizando o ser-relacional do si mesmo. * Esta terminologia evita o esquema noético-noemático, que fundamenta a absolutidade do ego e a constituição do mundo pela consciência. * O objetivo é alcançar uma "intencionalidade sem reservas", dilatando até o estilhaçamento a esfera da imanência consciente. * A consciência não é constitutiva de sentido de forma independente, mas apenas porque sempre já acessou o ser doador de sentido. * A consciência deve ser pensada não como abertura, mas mais radicalmente como //ser-aberto//. * Este ser-aberto atesta o si mesmo como uma transcendência integral, um //estar-sempre-já-fora//. * A transcendência como //ser-no-mundo// não pode ser assimilada ou identificada com a intencionalidade husserliana. * A intencionalidade é considerada insuficientemente radical para realizar a abertura efetiva do si a um mundo e resolver o problema da exterioridade. * Heidegger insiste na evidência trivial, porém enigmática, de que os comportamentos se relacionam com algo. * O ser-intencional, apesar de aparentemente evidente, não é um fenômeno que se possa excluir do questionamento filosófico. * O termo //Verhalten// serve para criar um choque problemático entre intencionalidade e consciência imanente. * Ser-em-relação (//com-portar-se//) não é um ato simples, pois pressupõe um segundo termo independente e transcendente. * A terminologia do //Verhalten// manifesta o desejo de arrancar a intencionalidade da zona de não-problematicidade em que Husserl a coloca. * O elemento perpetuamente esquecido é o ser, cuja proximidade permite ao si mesmo se desdobrar como estrutura intencional. * O //dirigir-se-a// não é uma determinação suficiente para caracterizar o ser da intencionalidade. * A dinâmica projetiva da intencionalidade deve-se ao //estar-fora-de-si// radical do si mesmo. * É necessário interrogar rigorosamente o //intentum// (o visado), o elemento mais exterior do círculo intencional. * A descrição do //intentum// é um questionamento sobre o alcance ontológico da intencionalidade. * O //intentum// é nomeado como "o ente em si mesmo", e não no ego. * É mais instrutivo que o //intentum// apareça como sendo, do que como redutível a um vivido de consciência. * A apreensão do ente em si mesmo só é possível com base na pré-apreensão da essência, que por sua vez repousa na pré-compreensão do ser. * Através e para além da intencionalidade, Heidegger restitui ao ente sua densidade própria de ser. * O ente deixa de ser um mero vivido dependente do ego, possuindo uma espessura de presença junto à qual o si mesmo se dirige por essência. * Heidegger radicaliza a //Wesenschau// husserliana em um ponto de vista ontológico. * As ideias (eidos) orientam o olhar, fazendo surgir o "enquanto-o-quê" do objeto percebido. * O simples desvelamento do alcance da eidética unifica a estrutura do si e de seu olhar. * A meditação sobre o estatuto da ideia e da redução eidética permite a Heidegger acessar o peso da presença bruta (o //Dass//, o //quod//). * O //als// heideggeriano faz aparecer tanto o //Was// (a configuração essencial) quanto o //Dass// (o fato de que há algo), sendo este o coração daquilo. * A redução husserliana, ao fazer abstração do ser-aí real, é fundamentalmente imprópria para determinar positivamente o //ser// da consciência. * A crítica de Husserl de que Heidegger abandonou a redução é incorreta. * Heidegger não retorna à atitude natural ingênua, mas acessa a visão facticial, que pode dar conta de dimensões da ipseidade (como a angústia, o cuidado) que a redução husserliana deixou de lado. * O acesso ao //Dass//, produto da compreensão do ser, permite pensar teoricamente atitudes usualmente vistas como idiossincráticas. * A existência própria ao si (Dasein) significa ter relação, através do conteúdo essencial (//Wasgehalt//) do ente, com seu conteúdo de presença bruta (//Dassgehalt//). * Existir (//ek-sistere//) significa estar exposto ao ente e engajado no debate com ele e consigo mesmo. * A essência do si mesmo é existir, o que não é pensável no modo da redução eidética. * Heidegger recusa manter a oposição rígida entre intuição sensível e intuição categorial. * O que se vê primeiro é o universal (por exemplo, "eis uma casa"), a presença da coisa enquanto tal. * A intuição do ser da coisa é primária, sendo a base para qualquer modalidade intuitiva posterior. * A experiência da coisa mesma requer um domínio diferente do da consciência. * Este outro domínio é nomeado //Dasein//, que possui a possibilidade nativa de se relacionar com o "há" (//es gibt//) de qualquer objeto. * O Dasein se relaciona não apenas com o estar-em-presença, mas com o desdobramento da vinda à presença mesma. * A presença é dada em primeiro lugar, e sua própria fenomenalidade é um abismo enigmático. * A ideia é pesada de sua vinda ao olhar; a evidência é pesada do mistério de seu eclodir. * A intuição das essências não redobra a intuição sensível, mas a precede e a torna fenomenologicamente possível. * A doação da essência e a doação do ser são indissociáveis. * É pelo acesso categorial (pré-conceitual e pré-perceptivo) ao "é" que aparece o horizonte para uma visão da essência. * A compreensão do ser é o fator unificante e possibilitador da personalidade humana, embora abra para um abismo. * Sem a compreensão do ser, o homem não poderia se comportar diante de si mesmo como ente, nem ser uma pessoa. * A pré-compreensão do ser é tanto uma ajuda para o pensamento quanto a abertura de um novo problema: o relacionamento com o que não é ente. * O fundamento da possibilidade da visão (a //e-vi-dência//) é ele mesmo insensível e invisível, exceto no aparecer de sua invisibilidade doadora. * O surgimento da esfera de evidência convoca o pensamento a refletir sobre sua própria vinda à luz. * Husserl trata o "olhar da pura visão" como um fato e fundamento últimos, o que Heidegger vê como contraditório, pois a pura visão é ela mesma dada. * A crítica à concepção husserliana de "dado" não conduz a uma regressão infinita. * O dom do dado remete ao próprio dom, à sua entrada em presença como dado, sendo isto assumido pelo pensamento. * O mistério reside no fato de que há doação, de que algo é dado a um olhar. * O ser é um desdobramento em presença e não se confunde com uma presença plena como a da evidência do eu puro. * Para se colocar no olhar fenomenalizante, como exige Husserl, é necessária uma pré-compreensão não consciente de que a pura visão está na possibilidade de vir à presença. * O ser é o excedente (//Überschuss//) horizontal que torna o objeto acessível, mas este excedente é ele mesmo insensível. * O excedente categorial é a proveniência noturna do fenômeno, sua invisibilidade constituinte que deve ser pensada. * A irritante insensibilidade da origem pode levar à conclusão de que o ser é vazio. * Nesta visão, o ser seria apenas o correlato do desdobramento de uma consciência, uma função para possibilitar a visão de essências. * Para Heidegger, isto evacua todo caráter problemático do ego, deixado em uma evidência sem véus. * A intenção de Heidegger é levar a fenomenologia a concluir as questões que ela evita colocar. * Se o ser é o horizonte condicionante, como negar-lhe uma função fundadora? Se é excedente, como não excederia ele tanto as essências quanto a percepção? * Heidegger acusa Husserl de esquecer o ser ao fazer dele um mero instrumento metodológico para acessar a esfera da consciência. * O esquecimento do ser tem significado fenomenológico: ele mostra a ligação íntima entre ser e si, a ponto deste poder esquecer a origem de seu caráter constituinte. * O si habita no excedente; não há subjetividade transcendental separada da evanescente proximidade do ser. * Os objetos não são vividos presentes ao si, mas o si está sempre já em contato com a exterioridade do ente. * A "bolsa" da imanência é rompida porque não é mais necessária para o acesso ao fenômeno em sua pureza. * O si tem acesso direto ao ser, o //transcendens// por excelência, em uma compenetração cujas consequências a filosofia não pensou. * A estrutura noético-noemática do si perde seu sentido quando o si está desde sempre fora de si, junto ao ser. * Heidegger fala de um sujeito como unidade estilhaçada ou disseminada, indo além da tendência de fluidificação da Lebensphilosophie. * A intencionalidade que confere maior extensão à zona subjetiva não significa que a si mesma tenha sido desreificada. * A reflexividade e a autointerrogação atestam uma zona inicialmente rompida da consciência, não reconhecida pela fenomenologia transcendental husserliana. * Husserl esquece de pensar a possibilidade do caminho (a redução) que leva ao resultado (o ego cogito), esquecendo a primariedade dessas possibilidades. * Uma vez estabelecido o ego como princípio, não se pode mais sair dele. * É necessário um novo ponto de partida: a dimensão originária que permitiu à fenomenologia seguir seu caminho redutivo, ou seja, a dimensão reflexiva e questionante. * O ego cogito, para Heidegger, permanece uma caixa sem janelas, incapaz de responder pela possibilidade de sua própria dinâmica. * O novo ponto de partida é o Dasein, horizonte de todo acesso à coisa pela exposição primeira do si ao ser. * O Dasein é caracterizado pela //êxtase// (estar-fora-de); a imanência está rompida de alto a baixo. * O dirigir-se-a (Sichrichten-auf) do si repousa sobre um permanecer-junto-a (Sichaufhalten-bei), um permanente estar junto ao ser. * A apreensão da intencionalidade como estrutura essencial do Dasein revoluciona o conceito de homem. * A essência do homem é agora inteiramente relacionada ao ser e não mais auto-possuidora. * Para Husserl, o termo //selbst// (mesmo) não tem significado particular, implicando apenas a evidência do ser-dado na pura coincidência consigo. * //Selbst// qualifica a doação "em carne e osso" de um objeto quando a intenção encontra seu preenchimento adequado. * A função //selbst// está associada ao //idem// (o idêntico), não ao //ipse// (o si próprio enquanto abertura). * O ato inaugural da fenomenologia husserliana é criar a situação para que a manifestação da evidência de um objeto seja possível. * O transcendente, lugar do não-subjetivo e da não-coincidência (//selbstlos//), é posto fora de circuito. * Na redução, o sujeito se relaciona apenas com a maneira como o objeto lhe é dado na imanência, alcançando a coincidência consigo como //idem//. * Heidegger opõe a consistência rompida do //selbst//, indissociável de uma abertura. * A função //selbst// em Heidegger corresponde a esta abertura, à possibilidade do relacionamento com a efusão do ser. * A redução husserliana do //Selbst// à identidade objetal constitui uma regressão em relação ao pensamento de Hegel. * A originalidade de Heidegger é ter entrado sem reservas no ser mesmo do intencional, decifrando suas implicações ontológicas. * O fundamento último é a compreensão do ser, que abre para o abismo constituinte do ser como doação não-ente. * Para Husserl, a subjetividade transcendental é intencional, o que lhe confere seu poder constituinte. * A fenomenologia busca estabelecer uma ciência absoluta da consciência pura. * Para Heidegger, entrar na consciência é chegar ao espaço do ser, que condiciona a própria intencionalidade. * A meditação sobre a intuição categorial leva à evidência do mistério constituinte, do não fundamento. * Entrar em si é encontrar o fora-de-si primordial, a dimensão noturna que dá orientação e espaço ao desdobramento da ipsidade. * Com base no poder-de-dizer-"ser" da consciência intencional, Heidegger contesta que a intencionalidade seja uma atividade mental auto-provocada na imanência. * O "sujeito" da intencionalidade é um elemento inclassificável, cujo caráter essencial é //ser-aberto//. * Husserl desconhece o ser da intencionalidade ao vê-la apenas como a dinâmica inexplicada de um sujeito transcendental. * É a proximidade com o vazio do não-ente que dá à ipseidade a possibilidade de ser com-portamento intencional. * A principal objeção de Heidegger a Husserl é não ter buscado o fundamento do ser-intencional no //estar-fora-de-si// do si e na pré-compreensão do ser. * Husserl quer mostrar a consciência pura como objeto //sui generis// independente (//nulla re indiget ad existendum//), recusando-se a buscar o fundamento ontológico. * A reflexão husserliana busca revelar a consciência a si mesma na imediatidade da evidência intuitiva. * Heidegger argumenta que, para haver visada de objeto e de si por si, é necessário o acesso à presença, uma pré-apreensão do ser. * A coincidência consigo só é possível com base em uma distinção prévia na relação pré-compreensiva com o ser. * Em Husserl, a intencionalidade reside na imanência do sujeito, partindo inexplicavelmente para o mundo. * Heidegger opera um retorno interrogativo ao espaço de possibilidade desse movimento. * Husserl reduz a consciência a objeto de olhar, deixando de interrogar o ser desse olhar e a vinda em presença da luz que o preenche. * Heidegger considera que Husserl não quis estar à altura das exigências implicadas por suas próprias descobertas. * A fenomenologia, como Heidegger a concebe, é uma metamorfose constante do pensamento, que deve se aprofundar no que desvela. * Sua vocação é situar-se no coração do desdobramento, no pensamento do seu caráter de ser. * A fenomenologia de Husserl busca estabelecer-se como ciência fundamental certa e independente. * Para Heidegger, o essencial da fenomenologia não está em sua realização, mas em sua possibilidade como pensamento. * Esta possibilidade é a de assumir o mistério da própria presença e de sua relação com o ser.