====== Caron (2005:1202) – circularidade ====== PEOS * A circularidade que conduz do ser ao ser pela mediação do si não deve ser compreendida como fechamento lógico nem como retorno reconciliador, mas como circulação abissal na qual o ser só se doa ao se retirar, fazendo do retraimento a condição de possibilidade tanto da emergência do ente quanto da constituição da ipseidade. * O círculo não é síntese nem resultado. * Ele exprime o modo próprio segundo o qual o ser permanece em jogo. * Diferentemente da circularidade hegeliana, na qual o processo visa a reapropriação plena de si pelo Absoluto, a circularidade heideggeriana conserva o caráter irredutível do mistério, pois o ser não se recolhe para se possuir, mas para deixar-ser. * O velamento não é momento a ser superado. * Ele é estrutura originária. * O ser quer ser pensado como ser, o que implica que ele se dirija ao si enquanto aquele que pode suportar a experiência de um dar-se que não se entrega como objeto. * O apelo do ser não é comando. * Ele é convite silencioso. * A bondade do ser consiste precisamente em não se impor, pois impor-se destruiria a possibilidade de resposta livre por parte do si. * O ser se oferece retraindo-se. * Esse retraimento é cuidado. * O Seinlassen não é uma atitude subjetiva acrescentada à existência, mas o próprio modo de operar do ser enquanto tal, do qual o si participa ao consentir em deixar-ser. * O deixar-ser não começa no si. * Ele atravessa o si. * A diferença decisiva entre Entlassung e Seinlassen reside no fato de que o primeiro deixa-ser os entes em vista de um processo que os ultrapassa, enquanto o segundo deixa-ser o próprio deixar-ser como mistério. * Em Hegel, a liberação é funcional. * Em Heidegger, ela é originária. * O Seinlassen não pode ser integrado a uma economia dialética, pois ele não produz reconciliação nem retorno, mas mantém aberta a ferida da diferença ontológica. * O deixar-ser não cicatriza. * Ele sustenta a abertura. * A Gelassenheit não é passividade psicológica nem resignação moral, mas consentimento ontológico ao retraimento do ser. * Ela não elimina a angústia. * Ela a habita. * O si é chamado a deixar-ser o deixar-ser, isto é, a não capturar o próprio gesto pelo qual o ser se doa. * A fidelidade ao ser consiste em não se apropriar de sua fonte. * Pensar é guardar. * A negatividade hegeliana não interroga a origem do não, pois o não é sempre já subordinado à positividade do processo. * O não não é fonte. * Ele é momento. * Em Heidegger, ao contrário, o não-ente deve ser pensado como abismo originário, pois é nele que o ser se reserva ao doar-se. * A diferença ontológica é abissal. * Ela não é mediável. * A retenção do ser não é empobrecimento, mas excesso, pois apenas aquilo que se contém pode doar sem se dissipar. * A retenção concentra. * Ela intensifica a doação. * O ser retém-se para preservar a possibilidade de novos surgimentos, fazendo da reserva o lugar da fecundidade ontológica. * O possível precede o efetivo. * A reserva precede a presença. * O si situa-se na béance do sem-fundo, não como fundamento, mas como aquele que suporta a instabilidade constitutiva da origem. * A ipseidade não repousa. * Ela sustenta. * A angústia é a primeira forma sob a qual o apelo do ser se faz sentir, pois nela o ente perde sua solidez e o ser aparece como excesso inapreensível. * A angústia não engana. * Ela desvela o abismo. * O ser não aparece inicialmente como ser, mas como ameaça de dissolução de toda positividade. * Essa ameaça é a forma primeira da doação. * Ela exige resistência. * O si é aquele que deve responder ao apelo do velamento, não dissolvendo-o em conceitos, nem recusando-o por fuga. * Responder não é dominar. * É sustentar. * A partir da página 1220, o texto aprofunda a ideia de que o retraimento do ser é liberação de espaço para um apelo, pois somente um ser que não ocupa todo o espaço pode chamar. * O apelo exige vazio. * O excesso absoluto seria mudo. * O retiro cria o intervalo no qual o si pode advir como resposta, fazendo do espaço aberto o lugar da ipseidade. * Sem intervalo não há resposta. * Sem resposta não há si. * O apelo do ser não se dirige a um sujeito já constituído, mas produz o si ao ser acolhido. * O si nasce da resposta. * Ele não a precede. * O Versagen não deve ser interpretado como fracasso, mas como renúncia ativa do ser a ocupar o lugar do ente. * O ser abdica. * Essa abdicação é generosa. * O Versagen prolonga o Seinlassen ao impedir que o ser se converta em objeto de consumo ontológico. * Onde tudo é dado, nada é recebido. * O velamento protege o dom. * A obscuridade do ser não é sinal de negatividade pessimista, mas de cuidado para com o finito. * O ser poupa o si. * Ele não o expõe ao insuportável. * O Grundlos deve ser pensado como Ab-grund, isto é, como excesso de gratuidade e não como carência de fundamento. * O sem-fundo não oprime. * Ele liberta. * A bondade do ser consiste em apagar-se para que algo outro possa ser, sem exigir retorno nem reconhecimento. * O ser não reivindica. * Ele confia. * A ipseidade alcança sua verdade quando aceita não possuir o ser, mas apenas guardá-lo na resposta. * Pensar é corresponder. * Corresponder é deixar-ser. * O si verdadeiro não se afirma contra o ente nem contra o ser, mas permanece no entre-dois que ambos exigem. * Ele não fecha a diferença. * Ele a sustenta. * A circularidade se fecha sem se fechar, pois o ser retorna ao ser através de um si que não o esgota. * O círculo permanece aberto. * O abismo continua a chamar.