===== LE SOI GRAMMATICAL (2005:68-69) ===== PEOS Do ponto de vista gramatical, o termo “soi” refere-se à terceira pessoa, de acordo com o esquema pronominal eu/mim, você/você, soi/se. Se o soi se caracteriza originalmente na língua como pertencente à terceira pessoa, ele possui em si algo como um valor impessoal de alteridade: eu me refiro a mim mesmo, mas a mim mesmo como a um outro, como a um ser externo. Mas o que pode me dar a possibilidade de me fazer aparecer como tal, ou seja, como outro, no próprio cenário da minha representação? Normalmente, nunca nos surpreendemos com o fato de que o eu, considerado como o próprio privilégio da posse integral de si mesmo, só apareça nesse modo de alteridade. Quando digo “sou eu” ou “eu sou eu” (mais teoricamente “eu = eu”), volto-me para mim mesmo, o que significa que já me deixei; eu me vejo então como outro, numa distância de mim para mim certamente reduzida, mas predeterminante. A minhidade seria então apenas uma apreensão do outro no modo do meu, ou do meu no modo do outro? Não haveria o seu (Seine) apenas no modo da relação com o totalmente outro (Sein)? O Seine e o Sein, o caráter do “seu” e o ser, o “subjetivo” e o “ontológico”, parecem assim se entrelaçar e se interpenetrar. Simples homofonia? Heidegger, em todo caso, não hesita em usar os recursos sonoros de sua língua para entrelaçar as consonâncias e os possíveis entrelaçamentos de “sein” como possessivo, “sein” como verbo e a problemática função “Selbst” – como atesta uma definição da característica fundamental do Dasein, no início de Sein und Zeit, onde os três termos se entrelaçam de forma precisa e densa: “es geht diesem Seienden (das Dasein) in seinem Sein um dieses Sein selbst” (SZ:12). Se há mais do que homofonia, como pensar essa co-originalidade? É, em todo caso, na dobra dessa origem enigmática, onde o que é aparentemente mais universal, o ser, e o que é aparentemente mais singular, o eu, se entrelaçam conceitualmente até o ponto de uma homofonia impensada, é nessa dobra que é possível compreender que o Eu hipostatizado não leva a nada além do afundamento de um indivíduo em sua idiosincrasia mais contingente e compreender, também e por exemplo, que personagens políticos ou históricos famosos (pensemos, é claro, em César) possam falar de si mesmos na terceira pessoa, como se uma parte de seu ser, regida pelos deuses e pelo destino, pudesse escapar ao domínio imediato do eu ontológico e ser vista como algo que se sobrepõe a toda a personalidade imediata.