====== VAZIO [LEERE] (ZEN) ====== //HAN, Byung-Chul. Filosofia do zen budismo. Tradução: Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2023.// * A substância, denominada em latim substantia e em grego hypostasis, hypokeimenon e ousia, constitui o conceito fundamental do pensamento ocidental ao designar o constante em toda transformação, aquilo que garante a unidade e mesmidade do ente mediante permanência e autoafirmação, fundada etimologicamente em substare e stare como permanecer e sustentar-se, implicando fixidez, autopossessão e distinção frente ao outro, de modo que seu átrio linguístico, atravessado também por stasis como conflito e separação, prefigura uma estrutura baseada na demarcação e no fechamento, e não na abertura. * Aristóteles define a substância como o constante em toda transformação e fundamento da mesmidade. * Substare e stare indicam permanecer, sustentar-se e afirmar-se. * Hypostasis e ousia remetem a base, essência, posse e presença fundamental. * Stasis inclui sentidos de conflito, disputa e separação. * A substância fixa o ente em si e o separa do outro, instaurando fechamento. * O conceito budista de śūnyatā, vacuidade, apresenta-se como contraposição à substância ao operar um movimento de des-apropriação que esvazia o ente fechado em si e o conduz a uma amplidão aberta onde nada se condensa em presença massiva, suspendendo o para-si monádico em relações recíprocas, sem constituir princípio originário, causa primeira ou transcendência separada, situando forma e vazio na mesma esfera do ser e recusando qualquer hierarquia ontológica entre imanência e além. * Śūnyatā descondensa o ente que se afunda em si mesmo. * Nada se sustenta isoladamente no campo do vazio. * O vazio não é causa, fundamento substancial nem transcendência. * Forma e vazio pertencem à mesma esfera do ser. * As pinturas zen de Yu Chien, Oito vistas de Hsiao Hsing, figuram o vazio por meio de pinceladas fugidias que não fixam formas, deixando-as reluzir em presença graciosa marcada por ausência, em que coisas pairam entre ser e não ser, se espelham e se aconchegam na amplidão branca, sem urgência ou fechamento, preservando a figura sem impertinência massiva. * Pinceladas sugestivas e não fixadoras. * Formas revestidas de ausência. * Equilíbrio entre presença e ausência. * Vazio como meio de afabilidade. * Presença graciosa sem rigidez. * Nos Sutras das montanhas e rios, Dōgen descreve uma paisagem do vazio em que as montanhas azuis vagam e fluem realmente, não como metáfora, mas como suspensão da diferença substancial entre montanha e rio, abandonando a distinção entre fala própria e imprópria ao situar-se fora da esfera do ser substancial. * “Montanhas que fluem” como realidade do vazio. * Suspensão da distinção substancial entre montanha e rio. * Superação da oposição entre próprio e impróprio. * Na esfera do vazio descrita por Dōgen, montanha e rio se penetram em paisagem fluente onde oposições estáticas são suspensas, inclusive entre forte e fraco, existente e não existente, buscando-se visão anterior à separação sujeito-objeto, na qual o observador se esvazia no visto e vê a água tal como a água vê a água. * Suspensão de predicados opositivos. * Superação da separação sujeito e objeto. * Visão objetual que deixa-ser. * Observador torna-se da qualidade da água. * O vazio configura-se como in-diferença amigável na qual quem vê é o visto, conforme expressões de Dōgen sobre burro e poço, pássaro e flor, indicando penetração recíproca em que o todo mora no ente singular e nada se recolhe em isolamento. * Reunião no despertar. * Penetração recíproca entre entes. * Todo presente em cada presença. * Tudo flui e a água penetra todas as distinções segundo Dōgen, suspendendo diferenças entre natureza e espírito e identificando montanhas e sábios, de modo que o exercício monástico implica tornar-se montanhoso ao assumir a face vista da montanha. * Água penetra chamas, coração e sabedoria. * Suspensão da oposição natureza e espírito. * Montanhas e sábios como iguais. * A distinção entre magia e visão cotidiana do vazio esclarece que as montanhas que fluem não resultam de transformação substancial, mas de penetração recíproca trivial e real, conforme o Mumonkan e o Shōbōgenzō, onde não há segredo nem maravilha, mas acontecimento ordinário. * Magia transforma substâncias sem superar substancialidade. * Vazio como trivialidade cotidiana. * Penetração recíproca sem essência fixa. * A cerejeira descrita por Dōgen encarna campo do vazio livre de compulsão identitária, podendo ser primavera, inverno, monge ou cheiro puro, numa unidade-total em que coisas mergulham em in-diferença comparável ao branco da neve que torna indistinguíveis flor e neve. * Multiplicidade sem fixação identitária. * Unidade-total sem opressão do próprio. * Indistinção graciosa entre formas. * A monocromaticidade do vazio não anula formas, mas lhes confere amplidão e profundidade, preservando figura sem rigidez substancial, conforme Yunmen e o Shōbōgenzō, onde a lua se espelha na água sem romper o individual, impedindo apenas o aferro a si mesmo. * Vazio não é negação do individual. * Penetração recíproca sem fusão substancial. * Lua e água como imagem de não imposição. * O vazio zen não equivale a niilismo, mas afirmação extrema do ser que nega apenas demarcações substanciais e instaura abertura afável em que cada ente é o mundo e hospeda o mundo inteiro. * Rejeição do niilismo. * Afirmação relacional do ser. * Mundo habitando cada coisa. * No quadragésimo koan do Mumonkan, Pai-chang, Wei-shan e o monge do trono superior ilustram a diferença entre apego substancial à identidade da jarra e gesto que a esvazia no campo do vazio, quando Wei-shan chuta a jarra e supera a fixação conceitual. * Resposta conceitual mantém identidade substancial. * Gesto singular esvazia a jarra. * Em A coisa, Heidegger interpreta a jarra a partir do vazio que comporta e presenteia, definindo sua essência como reunião de terra e céu, divinos e mortais no Geviert, mas mantendo o modelo de essência e certa interioridade que isola cada coisa como mônada sem janelas. * Vazio da jarra como comportar e presentear. * Reunião dos quatro como mundo. * Permanência do modelo de essência substancial. * Embora Heidegger pense o mundo como relação e jogo de espelhos entre terra, céu, divinos e mortais, recusando fundamentação causal e substâncias isoladas, introduz ainda interioridade sugerida pela figura do anel e pela referência a Deus extramundano que recolhe-se em si. * Mundo como mundar infundamentável. * Centro vazio do anel. * Presença de eixo teológico. * A interioridade reaparece no Deus desconhecido que é medida, permitindo invocação e impedindo esvaziamento completo do mundo, diferentemente do vazio zen que não aponta para anthropos nem theos. * Deus como medida desconhecida. * Mundo não totalmente vazio. * Ausência de referência transcendente no zen. * Heidegger utiliza a figura zen do vazio para pensar o ser como aberto mais antigo que as paredes da jarra, determinante e portador que demanda paredação em torno de si, atribuindo ao vazio função anímica e interiorizante. * Centro oco antecede paredes. * Vazio como determinante-caracterizante. * Interioridade do aberto. * O vazio heideggeriano é força recolhedora que reúne e ilumina presenças em tonalidade interior, concebendo o lugar como ponta da lança que recolhe e guarda, enquanto o vazio zen carece dessa ponta dominadora e dessa interioridade gravítica. * Vazio como Grund-Stimmung. * Lugar como recolhedor supremo. * Interioridade e voz no vazio heideggeriano. * A ausência de ponta no vazio zen indica ausência de centro dominador e de interioridade anímica, configurando coleção sem voz, dispersa e afável, mais radicalmente vazia que o vazio de Heidegger. * Falta de gravidade do sentido-de-si. * Disposição sem voz. * Afabilidade sem centro recolhedor. {{tag>"Byung-Chul Han" vazio leere budismo}}