====== 1 ====== //BUZZI, Arcângelo. A Identidade Humana. Petrópolis: Vozes, 2002.// **A IDENTIDADE NA MEMÓRIA DE SEU PURO NADA** 1. A questão fundamental da metafísica interroga por que há simplesmente o existente e não antes o Nada ([[lx>termos:n:nichts|Nichts]]), afirmando-se como a primeira e mais radical de todas as questões. 2. O saber mais lúcido que orienta o estilo de vida da identidade humana no mundo provém do sentimento do nada (Nichts) que constitui sua própria existência, na medida em que, ao buscar saber o que deve fazer e o que pode esperar, ela se reconhece como vida destinada à morte, ainda que viva na livre doação do verbo ser ([[lx>termos:s:sein|Sein]]) e possa proclamar-se existente. 3. A ameaça da não-existência não provém de fora, mas da própria identidade, e pode manifestar-se tanto em momentos de júbilo quanto, mais frequentemente, na monotonia quotidiana e na sobrecarga de compromissos, quando o nada da identidade humana se espelha com maior clareza no rosto de sua existência. 4. O nada que ameaça a identidade humana conduz à compreensão imediata da condição do ente ([[lx>termos:s:seiend|Seiend]]) que se é, revelando uma identidade mendicante do ser (Sein) e participante temporária de sua doação, o que, longe de levar à desistência, intensifica a pesquisa de suas raízes e origem. * A identidade que na memória de seu puro nada busca o sendo da existência situa-se, com isso, na própria questão de seu fundamento ([[lx>termos:g:grund|Grund]]). 5. Por pairar sobre um fundo-sem-fundo ([[lx>termos:a:ab-grund|Ab-grund]]), em total dependência de uma doação subtraída ao seu poder de apelo e comando, a identidade humana perscruta o fundo-originário que lhe dá sustentação. * O fundo originário não se mostra nem como um ente absoluto nem como um nada absoluto, mas como uma sub-stância, ou melhor, um sopro etéreo em retração, que ao dar-se de si permanece invisível e escondido. * Esse escondimento mobiliza a identidade humana não propriamente pelo interesse no escondido, mas pelo interesse naquilo que se mostra e se põe ao alcance de seu poder, à semelhança do faminto que se dirige não à vida, mas ao alimento ao alcance de suas mãos, louvando-o e agradecendo-lhe como sustento. 6. A imagem do senhor berbere que retorna da tosquia de suas ovelhas, cujo balido imita o murmúrio de uma corrente d'água capaz de tranquilizar os sedentos, ilustra poeticamente essa relação entre o patrimônio recebido e a origem escondida que o sustenta. 7. Entregue às ocupações do cotidiano familiar e aos negócios do mundo, a identidade humana pouco atende ao murmúrio da água escondida que sustenta seu patrimônio e pouco ou nada questiona a facticidade ([[lx>termos:f:faktizitat|Faktizität]]) que lhe é dada antes da tomada de consciência de si. * No mais das vezes, nas ocupações do cotidiano e nos negócios do mundo, a identidade humana deixa apenas entrever seu interesse e paixão em viver a existência no médium cultural prestigiado pela respectiva época. 8. Voltada hoje ao interesse de viver uma cultura tecnológica, alavancada pelas ciências positivas e incentivada pela educação em todos os níveis do saber escolar, a identidade humana evita defrontar-se com a questão de por que há a existência e não antes a não-existência. * Ainda que restrita à cultura do saber científico, cujo objetivo maior é apropriar-se da natureza, a identidade humana não apaga de sua memória o murmúrio do puro nada de sua vida. * Vale-se, assim, de imagens virtuais, para além da linguagem significativa, a fim de celebrar, no túmulo de seu nada, a presença de um vigor inefável e invisível que a sustenta. 9. A necessidade de, de quando em quando e à distância, tomar banho no túmulo é evocada como imagem do retorno periódico à consciência da própria finitude. 10. O inefável, que de fato existe, mostra-se por si mesmo ao místico. {{tag>Buzzi Nichts identidade}}