====== Curso ====== //BUZZI, Arcângelo. R. Itinerário: a clínica do humano. Petrópolis: Vozes, 1977.// 1. O encontro é a experiência dos caminhos da existência, nos quais se busca estar no poder de um saber o que fazer, como e por que fazer, com algum conhecimento de si e dos outros, com alguma ciência e sentido das coisas e dos acontecimentos. 2. Esse conhecimento de ciência e sentido é a consciência, o eu ou o nós, já sendo o encontro com a gratuidade de todos os caminhos, o nada da consciência. 3. Quando em tudo que se vê e toca, se sabe e ousa, se ouve, na fala dessa sabença consciencional, o silêncio de uma estranha doação, inaugura-se o encontro, compõe-se a comunidade. 4. Para conquistar o encontro é preciso um recurso, a consciência, apenas o curso por onde se segue buscando o encontro, o reino da comunidade. 5. As vias de uma paisagem não são a paisagem, mas é por onde se é encaminhado a ela, assim como a consciência do encontro não é o encontro, mas é no curso da consciência que se é endereçado à paisagem do encontro, à nosidade. 6. No mais das vezes, no seguimento de um caminho ou curso de consciência, não se ousa seu percurso até o fim, até sua essencialidade, o nada ou o vazio de sua consistência, intimidando a contingência, a subtração de sua doação. 7. Por estar-se apenas no curso, no tão-só da consciência do que se é e pode, a tristeza e o abandono visitam sem o convívio do encontro, dizendo as escrituras que ninguém que põe a mão no arado e olha para trás chega ao reino da comunidade, ao céu de todos os caminhos. 8. O curso é uma consciência definida, uma interpretação da existência, um modo subjetivo de ser e consequentemente um modo objetivo de falar. 9. A subjetividade é o espaço onde se fala de si, das coisas e dos acontecimentos, a possibilidade de convocar tudo quanto existe a comparecer na objetividade da fala, medindo-se a realidade no horizonte de sensações, desejos, teorias e imaginações, fazendo surgir o universo da arte, da religião, da política, da economia, da ciência e da técnica, universo da pesquisa ou objetividade do homem. 10. Vê-se as coisas no jogo de imagens, por um sistema de espelhos, sendo a subjetividade uma sala de espelhos que refletem a realidade, o mundo sempre uma especulação, um ver como num espelho, sendo a imagem do espelho a objetividade do subjetivo de quem olha. 11. Esse subjetivo objetivado nunca é diretamente o natural das coisas e de si mesmo, sendo um universo artificial, um mundo de ilusões trágicas, dramáticas e cômicas, obra de engenho e talento do homem, que vive sempre num mundo artificial, cultural ou ilusório, jamais vendo o natural da montanha, do mar ou das criaturas da terra, sendo por isso os caminhos dor e pesadelo. 12. Pesadelo porque nunca a consciência dos passos de quem caminha é direta e imediatamente o vigor do natural, sendo a maloca de sapé tão artificial quanto o bloco de concreto, a fumaça da lareira campestre tão artificial quanto a chaminé da fábrica moderna, o dardo tão artificial quanto o foguete atômico, vivendo o homem o natural obliquamente, na poluição de uma interpretação. 13. O sentimento, a ciência, a fé e a esperança das coisas nunca são as coisas, estando a realidade em sua identidade ali em silêncio solene e absoluto, em doação inacessível aos desejos do coração e inexpugnável às ideias da razão, vivendo-se por isso num mundo de dor, sendo a consciência sempre o hiato que separa da identidade serena das coisas, da verdade ou da autoridade libertadora da realidade. 14. Os caminhos da existência são rios que deságuam no mar da dor, no pesadelo da separação, caindo a consciência, na impaciência da dor, na tentação da onipotência, pretendendo, mediante o exercício de seu poder, acelerar e instituir a solidariedade, o advento do encontro, o paraíso da convivência, sendo toda consciência, no encanto de seu poder, sempre déspota potencial. 15. A existência passa então a ser não mais a paciência da espera, mas a exaltação da consciência, que em suas formas mais agudas alcança os paroxismos da virulência sádico-masoquista, advertindo o poeta que, se não se esperar, não acontecerá o inesperado, pois é difícil de ser encontrado, e que na paciência se possuirá a própria alma. 16. A exaltação da consciência é a característica mais conspícua da modernidade, sendo o homem moderno, em todo modo de ser, desempenho de poder de existência na ansiedade do encontro, sem a serenidade e a paciência da espera, tendo perdido o senso da simplicidade franciscana, presumindo-se onipotente e exaltando seu saber e poder como autoridade de existência, de modo que a ciência e a droga se igualam, pois nem uma no frio cálculo, nem a outra no frenesi do impulso desenfreado, são autoridade de encontro. 17. A consciência é sempre uma preferência, e na sua exaltação o céu e a terra são cobertos, refletindo o espírito apenas sua preferência e nada das coisas da terra, dizendo um poema chinês que o Grande Caminho (Tao) é simples e não tem preferência, abrindo-se por si onde não há preferência, mas surgindo, onde há preferência, a cobiça de dois que cobre os olhos do Céu e da Terra e faz o espelho cordial do espírito nada refletir de seu Nada. 18. O definido-consciencional, o universo objetivo ao alcance de nossas possibilidades, a cultura ou o mundo, nunca são, porém, tão-só produto da consciência, pois se ali só se ouvir a manha do que se pode, não há mais acolhimento de doação e, consequentemente, não há encontro, havendo isolamento, narcisismo, sendo ouvir apenas a consciência monólogo, não diálogo. 19. No Grande Caminho do simplesmente ser, o rosto sadio da criança não é mais espetáculo que o corpo chagado do leproso, mas a preferência cobre os olhos e sua cobiça não deixa acolher o céu da terra que se vive. 20. O anjo Gabriel, enviado por Deus a uma Virgem de nome Maria em Nazaré da Galileia, anuncia-lhe que, cheia de graça e achando graça diante de Deus, conceberá e dará à luz um filho que será chamado Filho do Altíssimo, ao que Maria, turbada, pergunta como se fará isso não conhecendo varão, respondendo o anjo que o Espírito Santo descerá sobre ela, e Maria aceita ser a serva do Senhor, fazendo-se nela segundo a palavra do anjo. 21. Maria conquista, na submissão ao fiat, o céu de todos os caminhos da terra, chamado filho do Altíssimo, não sendo o fiat uma situação ou escolha oposta a outra, pois Maria não escolhe, o humano não escolhe, é sempre escolhido, sendo o fiat a virtude de todos os caminhos, o Grande Caminho, simples e sem preferência. 22. Na força do fiat abre-se o caminho por si, naturalmente, seguindo Maria em pura disponibilidade, deixando ser nela o Grande Caminho e perfazendo assim a obra do encontro da terra e do céu, instaurando no Magnificat seu caminho como obra-prima, sendo por isso o texto de Lucas arquetípico, contendo a origem, a passagem e o destino de todos os caminhos da terra. 23. Salvar o humano é abrir espaço ao fiat para deixar ser em cada caminho a força ou virtude do Grande Caminho, na qual os diferentes e contrastantes caminhos da terra aportam todos a seu destino, ao porto da serenidade no Uno. 24. O monólogo consciencional é a estrada do inferno, caminho sem encontro, declarado pelo poeta como cidade dolente de eterna dor e gente perdida, a consciência no curto-circuito de si própria, sendo o inferno sempre a fala da consciência na circuição de suas ideias, interesses e desejos. 25. O inferno é uma região não suficientemente humana, um lugar onde o humano decidiu estar na competência exclusiva de si próprio, resistindo a acolher o nada de sua consciência, os estranhos caminhos da doação, como canta a Ninfa a Narciso que, se este não pode ou não quer amar de amor outra pessoa além de si mesmo, nada de humano há nele, condenando sua beleza que a natureza reprime, tal sendo a ordem divina. 26. O caminho humano, nessa viagem narcisista, ingressa cada vez mais no circuito fechado de sua subjetividade, sem transcendência, sem abertura, sem diálogo, sendo o monólogo o curto-circuito da dor. 27. O poeta, fazedor perfeito da obra, no íntimo mais íntimo da dor de todo curso de consciência, recorda, traz para a cordialidade da afeição o brilho das coisas, a jovialidade dos caminhos, a alegria de um destino incomparável, estando as sendas humanas na ressonância esquecida desse destino, a eterna cidade, o encontro com a ausência da consciência. 28. Quando na lógica do saber, na sala fechada da consciência, ecoar a gratuidade dos caminhos como o nada da consciência, as figuras dolentes desses caminhos de calvário tornam-se rumor de anjos anunciando o surgimento do mundo em liberdade, saindo-se então do inferno para o céu, a rever as estrelas, íntimo mais íntimo da consciência, o amor que sopra todos os caminhos e move o sol e as demais estrelas. 29. A consciência é, por conseguinte, o solo de trabalho, o caminho que destina à paisagem de nossa identidade, o tesouro da gratuidade, efetuando-se o encontro com esse tesouro quando, junto à consciência, se ausculta o nada da consciência, sendo dialogar nesse espaço com o nada da consciência emergir para a sintonia da vida. 30. Isto quer dizer que o tom da existência se afina não imediatamente a partir da decisão da consciência, mas do nada do poder e do saber da consciência, sendo ouvir essa nulidade em toda decisão de consciência compor um encontro interminável, repetindo-se em todos os caminhos a parábola evangélica de Marta que, no zelo recolhido do fazer, chega, qual Maria, à promessa do encontro. 31. O regente da orquestra, acolhido desde o primeiro toque por aquilo que ainda não é, que lhe dá a possibilidade da entoação sinfônica dos instrumentos e das notas dispersas, é sustentado nesse apenas nada do tom no desenvolvimento da tarefa, instaurando-se assim seu curso como obra-prima, pois a consciência ouve e acolhe o nada de seu poder e saber, a melodia que, qual musa, inspira a execução da pauta e a regência dos instrumentos. 32. Embora presa ao curso de uma consciência, a vida é uma sinfonia se formos bons regentes das palavras de nossa consciência, sendo a sinfonia da orquestra o silêncio do regente na conquista de sua regência, e a sinfonia do encontro o silêncio da consciência na conquista de sua fala. 33. O caminho para o desempenho afinado do encontro é o do regente de orquestra, a disposição da escuta, só podendo acontecer, na audiência, a perfeita execução da consciência que agracia a sintonia do encontro. 34. Trazer para a consciência a força subterrânea que vigora os caminhos da existência, de modo que o nada de nosso poder irrigue todo fazer quotidiano, é o que os antigos chamavam de exercícios espirituais, precisando-se, para ser tocado por sua força, não de técnicas ou métodos novos, mas da vontade simples e decidida de fazer o pouco que realmente se pode fazer agora. 35. Os exercícios da razão pretendem conquistar uma ideia comum a todos os caminhos, enquanto os exercícios do espírito pretendem conquistar aquele modo de ser próprio de todos os caminhos, universal porque libera em sua identidade todos os caminhos. 36. A mesma identidade e liberdade em todos, porém, se dá cada vez como história, como crescimento de quem caminha, nunca sendo o mesmo caminho igual na história, por ser cada vez diferente sendo todo liberdade e universalidade. 37. Isso é dito na estória chinesa do monge forasteiro e do leigo vizinho que, ao baterem à porta do mosteiro, recebem do mestre a mesma resposta — vai tomar uma xícara de chá — apesar de suas situações opostas, sendo a resposta a mesma, mas não igual, tendo ressonâncias diferentes conforme a caminhada de cada existência. 38. Tomar uma chícara de chá pode parecer banalidade, mas, acolhida dentro da história da caminhada de cada existência, estrutura-se em desafio e provocação de crescimento, sendo o modo de ser desse crescimento o mesmo e sua concretização cada vez diferente, chamando os antigos do oriente e do ocidente esse modo de ser em crescimento de Via ou Caminho, sendo peregrino quem está em via, como Francisco de Assis chamava o frade menor. 39. O peregrino viaja rumo à sua identidade fundamental, que concresce e marca seu sinete nos passos que atravessam as vicissitudes da vida, aparecendo no rosto do peregrino como caráter, cunhando-lhe uma fisionomia inconfundível, dizendo seus pés e seu rosto a via ou o caminho, símbolos de sua identidade. 40. O encontro é sempre interesse de amor, só os audientes da amabilidade do que vivem executando com perfeição a consciência do encontro e entoando, sem desafinar, as regras e normas do concerto da vida. 41. A determinação exata do tom afinado do encontro escapa ao poder e saber da consciência, sendo estar no saber e no poder da ação apenas estar no curso e não ainda no encontro, sendo o curso caminho e senda perdida do encontro. 42. Caminho porque conduz à identidade do próprio ser, à gratuidade; senda perdida porque o caminho é apenas longa odisseia, viagem de conquista ao que já se era, via de retorno à infância da origem, cuja insistência é o destino, sendo a viagem de retorno à origem-de-destino a experiência do caminho como senda perdida. 43. O endeusamento da consciência, a onipotência de decretar a ciência da ação e o sentido da convivência humana, constitui a torre de Babel, a confusão, antítese do encontro, impedindo a onipotência de saber e de sentido o encontro, enclausurando a consciência no monólogo por excluir o diálogo com sua identidade, a doação, cujos abismos só podem ser admirados e jamais compreendidos. 44. A onipotência de saber e de sentido da consciência é sempre monolítica, qual torre de Babel, rolo compressor, aparentando força mas de consistência frágil, sempre temerosa e cega à gratuidade desarmada da vida, como o homem temeroso que, tornando-se pai, treme e acende uma lâmpada, correndo a olhar angustiadamente no rosto do filho recém-nascido, temeroso de ver com quem ele se parece. 45. A linguagem religiosa é uma consciência de vida, um curso que, percorrido, liberta do isolamento e encaminha ao encontro, à perfeita sintonia da vida, tematizando-se nos ritos do Batismo, da Penitência e da Eucaristia, explicitados no contínuo diário pelos votos de Pobreza, Obediência e Castidade, sendo o sacramento memória da gratuidade dos caminhos da existência e o voto a boa vontade de celebrar sua essencialidade gratuita na determinação concreta de uma rotina diária. 46. A linguagem religiosa não é apenas uma consciência ao lado de outras, nem tão-só um curso ao lado de outros cursos, pois, embora se apresente instituída em dogmas e ordenações canônicas, pretende, na memória dessa fala, evocar o silêncio imemorial de todas as falas e dizer a doação inacessível de todos os caminhos, precisando de uma fala para recordar o silêncio como identidade de toda fala. 47. Ao se percorrer a via da linguagem religiosa, estranha fala da consciência, vence-se aos poucos o sofrimento fundamental de todos os caminhos da existência, o isolamento, percebendo-se, na senda perdida desse caminho-de-fala, ser-se a nota silenciosa de uma fantástica melodia, hálito de um sopro, criança de uma vida sem memória, tão bem contida na lenda árabe da adolescente da noite. 48. Na lenda árabe, a adolescente que chega diante do casebre de porta estreita e ouve alguém chorar por ela como se chora pelos mortos bate à porta e, perguntada quem está ali, responde sou eu, permanecendo a porta fechada e o interior em silêncio. * Revestida do véu da meditação, estende-se por terra junto à porta, dia e noite, compreendendo em seu coração que os privilegiados do Amor devem morrer completamente a si mesmos antes de se apresentarem diante do Amor. * Tendo compreendido isto, levanta-se, lava-se no rio e, com passo decidido, volta a bater à porta, respondendo desta vez, à mesma pergunta, és tu, ao que a porta se abre por si mesma, sendo o resto o mistério privilegiado do Amor. {{tag>Buzzi consciência}}