====== Befindlichkeit ====== **A NOÇÃO DE [[lx>termos:b:befindlichkeit|BEFINDLICHKEIT]] NO PERCURSO FENOMENOLÓGICO DE HEIDEGGER** 1. O artigo defende que a afectividade, tal como Heidegger a concebe, é o momento inicial da compreensão e que o longo caminho heideggeriano não trai a sua inicial confissão fenomenológica, mesmo se aparenta alhear-se dela, percorrendo a evolução do conceito de //Befindlichkeit// desde as lições sobre Agostinho até aos //Beiträge//. 2. Ao contrário da tradição filosófica moderna, que tratou a afectividade de forma subsidiária da representação, e ao contrário de Husserl (para quem os sentimentos são meras qualidades do acto noético ou modalidades da intenção objectiva) e de Scheler (que os compreende como constituintes intencionais de uma objectividade dos valores), Heidegger introduz a estruturação afectiva da compreensão como elemento basilar da existência histórica, centrando a análise naquilo que constitui o "entre", a relação constitutiva do //Da-sein// no seu carácter ontológico, prescindindo da díade sujeito-objecto e da consideração representativa. 3. A afectividade (//Befindlichkeit//) é o momento inicial da compreensão, a abertura no seu sentido mais próprio e primordial, sendo o sentir radical que coloca no meio do ente no seu todo, e caracteriza-se por uma dupla característica: * O carácter de "co-originariedade" inerente à tríade estrutural do fenómeno global da compreensão, instituinte do sentido – //Befindlichkeit//, //[[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]]//, //[[lx>termos:r:rede|Rede]]//. * O "estar-vinculado" (//[[lx>termos:a:angewiesenheit|Angewiesenheit]]//) ao mundo, raiz passiva da intencionalidade, de que procede tudo o que vem ao encontro, sendo o deixar-se afectar que permite aperceber-se do que afecta. 4. A decisão de traduzir //Befindlichkeit// por "afectividade" baseia-se na génese deste instrumento conceptual nas lições de 1921 sobre Agostinho de Hipona, onde Heidegger traduz as //affectiones// como //[[lx>termos:a:affektion|Affektion]]// (afecção corporal) ou //[[lx>termos:a:affekt|Affekt]]// (repercussão íntima das impressões num estado de alma), e onde o //mihi ocurro// (encontrar-me comigo mesmo) une o facto do agir com o sentir-se agindo (//affectus fuerim//), sendo este sentir-se a forma como o ser do "aí" ocorre e se dá a si mesmo. 5. Na conferência "O Conceito de Tempo" (1924), Heidegger verte as //affectiones// do texto agostiniano pelo neologismo //Befindlichkeit//, reunindo numa designação única o que caracteriza a porosidade afectiva: a permeabilidade do sentir e do sentir-se, que dá sentido ao que é sentido, e que expressa três coisas: * O deixar-se afectar (intencionalidade implícita). * A repercussão disso num estar/sentir-se afectado, que retém e guarda no sentimento o percebido. * A afeição, o vínculo de quem se deixa afectar com o que veio afectá-lo, que afecta a compreensão deste último e de tudo o que com ele se manifesta. 6. Em //Ser e Tempo//, a afectividade (//Befindlichkeit//) é descrita como co-originária relativamente ao compreender e, com este, já de antemão discursivamente articulada na produção de sentido; enquanto "existencial", ela não é um mero estado de ânimo particular (//[[lx>termos:s:stimmung|Stimmung]]//), mas o estar de antemão afinado (//[[lx>termos:g:gestimmstein|Gestimmstein]]//) com o que se nos dá e aparece, e a dimensão afectiva do //[[lx>termos:d:dasein|Dasein]]// converte-se em categoria ontológica, pois nada do que se dá e percebe carece de cunho afectivo. 7. A análise das //Stimmungen// concretas em //Ser e Tempo//, como o medo, é feita a título exemplar para revelar a estrutura da afectividade em geral, que é triádica: * O //[[lx>termos:w:wovor|Wovor]]// (ante quê): algo intramundano, temível, que tem o carácter de ameaçador (//Bedrohlichkeit//). * O //[[lx>termos:f:furcht|Fürchten]]// (temer propriamente dito): articulação dinâmica do que é ameaçador com aquele em virtude de quem a ameaça tem sentido. * O //[[lx>termos:w:worum|Worum]]// (em virtude de quê): o próprio //Dasein//, que constitui o terceiro momento. 8. O medo modula-se segundo diversas possibilidades: susto (//Erschrecken//), terror (//Entsetzen//), horror (//Grauen//), timidez, temor reverente, ansiedade, estupor, entre outros, mas em todas as modalidades há um denominador comum (o Perigo) que, no entanto, só vem a ser tratado na estrutura da obra no capítulo dedicado ao cuidado, com a angústia. 9. A angústia não é uma mera //Stimmung// ancorada no intramundano, mas uma //[[lx>termos:g:grundbefindlichkeit|Grundbefindlichkeit]]// do próprio //Dasein//, a inquietude em que consiste a compreensão explícita da absoluta finitude do //Dasein//; ela não tem um correlato intencional autêntico, pois o "Perigo" que detecta é absolutamente indeterminado, sendo a ameaça do absolutamente inquietante, a que o //Dasein// se sente intimamente exposto, e expressa em uníssono a estrutura ontológica total do cuidado: //Befindlichkeit//, //Verstehen//, //Rede// no seu sentido e exercício mais próprios (//Eigentlichkeit//). 10. Nos //Beiträge zur Philosophie// (GA65 1936-38), a afectividade é tema desde o momento inicial, pois o novo ensaio de pensar brota de uma porosidade afectiva originária: um pressentimento ou augúrio (//Erahnen//) de algo sem figura, ainda longínquo e contudo adivinhado numa proximidade sem medida, que não inunda de espanto e admiração como o //thaumazein// grego, antes inquieta e retrai como o desconhecido sem rosto nem possível conceito. 11. A consideração heideggeriana nos //Beiträge// desliga-se da consideração dos aspectos ônticos da existência humana para se centrar exclusivamente na referência ontológica do que acontece no mundo humano; o pressentir (//Ahnen//) abre a amplitude de encobrimento do atribuído e, talvez, recusado, e tem um sentido temporal, abrindo uma outra história do ser, uma possibilidade alternativa de acolhimento do ser. 12. A //[[lx>termos:g:grundstimmung|Grundstimmung]]// (afinação de base) do pensar no outro início, designada como uma tríade – //[[lx>termos:e:erschrecken|Erschrecken]] - [[lx>termos:v:verhaltenheit|Verhaltenheit]] - [[lx>termos:s:scheu|Scheu]]// –, constitui o meio articulador do todo no seu nexo intrínseco, sendo a //Verhaltenheit// (reserva silenciosa que atende aguardando) o elemento intermédio que determina e afina os outros dois. 13. O susto (//Erschrecken//) é a resposta inicial ao sido, à época da maquinação técnica e à sua história; a reserva silenciosa (//Verhaltenheit//) é o estilo do Outro Pensar, cujo //Wovor// é o Ser na sua essenciação; o temor reverente (//Scheu//) é a vigilância na proximidade do longínquo, a que Heidegger chama o deus derradeiro; desta tríade deriva a configuração arquitectónica da obra do pensar no outro início da História do ser. 14. O cuidado (//[[lx>termos:s:sorge|Sorge]]//) enquanto cunho fundamental do //Dasein// é o que procura, guarda e vigia, e o lugar que a angústia ocupava no cuidado de si do //Dasein//, ao adivinhar o seu ser mais próprio, é agora ocupado pela reserva (//[[lx>termos:v:verhaltenheit|Verhaltenheit]]//), enquanto cuidado do Ser ele mesmo, no augúrio da sua mais extrema aparição fugaz, mantendo-se a referência temporal e o sentido básico da atenção cautelosa e solícita, mas com o contexto existencial a desaparecer para sobressair o contorno histórico da referência à produção cultural no mundo humano. 15. O caminho seguido por Heidegger segue os passos do que chama Fenomenologia, pois esta é a possibilidade do pensar que, indo-se transformando com os tempos, permanece como tal para corresponder à exigência daquilo que há que pensar-se, podendo desaparecer enquanto título em favor da "coisa do pensar" (//Sache des Denkens//), cujo estar-revelado continua a ser um mistério. {{tag>Borges-Duarte}}