====== Angústia ====== //CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.// ** Angústia e desamparo (Angst und Verlassenheit) ** 1. A reflexão sobre a situação parte de uma análise da angústia ([[lx>termos:a:angst|Angst]]), sendo necessário lembrar sua função na analítica existencial ([[lx>termos:e:existenziale-analytik|existenziale Analytik]]) de Heidegger, questionando-se por que considerá-la a disposição afetiva ([[lx>termos:s:stimmung|Stimmung]]) reveladora por excelência, privilégio que Bollnow criticava, e cuja compreensão exige entender como a angústia se relaciona ao conjunto da analítica existencial e em que sentido dela é o centro. 2. A angústia, segundo Heidegger, revela a totalidade do ser-no-mundo ([[lx>termos:i:in-der-welt-sein|In-der-Welt-sein]]) ao desmembrar sua estrutura, sendo aquilo que propriamente desarticula, desunifica e esgarça em seus elementos fundamentais a construção do ser-no-mundo, revelando seus elementos constituintes e ligando-se à extrema ruptura da exteriorização, afetando tanto o ser do homem em sua relação extática ao mundo quanto o próprio Mundo. 3. O desmembramento não apenas arranca o homem de sua inautenticidade, mas age como aguilhão que o força a tomar posição, sendo a tomada de posição, a decisão resoluta ([[lx>termos:e:entschlossenheit|Entschlossenheit]]), também uma escolha em prol do Mundo, revelando a angústia que o mundo exige um comportamento a seu respeito, em face dele. 4. O comportamento do homem exprime-se no cuidado ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]]), possuindo este dupla significação: a preocupação cotidiana subordinada à multiplicidade das tarefas, seu aspecto prático, e o comportamento autêntico do homem que decide enfrentar sua situação e assume a contemplação implícita do Mundo enquanto Mundo, sendo assim dupla possibilidade do fazer e do ver. 5. O cuidado é rico em sua dupla significação por ser ao mesmo tempo ser-no-mundo e ser dentro do mundo, visão do Mundo e intramundanidade, sendo somente a análise do cuidado que entrega a totalidade da existência como relação-ao-Mundo no seio do círculo da preocupação. * Heidegger afirma que o cuidado abraça a unidade das determinações de ser — faticidade ([[lx>termos:f:faktizitat|Faktizität]]), decadência ([[lx>termos:v:verfallenheit|Verfallenheit]]) e projeto ([[lx>termos:e:entwurf|Entwurf]]) — não requerendo seu estudo o primado do prático sobre o teórico, sendo a estrutura total do cuidado o adiante-de-si-já-lançado-junto-a (Sich-vorweg-schon-sein-in... als Sein-bei). * Heidegger evoca em "Introdução à Metafísica" um querer análogo ao cuidado, afirmando que "querer não é simplesmente desejar e aspirar a...", sendo aquele que quer, que coloca todo o seu ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]) numa única vontade, resoluto, e a resolução não adia nada, não se furta, mas já age sem trégua. 6. A ação, antes de desembocar numa realização, deve reunir-se em si mesma e haurir sua força nesse recolhimento, não sendo o recolhimento em si mera acumulação de energia, mas habitado pelo saber do ser, sendo a essência comum do Agir e do Saber, aqui liberada, o Querer, unidade do ser e da presença. 7. O cuidado é essa unidade, por ser o comportamento anterior aos comportamentos, a atitude anterior às atitudes diante do fenômeno do Mundo, requerendo este, em sua essência, que o homem tome posição, remetendo isso à disposição afetiva originária da angústia. 8. A angústia é o solo afetivo do ser-no-mundo porque a afetividade desempenha papel primordial em sua constituição, desenvolvendo Heidegger no parágrafo 29 de "Ser e Tempo" os aspectos fundamentais da questão, tendo as disposições afetivas função de abertura por colocarem o homem diante de seu ser-aí, com capacidade reveladora superior à tendência explicitadora do conhecimento. 9. O ser-no-mundo é afetivo por não ser objeto visto, produzindo-se a inserção do homem no mundo antes de toda possibilidade de visionar objetivamente os limites da existência, sendo o ser-aí um sentir-se afetado ([[lx>termos:s:sichbefinden|Sichbefinden]]) no qual os limites são dados antes de toda visão, não se acrescentando essa função de abertura e revelação à afetividade de fora. 10. Não há um ser-aí ao qual se acrescentaria depois uma coloração afetiva, sendo o ser-aí, situado entre o finito e o infinito, em si mesmo essencialmente afetivo, não vindo a afetividade nem de fora nem de dentro, mas surgindo como modo do próprio ser-no-mundo, sendo unidade do fora e do dentro, a própria abertura. 11. A originalidade das análises heideggerianas está em considerar a afetividade como o tecido da relação ao ente implicada na abertura do mundo, sendo sensibilizados quanto ao nosso aí ([[lx>termos:d:das-da|Da]]), afetados pelos objetos encontrados, chamando Heidegger essa afecção de [[lx>termos:b:betroffenheit|Betroffenheit]], sublinhando seu caráter de irrupção, surpresa, penetração e violência. * Heidegger afirma, em "Da Essência do Fundamento", que "aquilo que transcende e assim se eleva deve, enquanto ser que transcende, sentir-se em meio ao existente", sendo a realidade humana, nessa situação afetiva, tão investida pelo existente que, pertencendo a ele, está afinada ao tom desse existente que a penetra. 12. Esse acordo ao tom, tradução literal de Stimmung, significa a harmonia musical, a ressonância que desperta de nossa abertura, vibrando porque a transcendência é comércio com o ente, não apenas encontro com ele, mas ser-em-comum com ele, descobrindo-se o próprio Dasein como realidade ôntica. 13. O cumprimento da transcendência é advento da finitude do homem, autodescoberta de si como estando no mundo, situando-nos essa descoberta entre o finito de nosso aí e o infinito da abertura, na dobra ou articulação dos dois, sendo assim um despertar do sentimento. * Henri Birault resume que "há, portanto, sentimentos cujo caráter pânico é imediatamente aparente", pertencendo contudo esse caráter, de modo constitutivo, a todo sentimento seja ele qual for, sendo ser afetado ser ultrapassado, invadido ou transbordado. * Birault acrescenta que "a cada vez... é o fundo ou a totalidade da vida que é subitamente apreendida em sua verdade estupefaciente e provisoriamente eterna", não sendo o indefinível o incompreensível, pois o que se recusa ao conceito não se recusa necessariamente à inteligência. 14. Se a angústia é retida em primeiro lugar entre as disposições afetivas, é porque está especialmente aparentada à [[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]], ao modo de encontrar-se-aí numa situação já dada, tornando afetivo nosso conhecimento a articulação do mundo e do intramundano, sendo concernida tonalidade ligada privilegiadamente à nossa finitude, engastada no ângulo que reúne e separa Mundo e ente. 15. A estreiteza da angústia aparece nas análises do parágrafo 40 de "Ser e Tempo", possuindo a angústia um [[lx>termos:w:wovor|Wovor]] (aquilo diante do que) e um [[lx>termos:w:worum|Worum]] (aquilo por causa do que), sendo a unidade desses dois aspectos o caráter estreito da angústia. 16. A angústia é a revelação de um Nada que corta o fôlego, não nos fazendo esse Nada perder amarras e flutuar no vazio sem nos projetar numa ausência de Mundo, sendo antes a manifestação do Mundo como Mundo, o qual, ao se destacar em totalidade do ente, remete este a sua vaidade, a sua insignificância, nós inclusive, que somos um desses entes. * Produz-se um desmembramento, uma distinção do ente e do Mundo, pelo qual o Mundo emerge em si mesmo, surgindo numa solidão própria como o não-ente, que não pode ser nenhum dos entes, sendo o Nada no qual tombamos o Nada de ente. 17. A angústia é o fato de sentir-se oprimido pelo ser-no-mundo enquanto tal, vindo a opressão e a coerção do fato de que, diante da elevação do Mundo, o ser que aí se descobre é rejeitado sobre si e como que sufocado por sua pequenez, sendo a angústia visão do Mundo, sendo este o Wovor da angústia. 18. A rejeição sobre si do ente para quem se cumpre o exorcismo dilacerante faz-lhe sentir sua insuficiência, sua solidão, a ausência de todo auxílio e providência, eis por que a existência aparece sob a luz de um problema prático, produzindo-se certa centração sobre si, um reforço do egoísmo. 19. As observações de O.F. Bollnow sobre o caráter egoísta da angústia são um tanto injustas, pois a atitude do homem angustiado, exclusivamente voltado para suas necessidades e incapaz de se abrir às coisas em si mesmas, é apenas meia verdade, sendo a angústia também modo de abertura, complementares a centração, o repliegue sobre si e o cuidado de uma visão do Mundo. 20. A angústia conduz o homem à encruzilhada de suas possibilidades, colocando-o em situação de escolha, remetendo-o à decisão concernente à autenticidade e inautenticidade de sua vida, pois revela a finitude inexorável e o intima a enfrentá-la, acentuando as necessidades da existência e colocando-nos diante de nossas possibilidades derradeiras. 21. O confronto do homem com seu destino não tem significação estritamente antropológica, mesclando-se antes intimamente o antropológico à dimensão ontológica e cósmica, pois a decisão atual do homem concerne à essência do Mundo, sendo esse aspecto do problema central e concernida pela modificação da angústia a estrutura total do ser-no-mundo. 22. A angústia possui um Worum, angustiando-se não apenas diante (do Mundo) mas também por causa de, sendo o por causa de o Dasein, o próprio ser-no-mundo, tendo-se evanescido a utensilidade das coisas, não oferecendo mais o Mundo ancoragem para nossa ação, nem esperança ou segurança, revelando-se a nudez de nossa condição. 23. É, portanto, também de nós mesmos que nos angustiamos, sendo angustiar-se de si mesmo ainda ser levado diante do caráter potencial da existência, ou de seu caráter de escolha, trazendo-nos a angústia ao nosso ser-livre-para ([[lx>termos:f:freisein-fur|Freisein für]]), sendo essa liberdade diante da qual somos impelidos sintoma de finitude. * Heidegger afirma, em passagem citada no original alemão, que "die Selbigkeit des Wovor der Angst und ihres Worum erstreckt sich sogar auf das Sichängsten selbst", explicitando que a identidade existencial do abrir com o aberto revela que, no fenômeno da angústia, uma disposição afetiva eminente se tornou tema da interpretação, individualizando a angústia o Dasein como solus ipse. 24. Esse solipsismo existencial nada tem a ver com subjetividade vazia de mundo, constituindo antes a posição de um problema fundamental da filosofia, evocando o texto a identidade do movimento de abertura e daquilo que nele está situado, o Dasein, sendo o recobrimento da abertura pela abertura realizada tema fundamental de "Ser e Tempo". 25. A tensão mundana que precede todos os lugares e os retém em si para abri-los é idêntica à exterioridade aberta dos lugares, recortando-se o Mundo e a intramundanidade, conferindo o recobrimento da exteriorização e da exterioridade ao Dasein papel central, sendo o Dasein o próprio recobrimento. 26. O estiramento, o esgarçamento que remete ao angustiar-se a si mesmo, exprime a identidade do Wovor e do Worum, do Mundo e do ser-aí, fazendo a identidade do situante e do situado, característica da abertura cumprida, recair o Todo da abertura sobre a abertura já feita, ficando esta dilacerada, senão dissolvida. 27. A imagem do estiramento evoca distensão próxima do rompimento, implicando esse processo remissão ao Dasein, único capaz ainda de manter de pé e reunir a estrutura em vias de aniquilamento, implicando isso o isolamento e o repliegue do Dasein, pois, justamente por ultrapassá-lo, a exterioridade não o sustenta. 28. A exterioridade não se revela como meio portador, não sendo a Terra-Mãe da qual o Dasein tira sua existência, cabendo por isso a ele a tarefa de sustentá-la, tornando-se assim o ser de seu próprio fundamento, tornando-se o Dasein, a partir do vazio de seu êxtase, o polo unificante da abertura. 29. Isso ressalta dos trechos sobre a decisão resoluta e a repetição ([[lx>termos:w:wiederholung|Wiederholung]]) que se podem aproximar do tema da angústia, sendo a decisão resoluta um projeto concernente à dívida que nos engaja em propriedade, tendo nós de assumir uma herança, sendo essa herança o já-estar-lançado-no-mundo. 30. Dessa herança nascem as possibilidades da existência autêntica, sendo esta retomada do ser-no-mundo, devendo a existência lançada no mundo assumir essa herança, sendo-nos certas possibilidades anteriores que não criamos entregues e remetidas como possibilidades, sendo o ser-no-mundo a possibilidade primeira, um projeto. * O autor afirma que, "uma vez apreendida, a finitude da existência arranca-a da multidão de possibilidades imediatas que se oferecem como indefinidas: bom prazer, facilidade, evasão", colocando a realidade humana na simplicidade nua de seu destino. * Acrescenta que, "atirada de um lado para outro por seus afazeres, ela [a realidade humana] deve primeiro ir à busca de si mesma, reunir-se escapando à dis-tração e à incoesão". 31. A unificação consigo não concerne apenas à coerência da vida humana, mas se estende à estrutura completa do ser-no-mundo, falando o texto de uma superpotência da impotência, assumindo a realidade humana o fato de estar entregue a si mesma. 32. O Dasein, entregue a si mesmo por estar aberto à exterioridade, tem por missão assumir sua finitude e retomar livremente seu ser-no-mundo, exigindo este ser retomado por ser situação de abandono, não sendo o Mundo o fundamento próximo de nossa condição. 33. Ao fundar nossa condição, o Mundo revela-se como ausência de fundamento, revelando-se como fundamento de nosso abandono e, por isso, não mais nos sustentando, deixando de ser inteiramente um fundamento, determinando a autenticidade de nosso comportamento nossa situação. 34. Nossa situação só será verdadeiramente tal quando a tivermos retomado e assumido voluntariamente, tendo por isso o ser-no-mundo também a condição de ser reconhecido, desenhando-se cada vez mais a identificação entre ser-no-mundo e atitude, sendo o destino uma auto-transmissão-antecipativa. 35. É impossível diferenciar aquilo que constrange o homem do movimento pelo qual ele se projeta adiante, constituindo-se em co-constituinte do ser, tendo a antecipação necessitada estrutura temporal edificada sobre o instante, retomando e assumindo a existência no instante o passado que lhe é transmitido. 36. Uma existência abandonada a si mesma não tem o ócio de apoiar-se nem no futuro nem no passado, repousando seu destino sobre ela mesma e sua decisão, repousando nossa existência sobre o instante em razão do caráter extático do futuro, ou de nossa tendência a nos abrirmos a ele, sendo o futuro ameaçador por ser vazio. 37. Isso confere ao instante caráter decisivo, não pertencendo contudo o instante ao homem, pois toda a gravidade da existência se dissiparia e a decisão perderia sua importância, resultando a remissão da existência ao instante de sua eclosão da abertura extática. 38. O instante confere ao homem o peso da responsabilidade, mas só é ponto focal pela natureza da temporalidade ou da transcendência, colocando-se questões essenciais, pois o ser-aí não pode ter constituído a posteriori a unidade da sucessão de seus vividos, já se tendo perdido na exterioridade dessa sucessão. 39. A extensão originária, o movimento de abertura, jamais se perde nem necessita de coerência a posteriori, tendo a constância da temporalidade primitiva antecipado cada instante possível, o que não torna, contudo, inútil a retomada da existência. * O autor afirma que "a decisão resoluta do si-mesmo contra a incoerência é ela própria a continuidade estendida", não sendo a continuidade da existência interrompida, mas antes confirmada no instante, surgindo esses próprios instantes da temporalidade já estendida da repetição. 40. O autor pensa a unidade da extensão como caráter da própria extensão, não tendo esta necessidade alguma de ser unificada de fora por um sujeito ou por Deus, assegurando ela mesma sua unificação, operando-a em seu próprio seio, sendo a retomada da extensão traço dela mesma. 41. É o modo, o gesto pelo qual a extensão assume sua própria unidade, sendo assim a extensão da existência remetida ao homem, tendo por condição que o homem se volte para ela e dela tome conhecimento, sendo esse primado do sujeito, contudo, a prioridade da própria extensão, constituindo-se a extensão a si mesma, sendo a transcendência o fundamento da transcendência. {{tag>Chambon Bollnow Angst}}