===== TEMPO (2023) ===== //BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.// * A seção II.6 trata dos fenômenos do tempo não como teoria destinada a resolver disputas tradicionais, mas como investigação de como o tempo é compreendido, introduzindo em §65 a temporalidade como conjunto de habilidades que articulam futuro, passado e presente como modos de dar sentido à finalidade dos para-os-quais, à anterioridade da jogada e ao agora em que algo surge, passa ou está presente-à-mão, além de desenvolver em §69a a temporalidade da preocupação circunspectiva como compreensão dos aspectos télico e perfeito resultantes da fusão entre tempo verbal, finalidade e anterioridade. * O objetivo é elucidar compreensão e sentido do tempo, não oferecer teoria. * O futuro como vir-a-si é habilidade de compreender a finalidade dos para-os-quais. * O passado como ter-sido é habilidade de compreender a anterioridade da jogada. * O presente como presentificar é habilidade de compreender o agora do surgimento, do perecimento e da presença-à-mão. * §69a desenvolve a preocupação circunspectiva e os aspectos télico e perfeito. * A investigação estende-se à compreensão da sequência de agoras. * A análise parte de Aristóteles, cuja definição do tempo orienta debates posteriores, sendo interpretada como descrição fenomenológica de medir mudança pelo horizonte de antes e depois, com “movimento” entendido como mudança em geral, “contar” como medir, e o antes e o depois como horizonte no qual a mudança é medida enquanto tempo. * “Movimento” inclui aquecer o forno e outras mudanças, não apenas deslocamento. * “Contar” significa medir, não apenas enumerar. * Medir graus de temperatura não basta para determinar tempo. * Medir o aquecimento exige referência ao antes e ao depois. * A presença de antes e depois não é problema quando a meta é descrição fenomenológica, não redução a termos não temporais. * Fenomenologicamente, o tempo aparece como aquilo que é contado ao medir uma mudança do início ao fim por meio de um relógio, no qual a contagem de agoras se efetua ao seguir marcas regulares e dizer “agora e agora” ou “um, dois, três” até obter a medida da duração. * Início e fim da mudança demarcam tempos de começo e término. * A demarcação constitui recorte mensurável de tempo. * Um relógio é requerido como dispositivo de medida. * A contagem acompanha o movimento do ponteiro e marcações. * O resultado da contagem fornece a medida do tempo da mudança. * O tipo paradigmático de mudança medido estrutura a fenomenologia do tempo, e a análise desloca-se da mudança natural privilegiada por Aristóteles para mudanças da vida cotidiana engajada, nas quais a preocupação circunspectiva, fundada em temporalidade, calcula, planeja, previne e toma precauções segundo então, antes e agora. * A vida cotidiana mede mudanças práticas. * A preocupação circunspectiva é descrita como presentificação que retém e espera. * O então indica o que deve acontecer. * O antes indica o que deve ser atendido previamente. * O agora indica compensação do que falhou anteriormente. * A sequência temporal emerge do planejamento e do cálculo prático. * O tempo cotidiano é caracterizado por databilidade, extensão e significância, pois os eventos que duram datam os tempos demarcados, esses tempos são espraiados pela duração, e são apropriados ou inapropriados para certas ações no mundo público-social. * Databilidade: cada tempo é tempo em que algo acontece. * Exemplos de datação incluem cozinhar, levar o carro ao mecânico e queda de um galho. * Extensão: atividades e eventos duram e, por isso, os tempos são espraiados. * Significância: certos tempos pedem comportamentos adequados e excluem outros. * O funeral é tempo apropriado para solenidade e inapropriado para piada. * A medição primária incide sobre atividades e eventos públicos. * O tempo cotidiano é público porque vários podem dizer “agora” conjuntamente ainda que o datem por acontecimentos distintos, e essa publicização apoia-se no ser-no-mundo extático e na jogada de Dasein enquanto existência caída e lançada que interpreta o tempo pela contagem. * O “agora” é dito na publicidade do ser-com-no-mundo. * Cada um pode datar o mesmo “agora” por eventos diferentes. * A publicização do tempo é temporalizada na contagem. * A jogada é indicada como razão pela qual há tempo publicamente. * A familiaridade com eventos publicamente disponíveis sustenta o caráter compartilhado do tempo. * A coordenação efetiva exige um quadro temporal abrangente de cálculo e confiança, no qual a contagem astronômica e calendárica fornece medida pública e simultaneamente utilizável, ancorada em mudanças regulares como dia e noite e no uso do sol como medida disponível. * A datação por eventos locais é inteligível, mas insuficiente para coordenação ampla. * Zeitrechnung envolve cálculo e possibilidade de contar com a medida. * Dasein é descrito como entregue às mudanças de dia e noite. * A preocupação usa a disponibilidade do sol. * A medida pública permite que todos contem com o mesmo padrão. * A fenomenologia do tempo cotidiano culmina na caracterização estrutural de um tempo datável, espraiado e público que pertence ao próprio mundo, denominado tempo-do-mundo, o qual não é ente e excede a dicotomia sujeito-objeto ao ser mais objetivo que objetos e mais subjetivo que sujeitos. * Tempo-do-mundo é nome para o tempo cotidiano assim estruturado. * O pertencimento do tempo ao mundo é afirmado. * A oposição sujeito-objeto é rejeitada no caso do tempo. * A expressão es gibt é aplicada ao haver do tempo. * O tempo-do-mundo é aspecto do ser do mundo, não coisa entre coisas. * A contagem do tempo viabiliza não apenas coordenação interpessoal, mas também racionamento do tempo, exigindo relógio como utensílio disponível cuja recorrência regular se tornou acessível na presentificação expectante e que mede e divide o dia em entãos. * Racionar o tempo envolve definir e distribuir entãos. * A preocupação expectante toma precauções para dividir o dia. * O relógio é caracterizado como algo disponível. * Sua recorrência regular serve à regulação de atividades. * Medir e racionar constituem envolvimentos constitutivos do relógio. * A transição para tempo universal exige padrão estável e presente-à-mão, e a análise é apresentada em três estágios: estabilidade e acessibilidade retiram do tempo sua datação e significância, a contagem trata agoras como intercambiáveis, e a independência resultante favorece a concepção de tempo como recipiente ou contêiner formal que envolve mudanças e permanências. * Estágio 1: coordenação global exige relógio desvinculado de eventos locais. * Acessibilidade universal implica perda de databilidade e significância. * Estágio 2: contar reduz diferenças a posições na sequência. * A contagem permanece independente do conteúdo dos eventos. * Estágio 3: o tempo é concebido como holdaround, contêiner formal. * A presentidade-à-mão do padrão sustenta reificação do tempo. * A reificação do tempo faz os agoras aparecerem como copresentes sob o horizonte ontológico da presença-à-mão, ainda que não explicitamente no mesmo sentido das coisas, e a interpretação ordinária como sequência de agoras é descrita como nivelada e derivada por encobrir databilidade e significância fundadas na constituição extático-horizontal da temporalidade. * Os agoras passam a ser vistos no horizonte da presença-à-mão. * A sequência de agoras omite datação e significância. * O encobrimento elimina a ancoragem em eventos cotidianos. * A contagem pelo relógio substitui a demarcação por acontecimentos. * A neutralidade resultante suprime adequação e inadequação prática. * O nivelamento e o encobrimento têm fundamento no ser de Dasein, pois a perda de si no impessoal envolve fuga e encobrimento da temporalidade, interpretados como olhar-desviado do fim do ser-no-mundo e como modo inautêntico de temporalidade que não reconhece a futuridade autêntica. * A perda no impessoal impede apropriação do morrer como próprio. * A fuga é descrita como olhar-desviado da finitude. * A inautenticidade falha em reconhecer futuridade autêntica. * O impessoal não morre porque não pode morrer. * A morte é descrita como sempre própria e compreendida em resolução antecipadora. * A referência a morte e finitude é esclarecida como limitação estrutural da futuridade e não como simples término biográfico ou contagem de dias, e a gênese da sequência de agoras é vinculada à necessidade prática de racionar tempo e ao “esquecimento” de si que permite ocupação efetiva com o trabalho. * Demise é distinguida do morrer existencial. * Finitude é apresentada como limitação, não como mera quantidade de dias. * A sequência de agoras surge das exigências do agir prático. * Cair é desviar-se de si para focar entes circundantes. * Esquecimento de si é condição de manipulação e trabalho. * A identidade prática recua para que a tarefa possa ser executada. * A estrutura temporal do compreender de si e do mundo é articulada por temporalidade, na qual o ser de Dasein é estruturado pelas três êxtases e o ser dos entes intramundanos é estruturado pela temporalidade da preocupação circunspectiva, resultante da aplicação de presentificação às capacidades de compreender finalidade e anterioridade, gerando os aspectos télico e perfeito. * O compreender do ser de si depende das três êxtases. * O compreender do ser intramundano depende da preocupação circunspectiva. * Presentificação articula o compreender de tempo verbal. * Finalidade e anterioridade estruturam projetos e jogada. * A fusão produz compreensão de aspectos télico e perfeito. * A origem da preocupação circunspectiva é remetida à temporalidade do ser. * A derivação do tempo ordinário como sequência de agoras é defendida como explicação necessária para traços difíceis de justificar de outro modo, sendo tais traços descritos como continuidade, infinitude, irreversibilidade e fluxo, compreendidos como resíduos nivelados de origem em tempo-do-mundo e temporalidade primordial. * A sequência de agoras é apresentada como versão depurada do tempo-do-mundo. * Continuidade decorre do caráter espraiado preservado após perda de datação e significância. * Infinitude segue da referência incessante de cada agora-ainda-não ao seu próprio depois. * Irreversibilidade liga-se à primazia futural da temporalidade e à direcionalidade das tarefas. * Fluxo surge da combinação de continuidade e irreversibilidade, figurado como rio de agoras. * A arbitrariedade e possível incoerência desses traços, exemplificadas pela dificuldade de justificar irreversibilidade e pela problematicidade da metáfora do fluxo, reforçam a tese de que a concepção ordinária tem origem conceitual em tempo-do-mundo e, em última instância, na temporalidade da existência humana. * A reversibilidade não é explicável apenas pela sequência de agoras. * O debate sobre direção do tempo permanece aberto. * A ideia de fluxo implica movimento no tempo e é problemática. * A continuidade, infinitude e fluxo não são autoexplicativos. * A origem proposta explica por que esses traços aparecem na concepção comum. * A cadeia derivativa culmina na designação de temporalidade como tempo primordial, pois o tempo acessível ao senso comum é não originário e surge de temporalidade autêntica, legitimando a denominação segundo o princípio de nomear pelo mais originário. * Tempo ordinário deriva de tempo-do-mundo. * Tempo-do-mundo deriva da temporalidade da preocupação circunspectiva. * Esta deriva da temporalidade da existência. * A temporalidade é chamada tempo primordial. * A justificativa invoca a potiori fit denominatio. * A derivação fenomenológica não exclui investigação científica sobre o tempo, e a utilidade do modelo ordinário permanece possível mesmo quando separado de sua origem, pois diferentes relógios e padrões apenas refinam modos de demarcar agoras no pano de fundo do fluxo temporal vivido. * A origem de um conceito não determina sua utilidade. * O modelo de agoras pode ser aplicado ao mundo natural. * A demarcação por relógios substitui a datação por eventos. * Relógios físicos mais precisos refinam a estabilização pública do agora. * A experiência de agoras demarcados persiste como pano de fundo. * A absorção em tarefas e o esquecimento de si são condições dessa experiência sem implicar ilusão. {{tag>Blattner tempo}}