====== Tempo ====== //BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.// ** A Leitura Heideggeriana de Aristóteles e a Gênese do Tempo do Relógio ** * A investigação da sexta seção da segunda parte de //Ser e Tempo// não objetiva formular uma teoria física ou cosmológica sobre o tempo, mas descrever phenomenologicamente as condições de sua compreensão a partir do cuidado ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]]). * Heidegger retoma a definição clássica de Aristóteles, que baliza toda a tradição ocidental subsequente, para evidenciar como o tempo se introduz em nossa experiência fática: "Pois isto é o tempo: aquilo que é contado no movimento que se encontra no horizonte do Antes e do Depois". * O movimento ([[lx>termos:k:kinesis|Kinesis]]) na física aristotélica refere-se a qualquer modalidade de mudança e transição, transcendendo a mera locomoção espacial. * A ação de contar ou medir a mudança não se esgota na quantificação de grandezas físicas isoladas, mas exige a demarcação das alterações dentro do horizonte prévio do antes ([[lx>termos:f:fruher|Früher]]) e do depois ([[lx>termos:s:spater|Später]]). * O recurso a um instrumento de medição como o relógio permite demarcar e quantificar a mudança sob a forma de uma sequência de "agoras" ([[lx>termos:j:jetzt|jetzt]]) sucessivos e contados. ** A Estrutura do Tempo do Mundo: Databilidade, Extensão e Publicidade ** * A compreensão originária do tempo fundamenta-se na ocupação circunspecta cotidiana (besorgende [[lx>termos:u:umsicht|Umsicht]]), na qual o ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]) calcula, planeja e previne acontecimentos em seu ambiente. * A cotidianidade do ser-aí (Dasein) expressa-se na demarcação de horizontes temporais práticos ligados ao agir: "A ocupação do senso comum circunspecto funda-se na temporalidade — de fato, sob a modalidade de um presentificar que retém e espera. Tal ocupação, como cálculo, planejamento, prevenção ou precaução concernida, sempre diz (seja audivelmente ou não) que algo deve acontecer 'então', que outra coisa deve ser tratada 'antes', que o que falhou ou nos escapou 'naquela antiga ocasião' é algo que devemos 'agora' compensar". * O tempo cotidiano possui a determinação essencial da databilidade ([[lx>termos:d:datierbarkeit|Datierbarkeit]]), caracterizando-se sempre como o tempo em que determinado evento ou atividade fática ocorre no mundo. * Os eventos cotidianos estendem-se no tempo, de modo que os períodos em que transcorrem são dotados de uma extensão ou amplitude ([[lx>termos:g:gespanntheit|Gespanntheit]]). * O tempo do mundo é intrinsecamente dotado de significatividade ([[lx>termos:b:bedeutsamidade|Bedeutsamidade]]), dividindo-se em tempos apropriados ou inapropriados para a realização de determinadas condutas sociais. * O tempo cotidiano é essencialmente público ([[lx>termos:ö:offentlich|öffentlich]]), possibilitando a coordenação das ações dos agentes inseridos em um horizonte de ser-com ([[lx>termos:m:mitsein|Mitsein]]). * Na publicidade do ser-com no mundo, diferentes pessoas podem pronunciar o "agora" simultaneamente, embora atribuam datas distintas a esse mesmo instante com base em suas respectivas ocupações: "No ser-com-um-outro 'mais íntimo' de várias pessoas, elas podem dizer 'agora' e dizê-lo 'juntas', embora cada uma delas atribua uma data diferente ao 'agora' que está dizendo: agora que isto ou aquilo aconteceu. [...] O 'agora' expresso é dito por cada um na publicidade do ser-com-um-outro-no-mundo. Assim, o tempo que qualquer ser-aí interpretou e expressou atualmente já foi, como tal, tornado público com base no ser-extático-no-mundo desse ser-aí". * A faticidade do lançamento do ser-aí (Dasein) em um mundo partilhado constitui a base que torna o tempo publicamente acessível por meio do cálculo ou cômputo do tempo ([[lx>termos:z:zeitrechnung|Zeitrechnung]]): "Porque é essencial ao ser-aí que ele exista decadentemente como algo lançado, ele interpreta seu tempo de modo concernido por meio do cômputo do tempo. Nisso, o 'real' tornar-público do tempo se temporaliza, de modo que devemos dizer que a decadência lançada do ser-aí é a razão pela qual 'há' tempo publicamente". * A necessidade de coordenação mútua impõe o recurso a referenciais astronômicos e calendários partilhados, a começar pela alternância regular entre o dia e a noite. * A ocupação humana apoia-se na presença constante e utilizável do sol como medida pública e estável que rege as atividades diárias: "A ocupação faz uso do 'estar-à-mão' do sol". * A caracterização fenomenológica completa do tempo cotidiano define-o como estruturalmente datável, estendido e público, pertencendo diretamente à constituição do próprio mundo: "Somente agora, em todo caso, o tempo com o qual nos ocupamos pode ser completamente caracterizado quanto à sua estrutura: ele é datável, estendido e público; e, tendo essa estrutura, ele pertence ao próprio mundo". * O tempo do mundo ou tempo-do-mundo ([[lx>termos:w:weltzeit|Weltzeit]]) não assume o estatuto de um ente subjetivo ou objetivo em termos tradicionais, mostrando-se mais objetivo do que qualquer objeto e mais subjetivo do que qualquer sujeito. ** O Nivelamento do Tempo e a Gênese da Concepção Vulgar de Tempo ** * A transição do tempo do mundo (Weltzeit) para a concepção vulgar de tempo como uma sequência infinita de "agoras" resulta das demandas práticas de cálculo e de racionamento do tempo ([[lx>termos:s:sich-zeit-nehmen|Sich-zeit-nehmen]]). * O cálculo rigoroso exige a adoção de um padrão estável, homogêneo e universalmente acessível, o qual deve se apresentar de forma constante para todos: "A ideia de um padrão [para a medição do tempo] implica imutabilidade; isto significa que, para todos, a qualquer momento, o padrão, em sua estabilidade, deve estar presente". * A utilização de relógios padronizados promove a neutralização da databilidade e da significatividade originais do tempo do mundo, restando uma multiplicidade de "agoras" homogêneos interpretados na linha da simples presença ([[lx>termos:v:vorhandenheit|Vorhandenheit]]): "Este tempo que é 'universalmente' acessível nos relógios é algo com que nos deparamos como uma multiplicidade presente de Agoras, por assim dizer, embora a medição do tempo não seja direcionada tematicamente para o tempo como tal". * A contagem efetuada pelo acompanhamento dos ponteiros do relógio despoja os momentos de sua vinculação com as atividades fáticas, tratando-os como unidades idênticas e intercambiáveis cuja única distinção é sua posição na ordem sucessiva. * Na ontologia tradicional, o tempo passa a ser concebido como um receptáculo ou continente abstrato que envolve as mudanças e permanências das coisas sem se misturar com elas. * Os "agoras" passam a ser encarados sob o horizonte ontológico da presença: "Assim, os Agoras são, de certa maneira, co-presentes: isto é, os entes vêm ao encontro, e assim também o faz o Agora. Embora não seja dito explicitamente que os Agoras estão presentes da mesma maneira que as coisas, eles ainda são 'vistos' ontologicamente dentro do horizonte da ideia de presença". ** A Fuga Diante da Finitude e o Encobertamento da Temporalidade ** * O encobertamento e o nivelamento ([[lx>termos:n:nivellierung|Nivellierung]]) das estruturas da databilidade e da significatividade do tempo possuem suas raízes na própria constituição existencial do ser-aí (Dasein) e em sua tendência à decadência ([[lx>termos:v:verfall|Verfall]]). * Ao absorver-se na cotidianidade do impessoal ([[lx>termos:d:das-man|das Man]]), o ser-aí (Dasein) encobre a temporalidade originária e se afasta da confrontação com a morte existencial e com a finitude de seu próprio poder-ser ([[lx>termos:s:seinkonnen|Seinkönnen]]): "No encobertamento dos caracteres de databilidade e significatividade, a constituição êxtase-horizontal da temporalidade, na qual a databilidade e a significatividade do Agora se fundam, é nivelada". * A tentativa de esquivar-se da finitude conduz à formulação de uma concepção de tempo infinito e interminável, evitando a percepção de que o tempo de que se dispõe é ontologicamente limitado. * A inautenticidade do cotidiano desvia o olhar da finitude e obscurece a dimensão do futuro próprio: "Nessa fuga concernida reside uma fuga diante da morte — isto é, um desviar de olhos do fim do ser-no-mundo. Esse desviar de olhos dele é, em si mesmo, um modo daquele ser-para-o-fim que é ecstasticamente futural. A temporalidade imprópria do ser-aí cotidiano à medida que decai deve, como tal desviar de olhos da finitude, falhar em reconhecer o futuro próprio e, com isso, a temporalidade em geral. [...] O impessoal nunca morre porque não pode morrer; pois a morte é, em cada caso, minha, e somente na resolução precursora ela é propriamente compreendida de modo existencial". * O obscurecimento da identidade prática no manuseio cotidiano dos utensílios constitui um esquecimento ([[lx>termos:v:vergessen|Vergessen]]) constitutivo e necessário para o êxito das tarefas práticas. * Para que o agente possa manipular eficazmente um instrumento, seu si-mesmo deve recuar para o plano de fundo, evitando que a atenção se divida entre a execução do trabalho e a reflexão sobre a própria identidade: "Um tipo específico de esquecimento é essencial para a temporalidade que é constitutiva para deixar algo ser ocupado. O si-mesmo deve esquecer a si mesmo se, perdido no mundo dos utensílios, ele deve ser capaz de 'efetivamente' ir ao trabalho e manipular algo". ** A Explicação Fenomenológica das Propriedades do Tempo Vulgar ** * As quatro características atribuídas tradicionalmente ao tempo vulgar — continuidade, infinitude, irreversibilidade e fluxo — encontram sua explicação genética e fenomenológica como derivações degradadas da temporalidade originária. * A continuidade do tempo (ausência de lacunas) provém do caráter estendido da distensão ([[lx>termos:e:erstreckung|Erstreckung]]) da própria existência, que se projeta continuamente a partir de seu ter-sido em direção às suas possibilidades futuras. * A infinitude do tempo origina-se do processo reflexivo de pensar o tempo até o fim, onde cada limite colocado sob a forma de um "agora-ainda-não" remete constitutivamente a um posterior "depois", gerando a ilusão de uma sucessão inesgotável. * A irreversibilidade do fluxo do tempo (a flecha do tempo) constitui o vestígio da direção existencial e teleológica da temporalidade originária, que é primariamente orientada ao futuro e caminha em direção ao seu limite extremo. * A impossibilidade de reverter a sequência de "agoras" baseia-se na prioridade do futuro que caracteriza o cuidado ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]]): "Na interpretação comum, a corrente do tempo é definida como uma sucessão irreversível. [...] A impossibilidade desta reversão tem sua base no modo como o tempo público se origina na temporalidade, cujo temporalizar é primariamente futural e 'vai' para o seu fim ecstasticamente de tal modo que já 'é' em direção ao seu fim". * A metáfora do tempo como um rio que flui e passa sem poder ser detido reflete a impossibilidade de estancar a dinâmica de projeção e transição contida em cada momento da existência fática. ** A Temporalidade como Tempo Originário ** * A demonstração de que o tempo comum e utilizável pelo senso comum deriva das estruturas da temporalidade própria justifica a designação desta última como o tempo originário ou primordial (ursprüngliche Zeit). * Se o tempo acessível ao entendimento cotidiano não é originário, mas provém da temporalidade autêntica, torna-se legítimo nomear a temporalidade desvelada como o tempo primordial: "Se, portanto, demonstramos que o 'tempo' que é acessível ao senso comum do ser-aí não é originário, mas surge, antes, da temporalidade própria, então, de acordo com o princípio //a potiori fit denominatio//, estamos justificados em designar como tempo originário a temporalidade que agora desvelamos". * A derivação fenomenológica da concepção vulgar de tempo a partir do tempo do mundo e da temporalidade existencial não anula a utilidade prática ou científica dos modelos de medição cronológica. * O desenvolvimento de relógios de altíssima precisão pela física contemporânea representa a sofisticação técnica da capacidade existencial de demarcar o tempo e de pronunciar o "agora" de maneira estável no horizonte compartilhado do mundo. {{tag>Blattner tempo}}